<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565</id><updated>2012-02-19T20:04:39.867Z</updated><category term='Com dedicatória'/><category term='Poesia'/><category term='Objectos de culto'/><category term='Do cesto dos papéis'/><category term='Prosa'/><category term='Este país não é para velhos'/><title type='text'>Outra na ferradura</title><subtitle type='html'>PORQUE DOS FRACOS NÃO REZA A HISTÓRIA

(Introspecções e Verossimilhanças)</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>135</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-1051093681040104985</id><published>2011-11-27T02:11:00.001Z</published><updated>2011-12-06T01:07:13.074Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>São cruzes, senhor.</title><content type='html'>Ligado à máquina...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É sempre um passo difícil, largar a aflitiva realidade e mergulhar neste isolamento ansiolítico, e podia pensar-se que seria um refúgio, mas não é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá, é simples, as coisas derivam e escolhemos as interacções, consoante casualmente nos atinjam ou pretendamos atingir. Aqui, invariavelmente, tudo nos atinge e temos de abrir caminho pela pesada tralha que nos sujeita à aparente passividade. Na verdade há tanto a tirar de cima que chego a pensar se, depois de cá vir, conseguirei sair do lodaçal que me sufoca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De súbito invade-me a ideia de como seria se ficasse aqui para sempre, assim como os volumes que me olham do cimo destas prateleiras. São cruzes, quase todos, marcam a localização de entes que partiram mas que podemos visitar para uma vénia, um derradeiro adeus, uma flor na campa. Ficaria aqui sentado, ligado à máquina que se alimenta a chouriço e casqueiro, até que o pó me cobrisse, entupisse o aparo e estagnasse a corrente; o braço a mexer invariavelmente, com uma tremura lânguida, as letras imaginárias; os olhos semi-cerrados; e mais nada, até ao fim da eternidade. Por isso temo sempre o regresso. Ainda que consiga desligar o braço a tempo, há sempre algo que acaba por ir parar à prateleira e que fica ali a olhar para mim, à espera da tal vénia, de um acenar saudoso ou de um aroma a crisântemo que lhe eleve a alma, e torço para que não seja eu a cruz que ali falta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até por isso recorro com frequência a um subterfúgio, deixo-a ali a dar ao braço, enquanto vagueio por outros sítios que me trazem melhores recordações; nessas alturas fico atento à criatura, que não venha no meu encalço, que não descubra o que ando a fazer, enquanto a vejo dedicada, imersa na imensidão de escombros, a tentar desenvencilhar-se, e parto para a prateleira das recordações, onde as cruzes são etéreas. A memória é uma amante traiçoeira, sempre pronta a afirmar tudo o que me convenha para o bem e para o mal, uma pretensiosa meretriz que se aproveita da minha necessidade para me encher de convicções de que também se empanturra. E no entanto é essa mentirosa que me conforta, que me aperta a bochecha entre os dedos de uma velha e que me sussurra ao ouvido:&amp;nbsp; "que linda bochechinha" , e ali fico a sonhar, a sentir um leve ardor na bochecha e a recordar dias em que as cruzes não faziam sentido. E de repente todas as velhas me parecem dignas de me ter apertado as bochechas, vá-se lá saber porquê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duas mãos firmes nas minhas costas empurram-me num baloiço, o meu joelho esfolado; sempre tive um joelho esfolado. Agora cai-me um dente de leite, vejo-me ao espelho com um &amp;nbsp;sorriso desdentado, mas não sou eu, é a criatura. Eu nunca tive dentes de leite, ou tive? Fico confuso, a memória a rir-se de mim e eu, como de costume, estatelado ao comprido, com um fio de sangue a brotar do joelho. O sangue é sempre meu, até o do perú do natal e o do porco da matança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho para a criatura, maquinal, frente à sua página, debate-se, atolada. Enquanto tricota, confiro-lhe a solidez do relato, verifico a escolha dos caminhos mais fáceis de que se socorre; vem-me à ideia que procurará uma saída airosa que justificasse a sua independência de mim. Não a censuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faz hoje cinquenta anos que convivo com ela, sei, sempre soube, que um dia me há-de abandonar à minha sorte, e eu talvez nunca venha a saber se as memórias são minhas ou dela. Tolerante, ou simplesmente interessado, acabo-lhe de novo com o sofrimento, ocupo-a, tiro-lhe a caneta da mão, tranquilizo-a. Arrumo na prateleira outra cruz, que trás com ela, dos destroços onde nos tínhamos enterrado. Nesta simbiose encontro-me velho e tenho até vontade de lhe agarrar na bochecha descarnada e de lhe dizer ao ouvido: "que linda bochechinha", mas contenho-me; ela saberia o tamanho da minha hipocrisia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou sempre eu quem salva a criatura fleumática, sem especial prazer, apenas porque preciso dela para transcrever o sorriso desdentado ou as lágrimas saudosas que algumas cruzes me provocam, pontualmente, à medida que vou interiorizando, com um aceno tímido e uma pressentida fragrância a crisântemo, que nunca as poderei voltar a visitar. &amp;nbsp; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2011&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clique do &lt;a href="http://photomelomanias.blogspot.com/" target="_blank"&gt;the dear Zé&lt;/a&gt;:&lt;br /&gt;&lt;iframe allowfullscreen="" frameborder="0" height="140" src="http://www.youtube.com/embed/Yzup8j-Ifzk" width="205"&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-1051093681040104985?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/1051093681040104985/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=1051093681040104985&amp;isPopup=true' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/1051093681040104985'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/1051093681040104985'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2011/11/sao-cruzes-senhor.html' title='São cruzes, senhor.'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://img.youtube.com/vi/Yzup8j-Ifzk/default.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-127250583048870678</id><published>2011-10-21T12:22:00.001+01:00</published><updated>2011-10-21T12:38:20.029+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Quase nada</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal"&gt;Preciso só de um bocadinho. Pouco, poucochinho, como se não fosse nada, quase nada. Uma pequena porção de quase tudo mas numa ínfima dimensão, à minha medida. Que pequeno vou ficando; à medida das porções que me calham, diria. Foi por mim que se inventaram os diminutivos, todos eles pequeninos; à medida dos dias que se me vão encolhendo. Como este país, este povo que me olha sem me ver; meu, mas para quem não existo, a não ser para alguns muito poucos, poucochinhos, como eu.&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Também os desabafos se me vão esvaindo, poucos e pequeninos. Há quem desabafe em catadupas de resmas, eu desabafo em poucas linhas, um romance seria impensável. Recordo-me de quando me sento com alguém que me começa a contar algo sobre qualquer assunto e eu a resumir, a pensar qual a razão de tanta pontuação, tanto parágrafo, que pares, não me contes a tua vida desde pequeno, é igual à minha, pequena afinal; poucas linhas, é tudo o que me interessa, diz-me só o que quero saber, que é tão pouco, deixa o resto, é excessivo extravasa-me; mas calo-me, num silêncio pequeno que ninguém escuta senão eu. Um silêncio à minha medida afinal. Não acho interessante que me digas que, dantes, quando bebias se te rebentava a boca e que, agora, quando bebes se te rebenta o cu, espanto-me mas fica-me o apontamento, essa parte que não me interessa pode vir a interessar-me, guardo-o, como um parafuso solto na caixa de ferramentas, uma sobra que poderá um dia segurar algum alicerce de alguma obra, pequenina também, decerto; esboço um sorriso complacente, desta vez ouço; o resto não me cabe na caixa de ferramentas, deixa, não insistas. De repente apetece-me beber, beber até rebentar por uma costura qualquer, até que verta pelos poros, ainda que poucochinho sem ensopar, apenas uma humidadezinha exígua e purulenta, enojante como qualquer coisa desprezível e humana, pequenina afinal.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Vem-me de súbito à memória aquela dor de ventre, aquela em que corro num desespero de condenado e encontro a porcelana mesmo a horas de não passar um embaraço. Sem pensar na insanidade que é o facto de algo tão natural me condenar a esse tal embaraço, atiro-me a ela, à tal porcelana, sem pensar como seria a minha vida sem um pequeno pedaço de porcelana nessas horas inconvenientes; qual marca? Não é Limoges, é simples e plebeia, como eu, será que alguma vez fui Limoges? Se fui já estou no quintal cheio de ração para o cão, passei de moda. Há cães que comem em Limoges, e homens que comem em malga de plástico. O importante para mim é que coma, chega-me.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Nunca posso ter sido Limoges, se o tivesse sido estaria agora melancólico e deprimido, ou apenas partido em cacos, deitado ao lixo, sem servir nem para a ração do cão. Sou mais malga de plástico, que se vai arrastando pelo chão cimentado, por cima de um ou outro excremento, riscada, sebosa, mas que perdura em desafio ao sol e à chuva. De vez em quando levo com a ração em cima e vivo das lambidelas do cão, são elas que justificam que não me deitem no lixo, se o cão morre nada me salva. Plástico à parte, somos assim como a porcelana, uma destina-se ao castigo, outra para aparar os requintados manjares de príncipes. Tudo porcelana e no entanto a diferença inexplicável, será a forma que nos destina? Ou antes o destino que nos dá a forma? Tu és sanita, e tu uma terrina delicada.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Então, senhor António, hoje só leva dois papo-secos, isso não é poucochinho?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Poucochinho sou eu, mas não digo, calo-me e vou andando, de mansinho. Nunca fui capaz de nada grandioso que me livrasse desta pequenez insignificante. Desta humildade mesquinha e tacanha que me impele para as profundezas da simpatia embirrante e peganhenta que me atabafa e me consome, incapaz de me libertar acabo por simpatizar com tudo o que me odeia, e odeio-me a mim próprio por isso. Mas é um ódiozinho imperceptível, insignificante que nem medra nem se consome.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Pudesse eu voltar a ser mulher, que todos o fomos um dia até nos terem separado dessa carne milagrosa, o eterno desejo de recomeço; a inexplicável natureza, que me torna fruto da insanidade que subjaz à ideia de que uma cebola pudesse alguma vez ter parido uma batata; ainda que fosse pequenina seria grandiosa, assim sou quase nada, não tenho essa maravilhosa capacidade de instigar o prazer e a dor conceptuais que todas elas têm. Agora, é tarde demais.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;No fim do tempo há-de bastar-me apenas um pouco de morte, não me deixem muita, só um bocadinho basta, e uma terrinha, uma florzinha, um bocadinho de água para que se mantenha viçosa, basta-me isso e o pequenino esquecimento que me há-de eternizar, é só o que peço.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Não é nada, enfim, quase nada. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2011&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-127250583048870678?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/127250583048870678/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=127250583048870678&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/127250583048870678'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/127250583048870678'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2011/10/quase-nada.html' title='Quase nada'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-3250118279599313260</id><published>2011-08-23T01:12:00.000+01:00</published><updated>2011-08-23T01:12:28.612+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Bicho raro</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal"&gt;Há duas espécies de Homens: os que lêem e os que criam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve um livro que quis ler e não li. Odiei-o, não o compreendi. Quase obliterei o autor nesse dia, mas degredei-o por anos. Ele um génio, eu imbecil. Depois percebi, faltava-me tempo e caminho. Ofereci esse livro, que ainda temo, por altura da minha incompetência. Nunca voltei a tentá-lo. Optei por outros e hoje, esse autor que desdenhei, quero que viva para sempre, por ser um dos meus favoritos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque há duas espécies de Homens: os que se arrependem e os que nunca reconsideram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante anos temi pegar numa caneta. Quanto mais lia mais evitava. Deixei de ler. Restaram as memórias obscuras da minha realidade singela, exígua, perante a imensidão de clarividência alheia que me assombrava de fora. Assisti impávido à vida dos outros, como livros abertos que me desinteressavam, as suas realidades exóticas, os seus feitos excêntricos, apontamentos publicitários de uma existência que desconheço. Incompreendido, por não saber copiar, pesaram-me os olhares que sustentei de reprovação e calúnia. O medo de reproduzir assolava-me com frequência, a insónia dominava-me por vezes, pelo temor de não conseguir recordar o que era incapaz de redigir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque há duas espécies de Homens: os valentes e os cobardes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Compreendi que, para ter memórias, não precisava de ler; precisava de ter vivido. Deixei-me então levar sem resistir. As mentiras em que me refugiei faziam acreditar que vivia. A honestidade tem implícitos a resistência, o exemplo, a discórdia, a acção. Todos incapacidades que assumi, inocentemente, com frequência. Infiel a mim próprio, percorri caminhos paralelos ao traçado que deveria ser o meu, alguns sem retorno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque há duas espécies de Homens: os leais e os que mentem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui comandante inepto, subalterno de incompetentes e servidor de incapazes; nem sempre por esta ordem. Corrompi-me a construir destinos que, por simpatia apenas, construíam o meu. Perdi batalhas e guerras, das que venci não me restou particular orgulho, por não serem maioritariamente minhas; das outras não há registos que me socorram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque há duas espécies de Homens: os que montam e os que se deixam montar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cedência a paixões, fraqueza congénita, condenou-me por fim a aceitar o meu destino. A medo encetei um livro e li-o em desespero. A dificuldade de lidar com os conceitos, de voltar a apreender o alheio, o medo do regresso à intrusão na essência de alguém, fui-os dizimando em parágrafos, páginas, capítulos. Entreguei-me por fim, como quem reconhece uma amante e a beija com fervor, sequioso, após anos de contenção. Voltei a temer perder a escrita outra vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque há duas espécies de Homens: os que amam e os que só conhecem o desdém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descuro com frequência os interesses que não me interessam, sinto-me um pária também, por vezes; mas os que me interessam persigo-os com fervor, sem esperança na conquista de adeptos para a minha causa. Uma tenacidade invisível mas indelével impele-me como um instinto, por vezes para o abismo, destino que pelo meu egoísmo atinjo sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque há duas espécies de Homens: os que vivem e os que vão morrendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gosto de caminhar na areia húmida, onde as ondas se abatem; ver essa força imensa recear os meus passos e recuar perante a minha insignificância. Uns dias sou da terra, noutros sou das águas, nestes chego a acreditar que é a terra que me teme e que me deixará cavalgá-la eternamente; é nos outros que reconheço como estou enganado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque há duas espécies de Homens: os que escutam o mar num búzio e os que recolhem búzios no mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por haver apenas duas espécies de Homens, e não me enquadrar em nenhuma, suspeito que poderei ser afinal o único cromo desta caderneta; um exemplar de uma terceira espécie, em vias de extinção mas sem &amp;nbsp;protector que me valha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;/div&gt;© CybeRider - 2011&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-3250118279599313260?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/3250118279599313260/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=3250118279599313260&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/3250118279599313260'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/3250118279599313260'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2011/08/bicho-raro.html' title='Bicho raro'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-755208933043623513</id><published>2011-07-19T23:56:00.000+01:00</published><updated>2011-07-19T23:56:47.154+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Encontros a dois tempos</title><content type='html'>Só posso provar que cumpri um encontro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi há muito. Nesse dia longínquo cumpri, estava lá à hora certa no lugar certo. Foi a única vez. Talvez nunca venha a saber quantos encontros terei perdido na eternidade, desses outros também não me lembro, talvez fossem meros desencontros que motivaram que àquele não tenha faltado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir desse dia a minha vida tem sido um somatório de desencontros em que há quem chegue e quem parta. Vemo-nos ocasionalmente, mas uns estão invariavelmente de saída quando chego e outros estão a chegar no momento em que me preparo para partir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda hoje não consigo combinar um encontro. Se me perguntam a que horas me convém, devolvo sempre a pergunta e, a partir desse momento, sou eu quem tenta ajustar o tempo para conseguir chegar a horas ao combinado. Sempre sem sucesso. Por vezes esperam por mim, para me dizer que estão de partida, outras vezes chego e confesso que afinal não posso ficar. Frequentemente assola-me o desalento de saber que não posso perpetuar o momento. Tudo não passa de uma imensidão de despedidas. O abraço da chegada é já o prenúncio desse momento fatídico. Eles vão e eu fico a vê-los partir, desolado por não ter conseguido cumprir o encontro. Outras vezes são eles que ficam quando eu parto; não olho para trás com receio de que não consiga prosseguir, para o próximo desencontro que marquei, se os vir a acenar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há uma zona cinzenta entre cada chegada e cada partida. Ninguém pode partir sem ter onde chegar, nem pode chegar sem ter partido de alguém. A ser sincero teria de confessar que me atrofia e me deprime; o cinzento não me satisfaz, mas o branco e o preto são exacerbos a que não me posso permitir, meras cogitações quantificantes do que será sempre incomensurável. Apesar disso é esse cinzento que se assemelha à simbiose de um encontro, quase perfeita, apesar de ser mera imitação&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos bons e aos maus encontros acorro com igual desvelo. A curiosidade pelo futuro próximo leva-me a reunir esforços de pontualidade que me surpreendem quando os reconheço. E o desfecho é invariavelmente o mesmo, nada permanece nem se altera de forma tão indelével que me reponha a esperança nas marcações que, algumas a meu pedido, me impõem. Tudo se mantém num infindável marasmo de incertezas vãs onde abunda a futilidade de momentos cuja história é hoje potencialmente forte mas exígua na efectiva exequibilidade, principalmente por tudo o que fica por dizer, por falta de tempo e pelas incertezas próprias de um futuro que não domino.&amp;nbsp; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há quem afirme que tenho um encontro marcado a que não posso faltar. A ser verdade, não fui eu que o marquei; como sempre, deixei à outra parte a veleidade, desta feita em desafio. Dizem que, quando lá chegar, não poderei partir, assim tempo não me faltará. É um encontro verdadeiro com hora e local certos, embora de momento os desconheça, mas palpita-me que vou lá estar. A concretizar-se será, certamente, o segundo encontro que conseguirei cumprir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E esse é, de todos, o único a que gostaria de poder chegar bastante atrasado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2011&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-755208933043623513?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/755208933043623513/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=755208933043623513&amp;isPopup=true' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/755208933043623513'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/755208933043623513'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2011/07/encontros-dois-tempos.html' title='Encontros a dois tempos'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-3604025069153623335</id><published>2011-06-16T13:40:00.002+01:00</published><updated>2011-06-17T01:52:54.265+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Tráfego</title><content type='html'>Ainda é cedo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tão cedo que o Sol me fere a vista e sinto exalar-se-me uma poeira como se a manhã quisesse esfumar o que resta do meu sangue de morcego. Só nesta altura do ano ainda é de dia a esta hora. Já vejo tanto disparate; percorro a distância até ao outro bloco onde tinha deixado o automóvel. Não preciso de ir tão longe para ouvir os berros daquela que grita todos os dias e horas com a sua prole, não sei como os vizinhos a aguentam, ouço-lhe claramente os despautérios e ainda não lhe consigo tirar a limpo as feições para, se me encontrasse com ela noutra rua, mudar de passeio ou de caminho. Talvez seja a vista que está também a amorcegar, qualquer dia só me guio pelos sons; terá de bastar. Ah, ei-la; agarra o gaiato por um braço enquanto as palavras matraqueiam a cabeça do infante e os meus ouvidos, que de repente, pela hora, ganharam superpoderes. Em horas normais já não destrinço com nitidez o que me dizem; principalmente se não me convém. Umas coisas ficam-se antes dos ouvidos, outras não atingem a ideia; isto sim que é da idade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rodo a chave, pega, tenho de contornar o condutor que está parado frente a um lugar vago no estacionamento, mas que teima em ocupar a faixa de rodagem, imóvel, mas principalmente inamovível. Não me vê. O olhar sonda-lhe o infinito, talvez com a mesma dificuldade que eu sinto, dou-lhe o benefício da morceguidade e sigo. Não vou dizer que era uma senhora, seria impróprio. A mesma impropriedade que seria dizer que os fulanos que me assaltaram de novo o covil ontem, como há oito meses, eram marcianos. Ficava-me mal. Afinal eu sou morcego e não quero que me descriminem por isso. Se fosse um homem eu teria tido, contra todas as probabilidades, uma piadola a preceito; arriscando um par de murros que me deixasse os dois olhos negros. A esta hora também pouca falta me fariam, continuo ligado ao sonar. Assim, não digo nada. Sigo, a pensar nos marcianos de ontem. Apanharam um com as mãos na massa. Perguntaram-me se me faltava muita massa mas, do pouco que havia antes, já tinham levado quase tudo da outra vez. Desta reforçaram a ideia, com consequente menos proveito. Não quero mal à Márcia por isso, que culpa tem ela do destino destes seus marcianos? Continuo em voo rasante; a esta hora só consigo voar baixinho. Já se me atravessaram três no caminho, subtraindo a minha prioridade. Estes eram todos homens, mas também não vou dizer isso; devia antes fazer como nas notícias, inventar todos os detalhes e deixar a certeza dos sujeitos todos pelo indefinido: condutores. Outra vez, não digo nada. Mas isso fazia-os todos homens, e alguns bem sei que são ratos. A prioridade é assim como a minha rua, tão minha que nem lugar para estacionar me deixam. Morcego como sou penduro-me das árvores; deve ser o que eles pensam, com razão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho pressa. Para me levantar a esta hora, tenho mesmo muita pressa. Só o dever me impele a sair da toca tão cedo, principalmente depois do dia de ontem em contacto com o lado negro da força. Que me levantasse mais cedo? Isso aumentaria a injustiça da coisa! Amarelo, prego a fundo. Morre-se na estrada... Não falo de sinistralidade, falo dos que se levantam cedo e empastelam a paisagem num marasmo atroz, se tivessem de voar como eu caíam da terra abaixo, sem potência que os levantasse. Sai! Sai! Tenho pressa! Na verdade voo sempre em silêncio, imperceptível. Já me esqueci da última vez que usei uma buzina em desespero ou esbracejei com alguém, já não tenho idade para andar por aí com dois olhos negros trocados pela razão que os justificassem. Amarelo, prego a fundo; que também temos todos os defeitos dos marcianos e mais esse, nós os morcegos que voam de manhã cedo, baixinho e com pressa. Olho os galos da alvorada, debicando aqui e ali sem destino certo. Odeio-os por um instante e descomprimo num sopro, como se quisesse fazer esvoaçar aquela alma inocente que estacou à minha frente para deixar passar um peão fora da passadeira; há tempo para a simpatia, entre os humanos. Eu sou um morcego, com muita vontade de cumprir e voltar à toca. Tenho pressa. Verde, e o velocímetro a trinta... Três carros à minha frente, quase que dava para tentar o salto. Chamavam-me doido. Nunca me compreendem, fico-me. No retrovisor dois olhos injectados de sangue, os meus, quase cegos pela luz. As poucas horas dormidas não completaram a metamorfose, ainda sou meia crisálida. Vermelho, paro outra vez. Numa cidade grande já tinha saído do carro e rebentado os miolos em vermelho; em silêncio, sem gesticular como sempre faço. Aqui fico-me, outra vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um passo solto para a esquerda aflora a passadeira de costas para mim no exacto momento em que vou a passar; não me poupa ao "cabrão"; fico-me outra vez, a pensar que deveriam também os peões ter cornos com piscas, como hipotéticos marcianos, facilitava e poupava-me à injúria de me magoarem por eventuais ofensas de quem me atura; injustiças...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os morcegos não voam a esta hora, sou um estranho no meio do mundo que não entendo. No meu mundo o normal parece ser tudo ao contrário, com a terra por cima e o céu, negro, por baixo. Ninguém me convence que a normalidade não é com a terra por cima... Por agora quero virar para a esquerda e todas as setas apontam para a direita, não conheço quem as pôs, só a simbologia, que agora me obriga como a todos os humanos a viver com a terra por baixo, a ampará-los como os vasos às plantas. Isso não pode ser normal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se eles tivessem o gosto que tenho por se pendurarem duma árvore até que a noite viesse e pudessem voar, teriam pressa, daquela de ver mais mundo antes de ficarem com a terra por cima. Mas aqui e agora ninguém voa. Só eu, baixinho ainda, sempre em silêncio e sem que ninguém veja:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amarelo, prego a fundo. Falta-me percurso para completar a metamorfose.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2011&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-3604025069153623335?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/3604025069153623335/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=3604025069153623335&amp;isPopup=true' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/3604025069153623335'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/3604025069153623335'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2011/06/trafego.html' title='Tráfego'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-3421676605851668090</id><published>2011-05-11T16:24:00.002+01:00</published><updated>2011-05-13T23:05:16.007+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Caixinhas</title><content type='html'>Assim que nasceu puseram-no delicadamente numa caixinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adoraram-no, mimaram-no, deixaram-no crescer. Já vinha de longe o costume de encaixotar as preciosidades. &amp;nbsp;Encaixotá-las e escondê-las das vistas alheias e dos perigos emergentes do meio, como se se pretendesse guardá-las para sempre. Ao longo de milénios foram aprimorando esse sentido de apreciar mais e mais os seus rebentos, guardando-os em caixinhas, umas um pouco maiores outras um pouco menores, à medida das possibilidades, mas sempre com o mesmo intuito. Faziam uns com os outros o mesmo que faziam com os seus ridículos haveres; guardavam tudo em pequenas caixinhas, maiores ou menores, mais ou menos bonitas, à medida das suas possibilidades, à medida exacta do que cada um podia carregar, ainda que não fosse para levar para parte alguma. Já ninguém questionava a razão de viverem em caixinhas, de onde saíam apenas para desempenhar papéis que lhes eram atribuídos e pagos pela comunidade que trocava desempenhos, sem nada criar que não tivesse como objectivo a construção de novas caixinhas, meros guarda-jóias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aprenderam a deslocar-se em caixinhas também, algumas serviam-lhes mesmo de habitação. O ciclo repetia-se, nascer, encaixotar, crescer, encaixotar, reproduzir-se, encaixotar. &amp;nbsp; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste desvelo não percebiam que a singularidade se perdia, a ausência de contacto motivava o individualismo e fomentava a prepotência de cada um a uma anti-sociabilidade atroz. Convencidos da sua singularidade consideravam-se superiores a todos os seus iguais, que viviam noutras caixinhas, ainda que as suas diferenças fossem apenas fruto da sua própria imaginação. A massificação, que produzia incessantemente batalhões de clones, levava a que todos fossem redutíveis a um denominador comum. Não eram afinal as preciosidades que se consideravam; eram, sem que o sentissem, meras vulgaridades sem valor com o intuito subliminar de se autodestruírem nessa corrida insólita de conquista de caixinhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na sua busca pela diferença ele percebeu que a sociabilidade artificial em que vivia era ilusória e decadente. Numa tentativa desesperada de encontrar uma explicação para a sua miserável existência compreendeu que todos os seus amigos eram, como ele, anti-sociais, individualistas, iludidos por uma pretensa preciosidade que ninguém tinha. Deduziu que todos os seus actos honestos não recebiam o agrado de quase ninguém, por serem incompreendidos, por vezes,&amp;nbsp; mas simultaneamente demasiado singulares, &amp;nbsp;tão comuns que não sobressaiam do ordinário, como tal incapazes de causar impacto. Incapaz de se vender, ou por falta de génio talvez, foi-se fechando cada vez mais na sua caixinha, resignado, rodeado de virtualidades inúteis e desumanas, enquanto assistia ao soçobrar do mundo à sua volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia encontraram-no imóvel, dentro da sua caixinha; levaram-no, fecharam-no noutra caixinha e enterraram-no num pequeno espaço do subsolo saturado de pequenas caixinhas, ocultas dos olhares devassantes, todas cheias de preciosidades, como ele.&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2011&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=i8StRAJCork"&gt;Click&lt;/a&gt; do &lt;a href="http://photomelomanias.blogspot.com/"&gt;the dear Zé&amp;nbsp;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-3421676605851668090?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/3421676605851668090/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=3421676605851668090&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/3421676605851668090'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/3421676605851668090'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2011/05/caixinhas.html' title='Caixinhas'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-4373737561703494234</id><published>2011-04-30T16:34:00.002+01:00</published><updated>2011-04-30T17:04:28.467+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Dos bichos que bocejam</title><content type='html'>Tentar descrever o bocejo em palavras não é um exercício fácil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se tivesse de o explicar a quem não o conhecesse, que diria? É um estado de alma em que se abre a boca a uma dimensão extrema, de forma involuntária, reprimindo um Ahhhh incomensurável, à medida que o ar se solta fugazmente do peito de uma forma anestesiante e pacificadora. Não ficava explicado. Há outros bichos que bocejam, a quem o Ahhhh é impossível, mas para os quais terá o mesmo efeito repositor e inebriante. O bocejo dos roedores, por exemplo, é terrífico; abrem as mandíbulas expondo os incisivos ameaçadores e inimagináveis, como se não se coibissem de mostrar ao mundo o potencial vencedor se o mundo acabasse amanhã à dentada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comparativamente, o bocejo dos humanos é ridiculamente embaraçoso, temos uma dentição exígua para qualquer confronto. Talvez por isso seja de bom tom tapar a boca quando nos acorre esse impulso. Que pensariam os cães e os gatos se nos vissem nesse desconchavo? Perdiam-nos logo o respeito e saberiam imediatamente quem deveriam ser os verdadeiros senhores do mundo. Resignados à sua condição, bocejam à nossa frente perante a nossa indiferença, injustiçados por uma realidade estranha que nos coloca como dominantes nas suas vidinhas aparentemente simples e pacatas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será uma necessidade fisiológica tão importante como qualquer outra. Quanto tempo poderemos ficar sem bocejar? Não me consta que alguém tenha bocejado com a ponta de uma navalha apontada à jugular, nem que comandante algum tenha bocejado ao mandar as tropas à carnificina. Nem quando o professor nos pergunta a questão fundamental para avaliar o nosso desempenho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bocejar será um privilégio que nos faz sentir reis por um segundo. Por um instante não sentimos a ameaça que pende sobre a nossa cabeça, nem o medo que nos tolhe a um canto, nem a culpa pelo que fizemos ontem, nem a inquietação pelo dia de amanhã. Naquele hiato ficamos sós e supremos. Nada nos pode atingir, sente-se uma invulnerabilidade incompreensível e inquestionável. E há um misto de resignação e de tédio, semelhante ao do conquistador que abarcou o território imenso e sinta que nada mais lhe reste a realizar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo após, volta o estado de alerta; por vezes a mera acção de nos virarmos para adormecer, se pertencermos ao grupo dos mais felizes; outros terão de despertar para a luta, e continuar o combate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, o bocejo será um acto demonstrativo de uma inteligência subconsciente, pelo que tem de aquietador e necessário à manutenção de uma sanidade mental que nos limita como seres separados do contexto, definindo por instantes a nossa absoluta individualidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dito isto prometo respeitar profundamente qualquer animal que boceje, e verifico que quase todos o fazem; todos os mamíferos, carnívoros, herbívoros, omnívoros; as aves e os peixes. Falta-me descobrir como interpretar algumas semelhanças comportamentais relativamente aos répteis e aos batráquios... Terei de continuar a investigar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os insectos, os aracnídeos e os moluscos não creio que bocejem. Não me merecem por isso, e até prova em contrário, a mesma consideração. Terei de encontrar outras razões para respeitá-los que não esta, tão fundamental. &amp;nbsp; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2011&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-4373737561703494234?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/4373737561703494234/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=4373737561703494234&amp;isPopup=true' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/4373737561703494234'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/4373737561703494234'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2011/04/dos-bichos-que-bocejam.html' title='Dos bichos que bocejam'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-5885788924025196701</id><published>2011-04-04T14:15:00.000+01:00</published><updated>2011-04-04T14:15:55.693+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Do cesto dos papéis'/><title type='text'>O elogio do erro</title><content type='html'>Não me apetecia, não me tem apetecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei o que me apetecia, talvez por isso: escrever tudo cheio de erros. Escrever num código só meu. Desculpa triste, escrevo sempre num código só meu. Tudo cheio de erros. Gosto dos meus erros, são sintoma de liberdade quando não tenho medo deles. Depois refinam-se e passam despercebidos. Como quem acha uma nota no chão e lhe põe um pé em cima. "Devolve-se a quem provar pertencer-lhe". Olha-se para um lado e para o outro, a medir a humidade, a ver aquela nuvem mais escura e a criar a ideia de que vem aí chuva, passageira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois deixa-se cair a chave. Plim. Arrebanha-se tudo, a fazer valer o dobrar da espinha. O gesto refinado, a não admitir o erro. Do outro lado o Sol, as caras cinzentas, incapazes de ouvir um&amp;nbsp;plim. "Afinal pertence-me a mim". Os olhos vagueiam para a noite, a desejar o sonho ímpio dos inocentes, todos errados. A inocência perde-se quando se eliminam os erros. Passa-se a ser um sequaz do justiceiro, cheio de certezas e dedos espetados. Perde-se a misericórdia. Perde-se a noção do belo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O belo em si é um erro, perfeito, como é qualquer erro, capaz de nos fazer virar a cabeça e perder a noção da realidade, essa coisa que não se compadece com erros, que nos impele sempre para a imperfeição da posição irrefutável, mas sempre à mercê da imensidão do que não dominamos, a excepção fundamental que confirma a regra, esse erro abrupto que nos oprime qualquer certeza. O belo é imerecido porque é um erro supremo que ninguém merece, por ter sempre alguma certeza, até isso justifica a sua essência errada e errática.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O erro não é intencional,&amp;nbsp;ao contrário do mal que nunca é um erro. O mal é uma escolha, mais ou menos reflectida, mas nunca um erro. No entanto, erradamente, condenamos o erro quando deveríamos condenar o mal. O verdadeiro erro pode ser fruto de incompetência, distracção,&amp;nbsp;incontinência, desmesura. Quando&amp;nbsp;toleramos a génese, admitimos que&amp;nbsp;fundamente a causa,&amp;nbsp;mas apesar disso continuamos a condenar aquilo que inicialmente admitímos, sem querermos ver que deveria ser a verdadeira causa a perseguida. Assim, andamos&amp;nbsp;com medo de errar, tentando fazer tudo certo ainda que mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tememos a revelação dos nossos erros, pela injustiça do seu julgamento. Só poderemos ser livres quando nos exprimirmos por erros sinceros, pleonasmo; num código individual,&amp;nbsp;imperceptível até que se refine, nessa altura compreendemo-lo, e passa a ser linguagem comum, alimento de debate e de inovação. Uma linguagem bela, profundamente errada é certo, mas universal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A constatação de que errar é humano, faz-me acreditar que tudo o que fazemos é belo,&amp;nbsp;tanto mais quanto mais errado for, desde que o não façamos por mal. É divina a nossa acção no mundo. Compraz-me que este exercício possa ser o erro que me tolha, porém palpita-me que errei, e acertei assim na impureza do hediondo, imperfeito,&amp;nbsp;maléfico, intencional, desumano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As certezas são&amp;nbsp;sempre terríveis, ímpias, como os sonhos dos inocentes.&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2011&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-5885788924025196701?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/5885788924025196701/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=5885788924025196701&amp;isPopup=true' title='15 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/5885788924025196701'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/5885788924025196701'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2011/04/o-elogio-do-erro.html' title='O elogio do erro'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>15</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-9199554400592146983</id><published>2011-03-13T13:15:00.002Z</published><updated>2011-03-13T18:29:02.711Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>À rasca por um sonho</title><content type='html'>Ontem sobressaltei-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vi as ruas da cidade cheias de gente em luta. Apregoavam cânticos que conheço com uma energia que já vi. Também vi os milhares que não caberiam no Largo do Carmo naquele dia longínquo que muitos desses nunca conheceram. Acreditei por instantes que tantos seriam capazes de fazer o que muito menos fizeram há muito mas melhor. Esperei para ver o voto de confiança às palavras de um líder expresso na iniciativa popular. Com o avançar das horas fui percebendo que tudo não passava afinal de um cortejo carnavalesco de derrotados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Derrotados pela falta da confiança que não têm no único cidadão eleito democraticamente no país. Derrotados pela falta da iniciativa que não conseguem juntar para agir contra a adversidade. Derrotados pela incapacidade de criar um projecto colectivo linear e alternativo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabei por não ficar esclarecido quanto à verdadeira intenção do presidente ao incentivar as massas ao "sobressalto cívico". Gostava de saber se aquele homem silencioso e insondável poderia ser digno do estatuto de herói nacional. Ele, o chefe supremo das forças armadas, teria ao seu dispor os meios de apoio necessários ao estabelecimento de uma nova ordem, de forma pacífica mas eficaz. Um dos muito poucos poderes que lhe deixam. Acaso esperaríamos que ele tivesse sido mais claro do que aquilo que foi? Esperaríamos que ele em vésperas de uma sublevação, anunciada mas sem provas de participação, nos tivesse dito "vão para a rua destronar os impostores que os nossos canhões vão lá estar para vos defender"? Era isto que esperávamos? Não passamos de uns neo-românticos patéticos se estivermos à espera desse dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, que nunca acreditei naquele homem, ontem dei-lhe crédito. Por mim ele teria uma chance. Acreditei que ele poderá ter estado ansiosamente a aguardar a reacção das massas e o seu pedido de apoio explícito para poder tornar as palavras que proferiu em algo de mais concreto. Acreditei que por uma vez a voz poderia significar intenção. Pelo meu lado, gostaria de ter sabido a verdade. Gostaria de o ter confrontado com o facto que lhe pudesse justificar o mérito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem poderia ter sido o dia em que finalmente soubéssemos que esse cidadão eleito pelo povo estava de facto do lado de quem o guindou ao lugar que ocupa. Ontem poderíamos ter ficado inteirados da sua lealdade aos interesses do país mais do que aos interesses de uma Europa de direita que nos oprime. Ontem poderíamos ter conduzido o país por outro caminho. Ontem poderíamos ter ratificado a democracia e tê-la colocado para nosso governo no lugar da partidocracia que nos domina. Ontem um homem pode ter estado a aguardar uma chance para se redimir de toda a culpa que lhe pesa na consciência, mas ao qual não demos nós uma chance pela nossa manifesta incapacidade de reacção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que sou um romântico que conta histórias. Sei que descrevo um capítulo tão hipotético que me deixaria perplexo se se concretizasse, pelo que teria de aparentemente irresponsável e onírico, mas as grandes façanhas nascem de sonhos assim, e são destas improbabilidades que se fazem as diferenças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem faltou-nos a capacidade de acreditar em sonhos, desperdiçou-se assim mais uma oportunidade preciosa de definir o caótico. Para amanhã está anunciada uma paralisação dos camionistas, promissora quanto à eficácia que já conseguiram demonstrar noutra ocasião que bem recordo. Poderosos e irascíveis, têm mais força na imobilização de qualquer país do que qualquer governante inseguro acerca da confiança que possa depositar nos governados. Mas falta-lhes a legitimidade numérica das massas, a sua luta é tendenciosa pela particularidade dos interesses que defendem e como tal, por legítima que possa ser no conteúdo, é hermética para a maioria que sofrerá as consequências, eventualmente com maior sacrifício do que o que requeria uma rebelião generalizada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E é por ter perfeita noção disto que hoje me sinto um bocadinho mais à rasca.&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size: 14.0pt;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;© CybeRider - 2011&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-9199554400592146983?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/9199554400592146983/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=9199554400592146983&amp;isPopup=true' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/9199554400592146983'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/9199554400592146983'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2011/03/rasca-por-um-sonho.html' title='À rasca por um sonho'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-6696859836398100345</id><published>2011-02-22T12:00:00.010Z</published><updated>2011-02-22T12:13:49.287Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Crise de identidade</title><content type='html'>Não costumo meter conversa na paragem do autocarro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não gosto de criar falsas expectativas acerca de possíveis laços que nasçam de coincidências absurdas. No absurdo de certos dias é o máximo que consigo fazer por alguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele dia tinha acabado de passar um para o Inferno, mas ia cheio. Não faz mal, espero mais. Um jovem dirigiu-se a mim e perguntou se me chamava Orlando. Respondi que não, tinham-me chamado António há muitos anos, tinha-me ficado para sempre. Não adiantei mais nada, ao longe ouvia o ronco de outro motor, talvez tivesse mais sorte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Semicerrei os olhos. “Parte Incerta”. Há-de servir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Passa ao Purgatório?&lt;br /&gt;“- Se lá chegarmos.” Respondeu o condutor, com menos esperança que eu. Subi. Dali ao Inferno iria a pé, não devia ser longe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É curioso apurar as coisas que nos passam pela ideia à medida que a farfalheira de um motor se tenta intrometer nas nossas vidinhas pacatas. Recordei o jovem e a sua pergunta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora eu, que quando mal sabia que me chamava António já era Mourão, que sou Amália e Paco Bandeira, Florbela, Tonicha, Carlos Paião, Salazar para o mal, Madre Teresa para o bem; eu que sou Simone e Paulo de Carvalho também, Fernando Tordo e Ary dos Santos, que sou Alfredo e Marceneiro, Afonso e Viriato, não por esta ordem nem por qualquer outra. Eu que fui Vickie normando e Abelha Maia, Super-Homem e Super-Rato, que andei à chuva na praia, que me perdi no mato, antes de aprender a ser homem. Eu que fui Laranjina-C e sou Coca-Cola, que sou Picasso e Gauguin, Maluda e Fernando, sou também Pessoa; sei pintar à pistola; às vezes bicho, sou Saramago; António Antunes, e Lobo amiúde, que sou Camilo Castelo, dizem-me Branco, e a quem dizem essa de também ser Eça, que sou bela peça; também diria que sou Jorge e que sou Amado, e venero a saúde quando estou constipado. Que já fui rei e também princesa, Mário Viegas, e outra vez Branco, desta feita de Freitas. Que quando penso o que faço aqui, tenho atitudes que não lembrariam Dali, se grito a pedir uma pequena ajuda fico ansioso por medo de que alguém me acuda. Fui ainda Platão e platónico, e Aristóteles; fui mais gramático que matemático; também fui Sócrates, mas o antigo; fui Bocage, e antagónico, fui umas vezes sacana e outras amigo. E que nasci de uma corda agarrada ao umbigo. Que já fui pai e tentei ser mãe; já fui neto, tio e primo também. Eu que sou Rui e que sou Veloso, que sou Jorge outra vez, e sem dúvida Palma, que falo de Hitler e fico nervoso, que sou Lenine e matei Mussolini, que falo de Estaline com uma dor na alma, que vi fitas de guerra e de Pasolini, e filmes de amor, que dancei de alegria e gritei de dor, que choro sem saber às vezes porquê e rio para espanto de quem nem me vê. Sou tantos nomes que já me esqueci e outros tantos que também nunca ouvi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O autocarro ia andando, ladeira abaixo e eu, o António, ia pensando que sou tantas coisas mas, tanto quanto acho, não sou Orlando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não era longe. Bati à porta. Pelo ferrolho uma voz cavernosa perguntou-me:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- És o Orlando?&lt;br /&gt;- Não, sou o António. Se calhar, venho adiantado.&lt;br /&gt;- Vieste enganado. Estão à tua procura na paragem do autocarro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não costumo meter conversa na paragem do autocarro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2011&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-6696859836398100345?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/6696859836398100345/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=6696859836398100345&amp;isPopup=true' title='17 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/6696859836398100345'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/6696859836398100345'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2011/02/crise-de-identidade.html' title='Crise de identidade'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>17</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-3881721815914657832</id><published>2011-02-19T02:21:00.007Z</published><updated>2011-02-20T12:15:08.031Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Este país não é para velhos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Carta a um filho</title><content type='html'>Meu filho, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho a dizer-te que pertences a uma estirpe antiga. A mesma a que pertencia o primeiro homem que traçou no chão um limite e usurpou um pouco do que era de todos e lhe chamou seu. Nesse dia determinou também a forma mais antiga de exclusão, aquela que ficámos fadados a esquecer, a exclusão pela propriedade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só pelo amor que te tenho, e por seres meu filho, te posso confessar este segredo que nós, os crescidos, guardamos arrependidos e do qual ninguém fala. Este foi de facto o pecado capital. Não importa o que te digam, hão-de mesmo tentar convencer-te, como fizeram comigo, de que é um deus que te condena por amor. Nunca deus algum terá por ti este sentimento que eu tenho e que é precioso, e por isso te digo a verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também nasci livre, como tu. Só no dia seguinte constatei que afinal os braços da tua avó me protegiam de algo horrendo. Por razão estranha o mundo não me pertencia como pensei quando o vi. Havia outros, com poder para me derrubar, subjugar e me dizer que eu não pertencia ali, e que também chamavam seu ao meu mundo. Durante anos a nossa família acolheu-me, como se acolhe um filho, alimentou-me, vestiu-me e deixou-me ter sonhos; mais até do que os que eles pudessem ter tido um dia. E sei também que sonharam contigo, ainda que não mo dissessem. Dirás que tive sorte, e é verdade. Tentaram a seu modo ensinar-me a obedecer, a tornar-me um escravo dócil de outros, para que a vida me fosse menos dura. Ocultaram-me esse segredo, que tão bem conheciam, e que te conto,&amp;nbsp; por terem sido também eles escravos vitalícios. Estudei quanto quis, muito mais do que eles alguma vez puderam, às suas custas. Chamaram a isso educação. O mesmo nome que dou aos ensinamentos que tive de te infligir, por saber que esses princípios te ajudariam a conviver com os outros com menos dor. Sei que chamas trabalho ao esforço em que te empenhas para seres "alguém", mas para mim, que sei o que é trabalhar para os ideais de outrem, aquilo que fazes serve principalmente a minha consciência, por compreender o teu sonho que torno meu, enquanto luto a cada dia por conquistar o meu quinhão de justiça que me permita deixar-te um mundo onde possas singrar por ti. Bem sei que as ferramentas que te dê te serão úteis, e sei também que precisarás de todas elas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tua geração já nasceu no resultado de um sonho que partilhei. Sonhei que o teu mundo seria diferente, ainda que não pudesse mudar o fundamental da realidade instituída, achei que deveríamos ter o direito de exigir a quem usufrui do resultado da minha força de trabalho, a nossa sociedade, que te pagasse os estudos, a saúde, e o acesso à cultura. Nunca soubeste a amargura de ser excluído destas facetas da vida por falta de dinheiro. Não te posso adiantar muito acerca da justiça, porque essa já nasce inquinada pelo pressuposto de que a natureza que te colocou no mundo tem dono. Sei que a tentarás encontrar, que a aplicarás com saber, e que sofrerás pela falta dela. Precisarás sempre desse bem, como do pão para a boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida ditou aos teus avós que eu seria português. Ouço-te dizer que este país não te interessa, a amigos teus ouço dizer que os envergonha. Dizes que és um cidadão do mundo. Esse outro mundo que também rejeita os seus, o mesmo que me chama turista, onde sou por vezes demasiado branco, noutras demasiado preto, por ocasiões demasiado pobre e pontualmente demasiado rico. Talvez não saiba fazer em Roma como fazem os romanos, mas sei que aqui posso fazer como fazem os portugueses, ainda acredito até que sou capaz de os levar a fazer coisas por mim, ainda que a minha esperança, como a tua, vá esmorecendo. Há uma diferença, a tua deveria estar viçosa como tu, enquanto a minha vai acompanhando a invernia que começo a ver chegar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouço-te dizer que és parvo, e isso dói-me. A injustiça que te confunde é algo por que não lutei. Dás nomes tristes à tua geração, surpreendes-me. Eu pertenço a uma geração sem nome que viu surgir uma revolução de onde havia submissão sem ter havido revolta, para a maioria não passou de uma libertação de um cárcere que se sentia sem se ver, onde a minoria esclarecida estava arredada à força, incomunicável com a populaça que temia represálias. Os mentores da liberdade reuniram-se e aceitaram o poder da mão de um punhado de militares que, mal armados, se impuseram mais pela lógica que pela força. Até que nascesses vi mudanças que deram esperança a um povo amansado por décadas de ignorância e exclusão social. Vi-o em festa erguer os braços e gritar palavras de ordem e cantar canções de liberdade. Diziam então que “o povo unido jamais será vencido”, e pelo que vi avaliei que para mim e para ti o futuro seria promissor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como queres então que te ensine essa força de rebeldia que nunca soube conduzir? Os livros vermelhos estão algures esquecidos, as bandeiras que incentivassem a glória estão carcomidas e esfarrapadas nalgum caixote em parte incerta. Nunca pensei que voltasse a precisar deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ouço agora as tuas canções de intervenção sinto a mesma desilusão que senti quando ouvi apelidar de “rasca” a geração que me procedeu, por sublimar a irresponsabilidade latente dos que não tencionaram honrar o corolário de um estado social onde todos pudessem ser iguais. Vi o poder alucinar os homens e compreendi que a democracia que acarinho ia sendo substituída por um sucedâneo de muito má qualidade onde impera a pouca-vergonha dos que singram com facilidade através de clubismos e artimanhas, regalias desmesuradas, corrupção, compadrios obscuros e vilezas sem que haja forma de os confrontar com a qualidade do desempenho nos cargos que ocupam, normalmente contrastante com as benesses que auferem, ou de puni-los pela forma predatória como se refastelam indevidamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, meu filho! O estigma que carregas não é o de seres parvo! É o de pertenceres a um povo humilde e ingénuo que se deixa enganar, que é chantageado para ter os seus poucos direitos e que sofre por ver frustradas as expectativas onde investiu toda a esperança. São qualidades e defeitos que abundam nos bons, sempre reprimíveis com facilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas disso nunca terás de te envergonhar. Vergonha será sempre dever e não pagar. Cumpre sempre com os teus deveres, mas isso já te tinha dito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falta agora ensinar-te a que não te vendas por pouco, lição que não aprendi. Não esqueças o segredo que te contei. Pega num pau afiado, e traça com coragem uma linha à volta deste país, chama-lhe teu, e expulsa os que usurpam aos teus velhos pais aquilo que te pertence por direito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que parvo, tu não és.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2011&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-3881721815914657832?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/3881721815914657832/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=3881721815914657832&amp;isPopup=true' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/3881721815914657832'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/3881721815914657832'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2011/02/carta-um-filho.html' title='Carta a um filho'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-6687176683528815940</id><published>2011-02-14T13:30:00.013Z</published><updated>2011-02-14T13:35:31.938Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poesia'/><title type='text'>Presença</title><content type='html'>&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;São os diamantes do teu sorriso.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;São teus passos despidos sobre o silêncio&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;No chão vazio de sentido.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;São os teus braços maternos &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Vigiando-me menino &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Sem cigarros nem gravata,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Sem pessoas...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;São os teus olhos luzentes, curiosos, &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Quase a medo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;É a tua pele do marfim mais doce,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Mais macio, mais quente,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Mais de veludo e seda.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;São teus beijos de amante&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;É a tua língua rubra&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Limando na minha carne &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Linhas lindas de prazer-delícia,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Êxtase de loucura.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;São raios do teu cabelo &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Devorados vezes mil&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Por dedos tão cúmplices&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;De mim e ti; os meus&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Que sou teu... Tanto!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Salteador ateu &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Profanando tesouros que encerras&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Milenários&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;De carinho cuidado,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Tecidos por ti, vestidos por mim&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Transformados unos &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Nos lábios; na voz; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;No sentir-te sentires-me&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Em ti, em mim, em nós.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: 13.0pt; mso-ansi-language: PT; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;© CybeRider - 2011&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-6687176683528815940?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/6687176683528815940/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=6687176683528815940&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/6687176683528815940'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/6687176683528815940'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2011/02/presenca.html' title='Presença'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-41880120588201108</id><published>2011-02-03T01:15:00.005Z</published><updated>2011-02-03T23:19:30.722Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poesia'/><title type='text'>Ode aos surdos</title><content type='html'>&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;“O que dizes não se escreve”,&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Tanta vez ouvi dizer.&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;E por acreditar não escrevia&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Tantas coisas que esquecia&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Por evitar de as escrever.&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Bastas ocasiões invejei&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Eruditos de toda a parte&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;E outras tantas me impedi&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;De dizer o que não escrevi&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Por duvidar da minha arte.&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Seguros nas convicções&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Tantos em contracorrente&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;E eu em silêncio profundo&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Ouvia as injúrias ao mundo&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Por me negar a ser gente.&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Por não ter os manuscritos &lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Calava a minha razão&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;E tantas vezes contive&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Tantos lamentos que tive&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Pela minha humilhação.&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Gritos calados bem fundo&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Que eu evitava escrever&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;E eles todos escreviam&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Tudo aquilo que diziam&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Sem terem de se esconder.&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;O que tanta vez pensei&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Consegui dizer um dia&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;E olharam então para mim&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Como se vissem por fim&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Um morto que renascia.&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Mais vale que vos caleis&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Que não haveis aprendido&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;E nem amigos tivestes&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Para vos tirar dos agrestes&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Caminhos por onde tenho ido.&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Por esses tão pobres conceitos&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Calai-vos, tentai esquecer&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;E evitai a confusão&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Não sabeis decerto a lição&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Que eu tive de aprender.&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;A que me serviu de mote&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Por bons exemplos ter tido&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;E não se devia escrever&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;O que tendes para dizer&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Nem por ninguém ser ouvido.&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Resolvi testar por mim&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Aquilo que tanto me ocupa&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;E passar a escrever amiúde&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;O que considero, pela saúde,&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Ser o que ninguém preocupa.&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Com surpresa aprendo assim&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Também com contentamento&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;E outra lição tiro a quente&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Não fico mais eloquente&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Nem mais forte de pensamento,&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Não memorizo na mesma,&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Descubro o que ninguém quis&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;E sei agora afinal,&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;No saber da gente normal, &lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;Que o que escrevo não se diz.&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;© CybeRider - 2011&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-41880120588201108?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/41880120588201108/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=41880120588201108&amp;isPopup=true' title='27 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/41880120588201108'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/41880120588201108'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2011/02/ode-aos-surdos.html' title='Ode aos surdos'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>27</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-6928719940618974207</id><published>2011-01-28T14:00:00.002Z</published><updated>2011-01-28T15:39:05.500Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>A insustentável leveza do ultraje</title><content type='html'>&lt;p&gt;Uma mão cerrada com força.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O estômago que se encolhe à violência das palavras: és feio!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Que diferenciação atroz, como racismo. Eu que defendo minorias, as dos pobres mais que as dos ricos, em autodefesa. Atravesso a rua pejada de hedonistas, olham-me de soslaio, de través, como quem espreita pelo cortinado de uma janela. Sigo a pensar nos meus pobres e nos dos outros. Sei que aqueles que me miram procuram explicação para a minha normalidade obscena. O cartaz da modelo seminua olha-os a eles e deixa-me mais só, à distância de uma superprodução de Hollywood, retocada, maquilhada, subconscientemente perfumada: és gordo!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Enrubesce-me um pouco a face. Começa a doer-me o punho cerrado com força. A indiferença da jovem angélica de púbis apelativa descoberta: és velho!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Chego à praça, cada passo afasta de mim a turba de pavões. Dão um passo mais para a esquerda, outros um para a direita. Carrego agora a fealdade do carrasco. Ao desbravar com tamanha facilidade o carreiro por onde sigo, a minha mão fechada é agora um machado de guerra pronto a decepar um pescoço. Cresce-me a barba no rosto hirsuto, sou discriminado no café onde me sento sozinho na minha mesa feia suja e velha. Clientes resplandecentes levantam-se e afastam-se. Pressinto que já me viram, pela janela limpinha por detrás da cortina delicada.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Se soubesse que o café me ia dar aquela vontade de urinar tinha pedido uma água. Levanto-me em busca do esgoto. Agora a meu lado um par de sapatos reluzentes, afastados, a esconderem-se na estreiteza do espaço vazio das eventuais pingas trôpegas que não o consigam transpor. Resisto.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Depois, a água fria morde-me com força. Tento abrir a mão, mas não consigo. Olho na imagem em frente, ligeiramente à direita, o tom imaculado do menino rico. Mais abaixo o relógio dourado fere-me a vista: és pobre!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Não compreendo a força com que lhe desfaço o nariz inocente. Sinto um súbito cheiro a ferro e fica tudo vermelho. Não, é afinal encarnado e gratuito. Vejo no espelho o meu reflexo e o olhar perplexo em rima a condizer; vem-me à ideia que deveria estar a ficar tudo azul. O aroma férreo intensifica-se à medida que o chão encardido se tinge, de escarlate vivo e pegajoso. Tinha-me esquecido da faca pontiaguda que ali vejo espetada num olho. Já não consigo apalpá-la na algibeira, saltou sozinha antes do grito que me teria salvado. A lâmina reluzente que afinal me condena. Doem-me os nós dos dedos, feridos, que continuam a macerar a pele macia, em recortes marmóreos eivados de rosa e púrpura, agora transformada numa massa disforme e viscosa empapada com pedacinhos brilhantes de osso esbranquiçado, dentes talvez, e o som cavado da sucessiva sucção: és assassino!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Por instantes recordo-me dos ensinamentos que pediam que me portasse bem, sempre me portei bem. Quero ser honesto e incapaz de calar verdades, naqueles minutos que antecederam a minha luta contra a justeza. Impelido pelas forças sombrias do mundo quis ser bonito, magro, jovem, rico, desejado e bom, de verdade: és mentiroso!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Tudo recalquei naquele infeliz desconhecido que jaz desfeito a meus pés: és grotesco!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mas o real ultraje que me consuma amanhã apagará para sempre qualquer imperfeição que subsista. Perfeito é o ultrajante, e só, e feio, e gordo, e pobre, e velho; e também eu, nas vezes em que me revolto contra a vida pelos meus próprios defeitos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;© CybeRider - 2011&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-6928719940618974207?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/6928719940618974207/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=6928719940618974207&amp;isPopup=true' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/6928719940618974207'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/6928719940618974207'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2011/01/insustentavel-leveza-do-ultraje.html' title='A insustentável leveza do ultraje'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-1313772393118254474</id><published>2011-01-20T02:15:00.003Z</published><updated>2011-01-25T10:45:00.967Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Propensão marginal</title><content type='html'>&lt;p&gt;  &lt;p&gt;Sinto o ar na cara, entra-me nos cabelos e nas narinas.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;É de ar puro o vento que respiro quando olho para trás e vejo o lugar que deixo. Que bom é inchar os pulmões como odres e fazer entrar a maresia. As ondas aspergem-me o rosto como a tentar reanimar-me do torpor que me levaria a cair pela borda.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;O batel deriva, neste triste vazio onde fiz coisas, algumas que me entusiasmaram, e que me corromperam a solidão. Barcaça vetusta e decadente, talvez de herança que já não recordo, que arrasto pelo meu mar de lamurias, ao encontro de uma praia inalcançável onde sei que só poderei soçobrar, envolto no nevoeiro.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Este vento é pouco propenso a marginalidade. Interventivo, sopra sempre com intenção definida, pura, até que atinge o seu objectivo e sem cedências muda de direcção, quando lhe apraz. Já o meu percurso tem sido erguido à volta de propensões marginais, incapaz de partir com o vento, analiso a frio as que me têm movido neste mar de pouca esperança.  &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Reconheço que deveria haver, no meu caso, um órgão moderador, algures entre a boca e o coração. Assim, não consigo identificar os rochedos onde desfaço o navio. Talvez por navegar sempre à bolina, de través, sem rumo directo que me leve de onde estou para onde queria de facto estar. De quem será a culpa, senão minha? Reles timoneiro que só conhece como destino o mar do propenso naufrágio. Sempre a mesma sede que nem todo o oceano envolvente conseguiria mitigar; no entanto sempre o mesmo rumo, por teimosia. Olho a estibordo, a espuma gorgoleja junto à linha de água límpida e cristalina. Quase enxergo o fundo, mas não pode ser... Alma como a minha não fundeia porque não tem o direito de se aquietar. Há que prosseguir, braça após braça, milha após milha, milhas mil, maravilhas que miríades de marinheiros também tiveram de navegar. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Acompanham-me na epopeia esses fantasmas que me trespassam, em direcção à brancura do seu leito natural, rudes esboços de exemplos, que não sigo, talvez. Ali se aquietarão até que o tempo os dissolva ou o vento os leve com ele; como às ondas espumosas que revolteiam na areia. Alguém depois de mim os há-de recriar, quando tudo os tiver já consumido e o vento, impiedoso, lhes tiver perdido o rumo.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Sai-me do pêlo, o ânimo com que teço considerações. Animais de pouco pêlo, teremos também curta a alma, por isso que nos tentamos bater por que algumas prevaleçam. As outras, descartáveis, olvidáveis, potencialmente inúteis, esquecemos que as vimos e voltamos-lhes as costas, por definição despidas. Ficam a oxidar-nos o mundo, a intoxicar-nos a mente, como meras ideias de tolos. Até que um dia vem uma onda mais forte que descobre as conchas profundas, alguém estende a mão à que mais brilha, e compreende que toda aquela miséria de memórias bafientas foi afinal um tesouro perdido.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Nessa arca imersa, abunda também o orgulho. Sentimento franco e virginal que só os espezinhados não reconhecem naquilo que fazem. Mas também existe, nas pequenas galáxias que se escondem em cada um, um sentimento que prevalece sobre a pureza do orgulho; chama-se vaidade e nada tem de excelso ou celestial.  &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Essa falsa pérola que eu próprio abandono no leito deste oceano, que perscruto, adornará as vestes dos mais singelos. Já os meus pretensos andrajos ninguém há-de cobiçar, nem levantarão suspeita do conforto que me dão.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Não há porém fim que me derrote. Hoje, não. De mãos nas malaguetas, giro a roda-do-leme, ainda que navegue sem rumo não me deterei perante os escolhos, nem que a quilha desta nave se destroce nas rochas nuas. Nunca voltarei aos breves instantes em que fui o ser mais jovem deste oceano, por mais voltas que dê ao mundo o caminho será sempre linear e desconhecido.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sei contudo que a cada dia menos restos sobram na carga da minha nau. Mortais, os meus, esvair-se-ão antes que eu suspeite que alguém os pudesse encontrar, também eles numa propensão marginal para o absoluto esquecimento.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;© CybeRider - 2011&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-1313772393118254474?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/1313772393118254474/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=1313772393118254474&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/1313772393118254474'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/1313772393118254474'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2011/01/propensao-marginal.html' title='Propensão marginal'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-4919964657342117793</id><published>2011-01-11T16:45:00.002Z</published><updated>2011-01-11T17:06:07.098Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Abel e Caim</title><content type='html'>&lt;p&gt;Contaram-me acerca de dois irmãos, talvez um fosse bastante mais velho que o outro, não sei. Foi há muito. Num momento de irracionalidade, um deles, por lhe terem preterido o resultado da colheita em favor da imolação de um pequeno herbívoro do irmão, perdeu momentaneamente o tino e desfez o crânio ao outro.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Desde antes dos tempos bíblicos que a inveja e a ganância dominam as relações dos homens. Recordo-me que me falaram de um Freud, mais recente, que dizia que tudo tinha a ver com pulsões, as sexuais e as de vida e de morte. Entre o que recordo e o que constato verifico que muito hoje em dia não passa de reflexo de textos sábios que revelam conhecimentos antigos. Não há nada de inovador em pegar no que se tenha mais à mão e rachar a cabeça a alguém, seja um calhau tosco ou um artefacto de alta tecnologia.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Abel não seria perfeito, se o fosse não necessitaria de fazer oferendas em concurso com o seu irmão. Mas porque as fazia depreendo que pretendesse rodear-se de bênçãos. Procuraria a sua felicidade a seu modo. Caim por seu lado também; invejou o irmão, mas compreendeu que sendo agricultor não conseguiria agradar quando aquilo que merecia honras divinas era a carne e o sangue resultantes da pastorícia.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Talvez Caim tenha pensado em se tornar pastor também, em criar a sua própria cabra para imolar. Neste conflito de vocação, acabaria por pensar que seria capaz de fazer como Abel, para quem a sangria dos bichos era não só natural mas a única via para alcançar a felicidade. Enquanto para Caim essa forma de vida pudesse ter sido questionável e repugnante, era contudo tentadora. Talvez tenha concluído que não conseguiria cortar o pescoço ao produto do seu trabalho, que lhe seria difícil viver com a eventual culpa na consciência, talvez até temesse alguma explicação que outrem lhe pudesse vir a exigir por violar pretensões que entretanto se tivessem criado em torno da sua imagem de pacifista e objector, que seria contudo preterida pelo deus que amava, caso não fosse capaz da imolação. E no entanto, de cabeça perdida, condenou a humanidade.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Freud explica hoje tudo o que a bíblia revela. Se sexo e religião nos conseguem levar ao êxtase, cada um a seu modo, também é certo que os dizeres desse livro, que uns dizem supremo, nos ensinam que esses dois irmão eram filhos do único par de humanos na terra e como tal com hipóteses de escolhas sexuais diminutas, que deveriam gerar pulsões imensas, estranhas e incontornáveis.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Eram coisas antigas, de tempos em que a conceição era, tal como voltou a ser hoje, assunto secundário da única responsabilidade de uma obra e graça de um tal espírito que dizem santo, verdade pura porque a conheci ainda que por mera aplicação do sentido bíblico, eventualmente pecaminoso.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Não consta do livro o completo estado em que Abel foi encontrado, talvez tenham omitido os detalhes sinistros e estranhos para a época em que Freud ainda não estava na História e como tal muitas coisas não se poderiam explicar, mas que causariam decerto incómodas insónias caso tivessem sido reveladas.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Até por isso ninguém terá tecido qualquer consideração ou pensamento acerca da espiga de trigo que mutilava a masculinidade de Abel. O livro não a mencionou e foi preciso o tempo para me dar a conhecer que afinal tinha de lá estar.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Não deixa de me causar estranheza a reciclagem histórica com que a vida me confronta e que vende como coisa nova aos mais incautos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;© CybeRider - 2011&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-4919964657342117793?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/4919964657342117793/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=4919964657342117793&amp;isPopup=true' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/4919964657342117793'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/4919964657342117793'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2011/01/abel-e-caim.html' title='Abel e Caim'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-4573514350575979523</id><published>2011-01-03T17:00:00.000Z</published><updated>2011-01-03T17:03:59.026Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Puro fanatismo</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;Outro dia, outras gentes.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;No meio dos outros que variam e derivam à minha volta faço muitas vezes os mesmos percursos. Mesmo as grandes superfícies acabam por ser tradicionais, neste meio-termo de cidadezinha de província em que a minha se torna de Inverno. Já conheço a maioria daqueles que me fanatizam, talvez, sem saberem que afinal sou eu que sou fã deles. Se soubessem o quanto custa arrancar-me aquele sorriso que lhes entrego de graça, saberiam como preciso deles para manter a minha sanidade. Saberiam que são saudades verdadeiras o que sinto quando passo pelas duas tabacarias, pela farmácia, pelos dois supermercados, estes quase iguais, mas com caras diferentes às caixas que ocupam, essas pessoas de quem preciso.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Gosto de pensar que me fanatizam quando me perguntam se quero o habitual. O habitual sorriso deles, a afagar-me a alma, quero. O habitual meio-minuto de olhar terno, quero. O habitual olá-então-está-bom, quero. De saco meio-cheio das habituais coisas boas, acabo por pegar também no pacotinho de tabaco e lá venho feliz da vida, mantendo por minutos o sorriso daquela menina loira, estrangeira, linda, com o seu sotaque na voz doce, como um beijo que eu talvez não mereça, mas que me concede; privilégio que a família, lá a milhares de quilómetros, não tem. Ou da patroa, que me viu poucas vezes mas que me trata por seu querido, como se vivesse ali comigo um minuto de um romance intenso sem se preocupar com eventuais ciúmes do marido, que respeito por mim e por ele sem conhecer, palavras que ouço já sem embaraço mas que estimo pela teatralidade que me impele para uma personagem de outra história, como se fossemos ainda dois adolescentes belos a partilhar um segredo, eu e ela, e sonhos que ainda pudéssemos ter por concretizar.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Não sei resistir à loucura álacre destes estímulos que viciam. É sempre inebriado que acabo as compras, sem querer saber ao certo se eles irão dali para casa, ou para os copos com os amigos, como posso ir eu. Para mim eles pertencem ali, cada um no seu quadradinho, eternos e absolutos. Desde a gordinha mais eficiente e simpática que um estabelecimento comercial pode desejar, que com um profissionalismo exemplar e uma inteligência no olhar que nos trespassa, me enche os sacos de plástico com as compras enquanto procuro as moeditas para a quantia certa no fundo meio roto da carteira, sem saber ao certo se aquela que me salvaria a honra de consumidor exemplar não terá já executado a sua fuga premeditada; ao rapaz de cabelo à moicano que insiste em separar sempre o saco dos detergentes do dos produtos alimentares e que executa as contas a uma velocidade assaz alucinante. Sim, escolho-os pela aptidão que me satisfaz no momento, ou às vezes só por uma estranha saudade, mesmo quando a tabacaria esgota o tal tabaco e tenho de levar do outro, ou ainda que tenha de passar o dobro do tempo na fila. Fanatismo é isso mesmo, ainda que quem não o sinta possa não compreender.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Se eles verdadeiramente me fanatizassem a mim um pouco, só um pouquinho que fosse, talvez pudessem imaginar tudo o que sinto por todos eles… &lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt; &lt;/span&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt; &lt;/span&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt; &lt;/span&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt; &lt;/span&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;  &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;© CybeRider - 2011&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-4573514350575979523?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/4573514350575979523/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=4573514350575979523&amp;isPopup=true' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/4573514350575979523'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/4573514350575979523'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2011/01/puro-fanatismo.html' title='Puro fanatismo'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-1297942132774091352</id><published>2010-12-23T03:00:00.003Z</published><updated>2010-12-23T13:37:03.623Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Este país não é para velhos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Conto de Natal</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;Havia uma altura do ano em que tantos tinham o mote para o que havia de ser a redacção mais emotiva do ano, a habitual exposição dos momentos mais ou menos mágicos, das suas consoadas de meninos, aos olhos coscuvilheiros de colegas e mestres.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Uns, sem imaginar que o barrigudo de vermelho provinha da publicidade americana a uma bebida proibida pelo regime, outros que acreditavam também num Jesus, Menino, que trazia prendas, e aqueles que já saberiam por esses dias que teriam de inventar tudo outra vez.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Para mim, ainda acreditava na magia das bugigangas que o céu haveria de trazer e que seriam pedaços de paraíso que espalharia pela cama naquela das noites mais bonitas do ano, se me portasse bem. Nessa altura nunca teci juízos acerca da importância que poderia ter, para a Dª. Graciete, a tal redacção natalícia, nem para ela nem para o tal regime que nos privava do tal refrigerante e de outras coisas mais prementes que eu, ainda sem teima, desconhecia por inexperiência, mais que desatenção. Ainda não tinha ouvido que o Natal seria quando um homem quisesse, por isso aquele relato escrito me parecia um dever, talvez mesmo cívico, mais que uma fonte estatística para o mestre e um sensor económico-social do regime que refiro, aqui já em exacerbo do meu espírito crítico, talvez. Há muitos anos que deixei de saber se ainda se faz a redacção por essa altura. Este ano porém a coisa já me seria mais fácil.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Ainda a tentar recompor a minha fé nos homens, ainda a tentar remendar a compreensão para com os marginais à força ou por falta de tino, ainda a tentar repor, com similares raros e sem história, objectos que me acompanharam uma vida, e cujas memórias que encerraram constituíam uma fonte de inspiração, alarvemente subtraídos por quem apenas viu objectos e o único valor que para mim não tinham, fui abordado por um homem com fome.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;A fome é pungente, principalmente quando o sistema que acreditamos que a poderia combater é tão subvertido como vamos tendo a noção de que o é. Pactue-se ou não com a caridadezinha inútil mas exorcizante, perante o facto há sempre a alternativa mais fácil, mas que deixa sempre uma farpa, e a mais complexa que pode não encher barriga nem aquietar as almas mas que difere de cruzar os braços em forma de manguito. Num dia em que optei por esta, saiu-me em sorte este estrangeiro que não vi até que se tornou impossível não ver, ao lado do meu almoço extinto, de chinelos apesar da chuva e meias ensopadas, e com o olhar de quem já perdeu a esperança no apelo automático a que a repetição já vai levando também a contundência.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Aos filhos fazemos muitas vontades, por ele levantámo-nos da mesa, naquela casa onde o outro era um indesejado, e fomos. Três homens à chuva; afinal quatro, a contar com o velho de muleta que tinha ficado a aguardar do lado de fora pelo dinheiro que os únicos clientes daquela sala teimaram em não lhe dar. Pelo caminho recebi votos de “bom natal” por cada impropério que me ocorria a maldizer o dia em que aqueles dois tinham saído de uma terra longínqua para outra onde tantos meus conterrâneos na mesma circunstância saberiam pelo menos compreender o que lhes dizia, contra o adequado português de iniciante que aqueles tinham aprendido. Por momentos cheguei a imaginar que mau teria sido o meu começo se a Dª. Graciete me tivesse iniciado pelas palavras que aqueles dois repetiam na perfeição.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Pior foi o confronto com as febras e arroz, o melhor prato do &lt;em&gt;snack-bar&lt;/em&gt; onde entrámos, à parte da tarte de vegetais que também não lhes agradava. Aí, compreendi o pedido de frango que eles repetiam, mas que era mais longe e com mais chuva. Todos os outros pratos quentes tinham carne de porco. “Somes muçulmano”… Búlgaros do raio que os partisse! Lá se decidiram pelas febras. O funcionário, mais simpático que a senhora que veio da cozinha a dizer que não os queria ali, mas a quem as minhas duas, vá três, palavras sibilinas acalmaram, ainda perguntou se eu queria que ele juntasse esparregado, mas eu disse-lhe que não, já que era para deitar fora, que fosse só assim; sei lá o que é que os “muçulmano” iam achar daquela coisa verde peganhenta.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Repetiram o “bom natal” que eu recusei por na religião deles aquilo ter significado nulo. Mas aprendi que eles deveriam ter a minha religião, porque a deles ainda lhes enche menos a barriga que a minha.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Ah! E também que Maomé e Salazar tinham mais em comum do que eu pensava.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;© CybeRider - 2010&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-1297942132774091352?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/1297942132774091352/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=1297942132774091352&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/1297942132774091352'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/1297942132774091352'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2010/12/conto-de-natal.html' title='Conto de Natal'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-5670122209181544765</id><published>2010-12-13T02:45:00.000Z</published><updated>2010-12-13T02:45:23.733Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>O valor de um amigo</title><content type='html'>&lt;p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Faltei-lhe ao casamento.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Não, já não foi ontem. Foi há muitos anos.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Ainda me pergunto como fui capaz. Afinal, já nos tínhamos comprado um ao outro com tantas confidências. Pequenos negócios a início, como que a testar a fidelidade entre cliente e fornecedor. Riscos maiores depois, aos poucos, enquanto crescíamos no poder da idade. Tínhamos mesmo investido já, um no outro, algumas vezes a fundo perdido, aquela paciência e atenção que só dedicamos aos melhores. Ambos sabíamos que um bom cliente, como um bom fornecedor merece, de vez em quando, uma atenção.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Escolhemos os amigos como produtos exóticos, ou como bens em segunda mão. Com propriedade, diria. Todas as cautelas são poucas, como se soubéssemos antecipadamente o valor do que estamos prestes a depositar nas suas mãos. Pouco, decerto para muitos; imenso, quando se trata das nossas próprias emoções e sentimentos, ainda que possamos não ter uma justa consciência disso.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Até não gosto particularmente de casamentos. À parte do banquete habitual, pouco há ali que me comova. Quando se trata de um amigo porém, de um dos verdadeiros, daqueles com quem já temos uma larga experiência negocial de trocas e destrocas de atmosferas, aí existe de facto um dever. Pode tratar-se de um momento difícil, encoberto naquela teatralidade de festa e exuberância. Daí que o recorde. Falhei-lhe num momento vital. Não deve ser apenas nos bons momentos, afinal, que o amigo deve estar presente. Nestes, de incerteza, também.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;A vida trata de nos suprir, como numa imensa montra, com os potenciais amigos que podemos ter. Nunca nos dá um exórdio que nos diga por onde aquela pessoa passou, se terá defeitos decorrentes de uso prolongado, ou se será eventualmente perniciosa para a nossa integridade após ingestão, como um fruto tropical que nunca tenhamos visto. Daí que o risco possa ser grande, mas haverá algo que nos aproxima, mais um mistério talvez, e que nos leva àquelas trocas em espécie que referi no início. Com a habituação acaba por vir a confiança e a recíproca lealdade.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Recordo-me que envidei todos os esforços para que naquele dia não faltasse. Dizem que não há ninguém insubstituível. Para ele, e para um compromisso profissional inadiável, eu fui insubstituível naquele dia, e optei. Nesse dia o poder do dinheiro falou mais alto e comprou-me por um valor irrisório, em abono de um futuro, por definição sempre incerto.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Compramo-nos e vendemo-nos aos amigos numa potencialmente infindável troca em espécie. Não há dinheiro que possa substituir essa troca. O dinheiro tem no entanto uma estranha capacidade expurgante; quanto mais se recebe mais solitário se fica. Não sendo necessariamente uma contrariedade, não deixa de ser uma condição. Há um equilíbrio ténue e insofismável entre o que podemos ganhar e aquilo a que podemos dar-nos ao luxo de perder em cada arbítrio. &lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Encontrámo-nos uma única vez algum tempo mais tarde. Partilhámos uma hora de almoço em que me contou imensas anedotas, em disfarce de tudo o que poderíamos ter dito. Ouvi-o atentamente. Não houve uma troca autêntica, antes uma declaração unilateral de despedida, encoberta pelas piadas que senti com amargura, incapaz de lhe responder, por compreender a profundidade daquela demonstração de superficialidade para mim irreconhecível. Mudou de casa pouco tempo depois, ao que soube.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Não há maior pobreza que não ter senão, e apenas, o dinheiro; mas pior ainda se for pouco.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Apesar disso duvido que no meu lugar ele não tivesse feito a mesma coisa. Teria havido porém uma diferença abissal:&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Eu era muito pior que ele a contar anedotas.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;© CybeRider - 2010&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-5670122209181544765?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/5670122209181544765/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=5670122209181544765&amp;isPopup=true' title='22 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/5670122209181544765'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/5670122209181544765'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2010/12/o-valor-de-um-amigo.html' title='O valor de um amigo'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>22</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-2315601660525024056</id><published>2010-12-02T15:10:00.004Z</published><updated>2010-12-03T00:27:27.819Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>A feira e o circo</title><content type='html'>&lt;p&gt;Nasci em plena feira.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Contam-me que tudo era muito caro, apesar de haver brinquedos, farturas e algodão doce, tinha de me contentar com pouco. Nem sempre pude ter os brinquedos que via nos outros meninos. O meu pai era feirante e a minha mãe limpava a tenda e mantinha-nos a logística.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Foi assim durante muitos anos. Tudo funcionava muito bem. Cada feirante visitava as tendas dos outros e pagava para poder ter o que quer que fosse. Havia barracas para tudo, houvesse dinheiro e nada faltaria. A rotação do capital mantinha o sistema. O meu pai pagava pelas farturas, pelos carrinhos de choque, e por algum brinquedo que os trocos sobrantes pudessem comprar. Por sua vez os outros feirantes pagavam pela força de trabalho do meu pai, e assim éramos todos felizes, pelo menos pensávamos que sim. Nesse tempo não havia tantos palhaços nem acrobatas, pelo menos ali na feira. Era tudo gente ordeira e cumpridora, muito ignorantes é certo. A educação também era muito cara, só alguns lhe podiam chegar, e essa era a fundo perdido daí que, pelo retorno invisível a curto-prazo, fosse preterida em benefício da labuta diária. Cresci habituado a ter de comprar bilhete para tudo. Se queria uma volta de carrossel tinha de tirar bilhete, se queria dar um tiro na tenda dos alvos tinha de tirar bilhete, se queria assistir ao espectáculo da mulher barbuda também.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Um dia chegou o circo à feira. Era um adolescente nessa altura, mas ainda me lembro. Todos ficaram muito felizes. As pessoas gritavam, aplaudiam, sei lá...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Nesse dia vi coisas que nunca tinha visto, os meus olhos espantados abriam-se perante a visão de animais exóticos, palhaços multicolores, acrobatas que me pareceram absolutos super-heróis. A princípio foi uma grande confusão, mas com o passar dos dias comecei a perceber que o circo era uma coisa boa. Pagava só um bilhete e tinha acesso a todas aquelas maravilhas. Podia admirar os palhaços, sentado na bancada comum, assustar-me com os ursos e com os leões, apaixonar-me livremente pelas trapezistas, sonhar com as habilidades dos ilusionistas, espantar-me com as manobras arriscadas dos acrobatas.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mudei-me definitivamente para o circo. Os meus pais também eram admiradores confessos. Mudámo-nos todos. A minha mãe, que antes era responsável pela logística, continuou a sê-lo mas arranjou igualmente um número só dela, também no trapézio. O meu pai era um artista no arame.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Permanecemos assim durante muito tempo. Cresci e tornei-me num saltimbanco multifacetado, palhaço nuns dias, malabarista noutros, menos hábil ilusionista, mas lá tentava a minha sorte. Continuava a pagar bilhete para assistir ao espectáculo, mas era mesmo assim. Todos pagávamos para que todos pudessem assistir. Não havia borlas, mas havia justiça, e de vez em quando tínhamos direito a um algodão doce. Um bilhete, de valor idêntico para todos, dava-nos acesso a todas as diversões. Nada nos era vedado. Foi o mais próximo que estive de um autêntico sentimento de liberdade.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Havia o conforto daquele imenso toldo a proteger-nos da chuva e das intempéries. Deixei de andar com os pés nus e gelados dentro das poças de lama suja.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Um dia disseram-me que tinha de pagar para usar a pista dos carrinhos. Era um estranho, um palhaço, este tinha umas pinturas tenebrosas que não me fizeram rir. Tive medo, ele não era o dono do circo. O circo era nosso. Fiquei muito triste, porque de repente percebi que alguém estava a tentar roubar-nos o circo e acabar com todas as maravilhas que levámos tantos anos a construir. Se vamos começar a pagar por cada coisa de que necessitemos, mais vale que nos tirem já o toldo de cima e me desfaçam as ilusões.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;© CybeRider - 2010&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-2315601660525024056?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/2315601660525024056/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=2315601660525024056&amp;isPopup=true' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/2315601660525024056'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/2315601660525024056'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2010/12/feira-e-o-circo.html' title='A feira e o circo'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-8319644120812365885</id><published>2010-11-24T23:45:00.003Z</published><updated>2010-12-10T22:33:36.390Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Aprendiz de feiticeiro</title><content type='html'>&lt;div&gt;-Escreve mais!&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;E eu escrevia. Mais uma linha, mais um conto e o consequente ponto. Mais um pesponto e uma cruzeta, mais uma volta e meio laço, mais um enlace e um nó, preso à garganta, como um atilho gasto e untuoso; uma forca, era mais isso.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Apertava-me o mundo ao torso, ligava-me à seiva dos vivos, a caminho para a morte anunciada, mas por verificar.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;-Escreve mais!&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;E a caneta deslizava, como se tivesse vida, como se corresse a pedir socorro enquanto se esvaía pela alvura sem saber que vinha alguém atrás para interpretar o derrame, mas sem ganas de lhe estancar a sangria.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Eu corria atrás dela, a admirar-lhe as piruetas, antes mesmo de conseguir que os meus pensamentos me gritassem:&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;-Escreve mais!&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Mas num tom diferente. Este, mais ditatorial, menos paternalista; soberano.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;E lá ficava o relato do dia em que o Jorge me tinha contado como tinha encontrado a mulher à espera nas Caraíbas, enquanto ele pensava que ela tinha acreditado que ele tinha ido passar o fim-de-semana com o Pedro, para relaxar com a pesca na albufeira. E o Pedro a olhar para ele atemorizado, lá nas Caraíbas, no local mais improvável para encontrar algo que ainda não se tenha perdido.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Um parágrafo adiante, já o Jorge sem mulher, repetia-se a história. Desta vez foi o isqueiro que lhe apareceu na mesa do bar, também nas Caraíbas, que fixação a do Jorge. O isqueiro que tinha perdido, ali pegado à mão do Pedro, ao lado da &lt;em&gt;Marguerita&lt;/em&gt;...&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Adiante. Segue-se o Jorge, sozinho nas Caraíbas...&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;A pensar na mulher que pensava que não tinha perdido e que acabou por perder; o isqueiro que tinha perdido e que acabou por encontrar; o amigo que tinha um dia encontrado mas agora, pelo isqueiro, perdido para sempre; e no Pedro, esse, que tinha afinal encontrado a mulher que ele, o Jorge do conto, perdera antes ainda da primeira ida para as Caraíbas.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;-Escreve mais!&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;E a caneta a esvair-se, no único destino que lhe poderia ser fatal: aquela folha lívida de espanto, expectante pelo que lhe ia sendo aos poucos revelado. A minha mão criminosa a delatar, a tecer considerações promíscuas sobre o que não me pertencia. Sempre a intrusão sentida a impelir-me a consciência a ditar-me a um adequado silêncio a que teimava em negar-me.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;E eles a pedir que escrevesse. Mais... Mais... Mas os olhares perdidos sobre as suas vidas, que observo e relato, levavam-me a crer, enquanto a caneta se desfazia em reviravoltas, que afinal não eram pedidos sinceros. Porque haveria alguém de desejar que eu contasse mais contos e somasse mais pontos aos que já lhes assinalavam as faces circunspectas?&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Mas por nada importar a ninguém se impunha a minha necessidade, sempre amante do efémero.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Um dia um amigo perguntou-me:&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;-Porque escreves tu?&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E fiquei a pensar como seria a minha vida se não tivesse aprendido.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;© CybeRider - 2010&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-8319644120812365885?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/8319644120812365885/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=8319644120812365885&amp;isPopup=true' title='18 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/8319644120812365885'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/8319644120812365885'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2010/11/aprendiz-de-feiticeiro.html' title='Aprendiz de feiticeiro'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>18</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-1187884697016048415</id><published>2010-07-17T21:00:00.001+01:00</published><updated>2010-07-18T01:23:30.121+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Com dedicatória'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>O primeiro voo do albatroz</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Ao Mário Rodrigues que encontrou um &lt;a href="http://recantodossuricates.blogspot.com/2010/07/aviaozinho-de-papel.html"&gt;aviãozinho de papel&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Um dia peguei nele e deixei-o sozinho no meio do mundo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Já não havia a minha força a embalá-lo e a subtraí-lo à chuva. Voltei para as coisas, simples, pequenas e fugazes, como penugem, a recordar-me que todo o significado da minha vida estava ali para trás, a cada metro de cada quilómetro que ia somando a noite à distância, se pudesse ter olhado para trás já não o veria, nem conseguiria prosseguir. O caminho árduo que conduzia ao meu destino embaciava-se agora com frequência. Finalmente parei, a uma distância que, por segurança, já tornava difícil o retorno. Parei, esfrangalhado.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Foi assim que ele abriu as asas e voou, pela primeira vez. Foi dos dias mais tristes da minha vida, e no entanto a felicidade teria mais lógica, a irracionalidade é por definição inexplicável. Ainda sinto que fui eu quem o empurrou do penhasco, embora todos me digam que não, que aquele acto de pura loucura foi o que havia a fazer, que isso era o bem, a norma, afinal . As asas, essas, eram só dele. A fé no seu voo terá sido minha, minha... Que nem sou um homem de fé. Onde arranjei a coragem? E se ele, a meus olhos implume, não tivesse conseguido? Que tremenda imprudência! A única, a fundamental. Todas as outras são brincadeiras a comparar com aquela cedência que cumpri sem reflectir. Se reflectisse ele não voaria, talvez nunca, e um dia já não saberia voar sozinho.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mudou-se o centro do universo, que antes via agarrado ao meu umbigo,  mas agora só posso imaginar. As primaveras deixaram de ser só uma vez por ano, mas os invernos também. No entanto recordo que também eu abri um dia as minhas asas frágeis e me atirei desse penhasco, esfrangalhando, como compreendo agora, tudo e todos.  &lt;/p&gt;&lt;p&gt;É a sina de quem não conseguiu transformar o mundo num lugar seu, de quem se limitou a construir um pequeno quadrado inóspito e dependente. Culpei-me, naquela paragem forçada, por cada passo mais imprudente e por cada decisão mais conformista e inerte. Se, se, se... Tantos ses que me davam a possibilidade daquela partida precoce poder ter sido adiada, e todos a colocarem-me no cerne daquela consequência. Nenhum sofrimento por antecipação que me tenha ocorrido me aliviou sequer um pouco do peso que, embora não se compreenda, acaba por se carregar, porque deriva de termos falhado na conquista suficiente do reino onde a nossa lei seria a medida da protecção que queremos para o nosso clã, que entregamos assim aos verdadeiros senhores do universo, e às suas questionáveis leis, que nos submetem também a nós.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Compreendo que é essa vassalagem que me consome, como nem consumiu Abraão ao entregar o seu filho a um deus. É uma troca injusta porque nada tenho a pedir que me sirva, nem protecção divina que houvesse, porque toda a que quero é só para ele, nada justifica tamanho desequilíbrio. Naquele momento entreguei ao incerto o somatório de tudo o que fui e a continuidade que justificará, para o bem ou para o mal, o pó em que me tornarei. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Passa um ano e outro, cada um não me apazigua a saudade que sinto de cada vez que ele inicia um novo percurso, ainda no momento da partida; nem o temor do momento em que o vejo tentar cada nova aterragem por que anseio, ainda bambaleante, depois de cada longa permanência perscrutando o céu infinito, que apenas adivinho.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Voltando ao ponto de partida, é a penugem que já não consigo olhar. Tudo permanece como que a aguardar que o tempo se inverta e que ele volte para brincar com as quinquilharias desvalidas que para mim são autênticos tesouros, fechados naquela arca, que chegou a ser um quarto, agora mero poleiro, de onde desejo, com frequência, perder a chave de vez.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A esperança que resta é de que a sua liberdade, que muito me apraz, lhe dê, a ele ou aos descendentes, a possibilidade de zelar melhor pelos seus e pelo seu universo, para que não tenha de abandonar um dia no meio do mundo alguém que seja parte integrante de si. Mas sei que peço o inexequível.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sendo essa provação absoluta e incontornável, sei que no dia da dele, esteja eu morto ou vivo, também assim me realizo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;© CybeRider - 2010&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-1187884697016048415?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/1187884697016048415/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=1187884697016048415&amp;isPopup=true' title='27 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/1187884697016048415'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/1187884697016048415'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2010/07/o-primeiro-voo-do-albatroz.html' title='O primeiro voo do albatroz'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>27</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-7326570909489004821</id><published>2010-07-01T23:15:00.001+01:00</published><updated>2010-07-01T23:54:47.650+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Reencontro no Verão</title><content type='html'>&lt;p&gt;Não via o António há imensos anos. Encontrámo-nos por circunstancialismo de intenções. Lembro-me dele quando partiu, deixando para trás tudo o que afinal não lhe pertencia, e quase tudo ao que ele pertencia também.&lt;p&gt;Fomos os melhores amigos e mais figadais inimigos, numa amizade perfeita. Partilhámos as mais intensas alegrias e conspurcámo-nos de vilezas que nunca foram maus-tratos, antes apontamentos pedagógicos de vida. Um dia levou-me, sem pecado, a namorada. Casaram,  éramos muito jovens, faz muitos anos. Se não me falha a memória foi desde essa altura que deixei de o ver.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O António, diante dos meus olhos, é uma pálida sombra do António que conheci. O riso franco é-lhe bastante mais raro, carrega o sobrolho com mais frequência, desapareceu-lhe do semblante um certo brilho que nos cativava com facilidade. Ganhou a desprimor imensos quilos. Cheio de cabelos brancos, é como se o tempo o tivesse coberto de pó e aguardasse agora, grosso modo e mutatis mutandis, um espanador que lhe reponha o lustro de antigamente. Deixou de contar anedotas. O olhar, antes penetrante, tem agora matizes melancólicos ou talvez nostálgicos e vagueia-lhe ocasionalmente durante a nossa conversa, como se já lhe tivessem passado diante todos os temas do mundo. Mantém o tique de ir acariciando os dedos enquanto vamos falando, num acto masturbatório, imperceptivel.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ainda lhe sinto uma fidelidade genuína. Por isso recebo como um bofetão a afirmação de que tem uma casa de putas; sinto-lhe um nervosismo repetente, um pequeno engasgo, na espaventosa afirmação, como se já o tivesse dito tantas vezes mas nunca lhe saísse a limpo. Tento o: mas logo tu um gajo casado e pai de filhos. Tento afinal: repor esta noutra realidade, atrasar o relógio para uma verdade que não seja aquela. Tento: dissuadi-lo do que afirma ser genuíno, como se quisesse eu que no meu mundo aquele facto fosse uma mentira, um pesadelo. Não, António. Tento o: tu não podes estar a afirmar que participas nessa aberração social que potencía a degradação humana. Digladiamo-nos em palavras, ele tenta convencer-me de que estou a ver mal as coisas, pede-me outro prisma que transforme as cores do que acabamos de constatar: a minha repugnância conservadora face ao seu conformismo vanguardista. Por momentos revivemos uma franja de passado. Outra dialéctica, em que desta vez só eu sinto como se lhe vivesse na pele, ele tenta sair da minha, o que também é inovador. Por momentos agonio-me. António… Sinto que o abandonei, sinto-me culpado das suas escolhas. O coração matraqueia, um, dois, três, respiro fundo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Seguro as entranhas agarradas à frivolidade do inconcebível, divirjo para o dinheiro, garante-me que é o mais mal sucedido dos chulos. António… Quase não te encontro.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Que tenta que elas fiquem com ele o mais tempo possível, que elas não o poderiam fazer sozinhas, que ele é quem conhece os clientes e lhes sabe também os gostos, que é ele quem determina qual a que os irá servir nos seus desejos mais secretos pelas indicações programáticas e disponibilidade casuística, que só ele poderia justificar o porquê, que tem uma carteira de habituais, que é ele quem as dispõe e que as entrega, que as enfeita e que as encanta, que as leva aos cuidados necessários quando algo corre mal, que as defende dos vilões que querem lambuzar-se sem pagar, que as recupera no fim do prazo, que as protege de meliantes que as provoquem enquanto esperam na rua, que lhes resolve acidentes e incidentes, que não as ama, que lhe são meras ferramentas, mas que o dinheiro é quase todo para elas e para a logística, que lhes lava as costas e que as enxuga depois do banho, que é ele quem trata das suas meninas, com quem pode até dar uma voltita ocasional, sem desprimor pelo casamento sólido, que o filho pensa que tudo o que ele faz é limpo e exemplar, que nunca quereria que o filho lhe seguisse o exemplo, que ama a companheira e o miúdo acima de tudo o que na vida reste.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Por momentos penso que o António tem a melhor profissão do mundo, com aquela estranha casa de putas que ele acarinha sem amar, mas caio rapidamente na realidade; a sua voz é afável, não lhe imagino a boçalidade nem a força interna tenebrosa que reúna para enfrentar os dissabores que descreve, e de repente vejo que talvez seja afinal, aquele ofício, o pior de todos para ele. Pergunto-lhe se precisa daquilo para viver. Atira-me ao tapete com a afirmação de que o faz para manter a dignidade, que a vida assim quis, que não sabe fazer mais nada.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Pergunto-lhe onde passa as férias, mas afinal não tem, pergunto-lhe pelos fins de semana, mas afinal também não, porque não pode abandoná-las nem às marcações nem aos horários nem ao cunho pessoal que dá ao negócio, nem ao telefone; claro que não. É afinal a lealdade que lhe conheço, aqui levada a extremo. Pergunto-lhe o que diz à família e aos amigos e é aí que lhe perco de vez os olhos, que ficam pelo chão de repente profundo e negro.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Ele responde, não sei.&lt;/p&gt;Não compreendo, em boa parte, o António. Mas acabo por compreender, a muito custo, no meio do discurso intrincado, que um meio de vida pode não ser, afinal, senão uma casa de putas que o destino nos entrega para gerir, e cabe-nos fazê-lo da melhor forma que pudermos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;© CybeRider - 2010&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-7326570909489004821?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/7326570909489004821/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=7326570909489004821&amp;isPopup=true' title='20 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/7326570909489004821'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/7326570909489004821'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2010/07/reencontro-no-verao.html' title='Reencontro no Verão'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>20</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-1769212981336829168</id><published>2010-06-23T16:15:00.001+01:00</published><updated>2010-06-23T16:52:44.771+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Das coisas que não sei fazer</title><content type='html'>&lt;p&gt;- Um cafézinho? - Perguntei.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Não... Obrigado. Deixei de beber café.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Podíamos ter terminado a conversa por ali. Na aldeia estas poucas palavras envolveriam já os bons-dias, e toda a parafernália de objectos linguísticos, trejeitos, modulações, questões tolas sobre a saúde e menções honrosas ao lindo dia, que usamos na cidade para comunicar a nossa satisfação em partilhar um momento com um conhecido.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O Albertino era electricista, daqueles que o são agora e daqui a pouco serventes de pedreiro também. Já o conhecia e tinha-o em boa conta, nem tanto aos colegas que a vida dura lhe atravessava no caminho. Desses conhecia alguns de ginjeira, de quem, pela fiança do pobre Albertino, tinha até eu algumas ginjas a haver. Mas isso não era de sua culpa; mais da minha, crédulo e paternalista como nos fazemos quando chegamos, mundanos e batidos, à pacatez de uma pequena aldeia meio esquecida pelo tempo e pelos ares.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Dizia eu que podíamos ter terminado a conversa por ali. Mas o Albertino abriu a mão espessa e forrada a gesso, como se quisesse reflectir todo o brilho daquela alvura nos meus olhos e prosseguiu:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Não sabia beber café! Tive de deixar de o beber...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E pendurou-me assim, a seco, aquela frase no estendal do juízo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Por momentos olhei-o sem perceber exactamente se era deficiência do meu ouvido, ou do processamento da minha ideia, imaginei aquelas mãos brancas, como que roubadas a alguma estátua de jardim, e providas de movimento por algum desígnio divino, a agarrarem tão atabalhoadamente a pequena xícara que nem o líquido lhe conseguisse chegar à boca.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Finalmente a mão aberta resultou. Percebi, ao fim de alguns segundos, o tesouro que ele afinal me oferecia. Deixei de lhe ver a barba por fazer de três dias, deixei de lhe sentir o forte cheiro a trabalho intenso dentro da camisa de quadrados azuis e linhas brancas, com uma ponta a pender de fora das calças, perdi-lhe os dentes sarrentos; vi a pureza de um verdadeiro espírito prenhe. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Tingi a minha mão na dele, paguei já nem sei bem o quê, e fiz-me à vida. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Pensei em tudo o que, de facto, não sei fazer; mas que pensava que sabia até aquela altura!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Na forma alarve como me lambuzo de tanto do que gosto sempre que posso; dos pratos de comida; do vinho com que os rego; do tabaco; do descanso; do trabalho; do telefone; da água fresca nos dias de sol; dos serões com os amigos, sempre em exagero, até nos fartarmos e estarmos quase a cair, de sono até, às vezes; dos trajectos em automóvel; menos dos passeios a pé; das horas em frente ao computador; sei lá o que me passou pela cabeça...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E as palavras?...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E o sexo?... Meu deus!...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Tanto para me conter!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Poderia até ter tido eu a ideia longínqua e a ambição de que alguma vez pudesse achar-me possuidor de algo a ensinar ao Albertino. Que vã presunção!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Saí dali muito, mas muito, mais ciente da dimensão da minha ignorância e, por paradoxo fundamental, muito mais sábio.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Na realidade, não trocámos muitas palavras.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Foram exclusivamente as suficientes.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;© CybeRider - 2010&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-1769212981336829168?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/1769212981336829168/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=1769212981336829168&amp;isPopup=true' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/1769212981336829168'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/1769212981336829168'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2010/06/das-coisas-que-nao-sei-fazer.html' title='Das coisas que não sei fazer'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-3520565246117604411</id><published>2010-06-20T00:50:00.007+01:00</published><updated>2010-06-21T15:43:54.735+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poesia'/><title type='text'>O Boneco de Corda</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;O Sol que brilha na rua&lt;br /&gt;Hoje não brilhou para mim&lt;br /&gt;E mandou recado pela Lua&lt;br /&gt;Que esta noite, minha e tua,&lt;br /&gt;Teria de ser assim.&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;Sofri um pouco, confesso&lt;br /&gt;Por não sentir o teu beijo.&lt;br /&gt;E desejei um processo&lt;br /&gt;De encontrar um acesso&lt;br /&gt;De resolver o desejo.&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;Olhando ao longe o vazio&lt;br /&gt;Da tua ausência anunciada&lt;br /&gt;Desejei perder este frio,&lt;br /&gt;E o pensamento sombrio&lt;br /&gt;De teres tu perdido esta estrada.&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;Recordei palavras tuas:&lt;br /&gt;Que me amarás eternamente,&lt;br /&gt;E imaginei-me pelas ruas&lt;br /&gt;Pisando as pedras nuas&lt;br /&gt;A fugir de toda a gente.&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;Lá longe oiço um barulho,&lt;br /&gt;Tudo de ti me recorda,&lt;br /&gt;Não me resolve o engulho.&lt;br /&gt;E na noite azeda mergulho&lt;br /&gt;Como um boneco de corda.&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;Vestindo esta ausência imensa,&lt;br /&gt;Sinto a falta de um pedaço.&lt;br /&gt;E também de forma intensa&lt;br /&gt;A cabeça que não pensa,&lt;br /&gt;E o coração que perde o compasso.&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;Ao Sol de amanhã vou pedir&lt;br /&gt;Que afogue a minha incerteza,&lt;br /&gt;Me dê ânimo para seguir,&lt;br /&gt;Me traga as notícias por vir&lt;br /&gt;E dê sabor ao meu pão sobre a mesa.&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2010&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-3520565246117604411?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/3520565246117604411/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=3520565246117604411&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/3520565246117604411'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/3520565246117604411'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2010/06/o-boneco-de-corda.html' title='O Boneco de Corda'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-4194085006674155579</id><published>2010-06-17T18:10:00.000+01:00</published><updated>2010-06-17T18:17:23.864+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poesia'/><title type='text'>Soneto a carvão</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Roubei do negro corvo as lúgubres penas&lt;br /&gt;Com elas peneiro agora a minha penitente alma&lt;br /&gt;Por consolação que estranhamente me acalma&lt;br /&gt;Guardei delas, a medo, apenas as mais pequenas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dessas, de tão sórdida, cruel e negra lembrança,&lt;br /&gt;Arredei as mais impuras mas sãs loucuras,&lt;br /&gt;Restaram, para meu desconsolo, as mais escuras&lt;br /&gt;A constranger com força as réstias de esperança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim me pavoneio, fingindo que não são minhas&lt;br /&gt;As tristezas que desta forma inglória carrego&lt;br /&gt;Antes tivesse eu pilhado a mais fofa das galinhas,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não teria agora o corvo a tentar que as restitua.&lt;br /&gt;Debato-me no meio da rua, a eito, como um cego&lt;br /&gt;Tentando manter minha a roupagem que era sua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2010&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-4194085006674155579?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/4194085006674155579/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=4194085006674155579&amp;isPopup=true' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/4194085006674155579'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/4194085006674155579'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2010/06/soneto-carvao.html' title='Soneto a carvão'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-977498926111941273</id><published>2010-06-10T14:00:00.004+01:00</published><updated>2010-06-10T15:09:45.100+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>No funeral, outra vez</title><content type='html'>Numa busca pelos motores…&lt;br /&gt;Coisa curiosa esta de buscar nos motores, dantes encontravam-se manchas de óleo, de gasolina, chatices, tubos e fita cola, miríades de fios emaranhados que nem cabelos; por isso não se lhes buscava grande coisa… Encontrei vários valores para o olho de Camões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uns, que custou dois tostões; outros, que custou cinco; há quem avente dez. Fica-me a sensação de que a cotação do olho de Camões variou com o aumento da inflação, assim como se houvesse já cotação de bolsa para coisa tão valiosa. Não me custa imaginar que no mercado as tabuletas das frutas e legumes tenham sustentado escritos a gritar por dois olhos de Camões o quilo de tomate ou, no talho, seis olhos de Camões o quilo de maminha. Palpita-me a crítica por pôr as maminhas a valer mais que os tomates, mas ninguém é perfeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não faço a mais pálida ideia de quanto valeria agora um olho de Camões. Penso que, se o dele, homem de gabarito, valeria tanto ou tão pouco, um meu valeria decerto bastante menos. E a falta que me faz! Ainda imaginei uma hipotética cotação para os meus olhos mas, da maneira que estão as coisas, talvez não seja a melhor altura para estes raciocínios; até porque sem termo de comparação ainda haveria alguém que me arrematava algum e lá se me ia a honra se o não vendesse. Assim, para não ter de pôr uma venda num olho, resolvi não pôr um olho à venda. Muito menos dá-lo à pala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embrenhado por estes pensamentos, dou-me a confrontar a potencial carga de água que terá trazido para este dia a celebração do Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas, na data de triste memória da morte do grande poeta. É que não gostaria que nada se celebrasse por memória da minha morte, calculo que ele também não. Deveria ser a vida o que deveríamos lembrar e o nascimento que deveria sempre surgir-nos em mente. A recordação da morte de alguém deveria servir apenas para nos assinalar que nesse dia ficámos mais sós; para o mal nuns casos, para o bem noutros.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A data de nascimento, por outro lado, além de ter potencialmente sido já escolhida para muitas festas em homenagem do visado, teria a causalidade necessária para nos elevar de gratidão e bons sentimentos, sempre que ele fosse pessoa memorável e singular.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim a cada 10 de Junho lá fico com esta sensação estranha de que todo este alarido é para nos recordar de um funeral, o que aliado ao nome do meu país, não me augura nada de bom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas sei que algures estarão pousados, como abutres, os que aguardam a morte do próximo génio patrício, para instaurar nesse o Dia Nacional dos Valores Humanos, decerto com mais justiça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2010&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-977498926111941273?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/977498926111941273/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=977498926111941273&amp;isPopup=true' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/977498926111941273'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/977498926111941273'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2010/06/no-funeral-outra-vez.html' title='No funeral, outra vez'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-250818123710460627</id><published>2010-05-30T20:00:00.001+01:00</published><updated>2010-05-30T20:30:53.929+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>A terceira lei de Newton</title><content type='html'>"Para cada acção há sempre uma reacção, oposta e de mesma intensidade."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Newton sabia-a toda. Tanto que fica assim explicado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toda a dedicação ultrajada pela realidade que nos reprime. Vezes tantas que a tentativa de aproximação gera a repulsa. E os vice-versas que nos corrompem a solidão. O telefone toca. Dá-me aquela vontade tão familiar de o atirar pela janela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estou?…“&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou, farto que me façam puxar pela cabeça. Já por um braço ou por uma perna levam-me para todo o lado. Pela cabeça, não. Resisto. Temo a cedência ao que desconheço, procuro sempre enraizar-me aos meus tubos de ensaio virtuais onde deixei os sentimentos fumegantes, em análise.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Estou, em sofrimento quando a apatia se entranha. A sensação do inútil, do tempo que me aproxima do cadafalso, inexorável. É a sedição que me empurra à acção, tantas vezes intempestiva, tantas vezes também relampejante e tempestuosa. Tanto mais quanto a apatia me devore. A chuva e o frio que emanam da minha alma atormentada geram vagas de tolerância, que não mereço. Sorrio. O telefone paira-me a centímetros dos dedos, entre o merecido descanso e a janela aberta para aplacar o calamitoso Verão, fora de horas. Por instantes não sei onde irá parar, é a fraca aragem que o transporta, em simbiose com a pequena força com que tenta impor-se ao calmão, talvez também fruto do fenómeno newtoniano. Eu queria a janela, consequentemente, ele quer o descanso. Alguém queria que ele parasse de tocar…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estou?...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou, como um pequeno insecto no vislumbre do canto em que aquela vespa agarra a sua aranha, entre as pequenas patas finas mas titânicas, o abdómen contorce-se-lhe enquanto espeta o ferrão erecto, obsceno, uma e outra vez. A aranha abandona-se ao consentimento, como dois amantes que o degredo tivesse separado um dia e se encontrassem agora. Mas ali não é o amor que os une, talvez por isso todo o acto seja de uma imaculada perfeição, não existem factores exógenos, nem história que os reprima. Assim, não me vêem. Sinto-me como o tarado que não deveria estar ali a mirar tanto empenho naquela união casual, mas não gratuita. Por isso afasto-me, a pensar se daquele ódio ocasional não nascerá um amor sem tempo, infinito e desejável. Sem saber ao certo se quero ser vespa ou aranha. Sei que quando sou vespa o meu dia tem sequela. Nunca me consigo imaginar noutro lugar. Já me convenço de que nasci para envenenar. Envenenar suporto, tiro sempre partido das minha inoculações. Mortifico-me porém se me sinto envenenado, temo por isso ferrão que me trespasse. E no entanto…  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estou?...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou, ciente de que as vespas são tão grandes que nem as vejo. E o resultado da sua acção talvez só o saiba daqui a meses. Passo assim cada dia, apreensivo por poder vir a parir diabo que me coma. Mas talvez, pela lei de Newton, seja eu parido por anjo que me adormeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por esta lei, da física elementar, só o bem morre com culpa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2010&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-250818123710460627?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/250818123710460627/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=250818123710460627&amp;isPopup=true' title='16 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/250818123710460627'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/250818123710460627'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2010/05/terceira-lei-de-newton.html' title='A terceira lei de Newton'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>16</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-2264195046292289031</id><published>2010-05-20T14:59:00.002+01:00</published><updated>2010-11-24T15:11:29.268Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Este país não é para velhos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Cá-ca-rá-cá-cá-cá... cá-cá...</title><content type='html'>Até nem me importarei de pagar mais impostos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pago-os porque a lei o impõe e a consciência me dita que o devo fazer para beneficiar do meu estatuto de cidadão. Cidadania compreendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este estatuto deveria assegurar-me a tutela que considero fundamental para a manutenção da sociedade em que estou inserido. É para isso que pago impostos, que sou sugado pelo colectivo que sinto alimentar numa percentagem bastante injusta, principalmente porque sagra a precariedade. A justiça é precária; a educação é precária; o trabalho é precário; a saúde é precária obrigando-me a preteri-la sempre que possível pelos serviços de privados autónomos, como eu, que também não tenho tempo para aguardar sem ela nem a cura, meses a fio, o que protelaria o meu bom desempenho fiscal, e sem ressarcimento que me reconheça o esforço; a assistência social não foge à regra; agora a economia é precária também. Só a contribuição dos cidadãos parece evadir-se a esse modelo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se para além dos contributos que me exigem, sou ainda vítima da acção de grupos de meliantes que me roubam o que resta, e de onde como, e que coloca em perigo a minha integridade física e psíquica, ou a dos meus, a minha função social começa a parecer-me principalmente uma obra de caridade pela qual não estou a ser suficientemente agraciado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já quero saber pouco de que partido ocupe a cadeira do poder. Mas parece-me que, seja qual for, desde que viva da caridade alheia para assegurar o comando das operações, deveria abandonar a arrogância e a prepotência, sob pena de nos estar a tornar a todos em meros servos revoltosos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algo estará profundamente errado se diariamente nos sentirmos inseguros, ao executarmos as tarefas normais do dia-a-dia, sempre a olhar para o lado à espera da próxima extorsão ou da próxima violência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei bem como, mas há grupos de ladroagem a agir no metropolitano de Lisboa. Nas ruas também me levaram quatro rodas, que me trocaram por tijolos de que não precisava. Atacam diariamente. Não creio que a sociedade devesse consentir que quem quer que fosse pudesse ser assaltado ou roubado em locais de utilidade pública, no decurso da sua vidinha normal e contributiva, sem contrapartida. Principalmente quando eu tenho de pagar quando falho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de gastar, investir, orientar em processos mais ou menos duvidosos que envolvem riscos típicos da acção dos privados em busca de mais-valias de seu exclusivo risco e responsabilidade, como eu faço, entendo que o Estado assim pseudocapitalista, que não me suporta financeiramente, deveria cuidar das suas galinhas-dos-ovos-de-ouro; nós os contribuintes, caso não tenham reparado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se temos de encarar esta realidade como normal, pelo menos que conste na declaração de imposto uma dedução específica, mais que justa, onde figure a totalidade do património lesado porque, pela fatia que me toca, sem indemnização ou amortização equitativas estou a ser diferenciado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até esse dia, em que haja um pouco mais de justiça social, cá fico a aguardar pouco pacientemente a próxima punhalada, de mãos e pés bem atados, que também nisso este tutor é inexorável, concedendo o direito de defesa apenas a quem nada tiver a perder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já estou quase lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2010&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-2264195046292289031?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/2264195046292289031/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=2264195046292289031&amp;isPopup=true' title='19 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/2264195046292289031'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/2264195046292289031'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2010/05/ca-ca-ra-ca-ca-ca-ca-ca.html' title='Cá-ca-rá-cá-cá-cá... cá-cá...'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>19</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-8507436338970495775</id><published>2010-05-09T14:15:00.001+01:00</published><updated>2010-05-09T15:43:58.156+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Deprecada</title><content type='html'>Vai, feiticeiro! Espera-te a tribo a Oeste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que anseia por te ver sair do ventre do pássaro mágico que te transporta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai, curandeiro albino! Desce ao terreiro onde os gritos das danças da chuva hoje não se ouvem. Reúne as hostes celestes e pacifica as negras almas. Exorciza os demónios que os poluem e exorta as almas puras que apazigúem os espíritos crentes, que os outros já estão em paz. Perdoa a culpa dos pecadores dos homens e faz erguer aos céus eternos o éter dos que partiram na tua fé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nomeia o inominável, que os acalme. Ergue o teu bastão e controla com a tua magia o tresmalhado. Reúne a manada cega e dá-lhe destino. Revigora-lhes as colheitas com os teus poderes abissais e o som das tuas cabaças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que o Sol e a Lua te obedeçam para que a noite e o dia voltem a reinar nessa terra cinzenta, queimada, poluta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tu que falas com os deuses de todas as línguas, pede misericórdia para esses indígenas e abençoa-lhes as chagas que os envergonham. Transforma a água que bebem em néctar que lhes sare todas as maleitas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Milagreiro puro, virginal e imaculado, escuta a voz dos homens e transmite-lhes o conhecimento do infinito, para que se imbuam de novo daquilo a que chamam esperança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Envergonha-os, da nudez em que deixam desprotegidos anciãos e infantes, irmãos e irmãs. Mostra-lhes que os deuses não têm conchas nem jogam nas cartas o destino que os submeta. Aceita as suas dádivas e sacrifícios sentidos no pó do terreno soalheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leva-lhes às cabanas modestas, que habitam, o brilho divino que há muito esqueceram. Pede por eles à terra que lhes seja firme aos passos e leve no sepulcro. Apela às ossadas dos ancestrais de tantas cruzadas, que te adornam as vestes, que renovem o poder incomensurável dos amuletos que trazem agora à tua presença.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escuta-lhes todos os rumores, medita no compasso dos tantãs que te celebram, como se fossem dedicados a mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faz com que as bestas lhes sejam de novo inferiores. Liberta-te da opulência e da soberba. Diz-lhes a verdade sobre os meus poderes, explica-lhes que apenas criei o universo, pouco mais posso. Mas não uses o meu nome em vão. Os poderes são dos homens, não de um deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca acreditarão se tu próprio não acreditares, que podes fazer o que te delego.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prova-lhes a minha existência; como provarei daqui a dois mil anos, em consequência da tua conquista, que terás existido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E esquece as epístolas, que o correio anda atrasado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, to ordeno! Cumpre-o, sob pena de te tornares num deles e passares também tu a adorar-me. Bem sabes que essa é a sua maldição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2010&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-8507436338970495775?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/8507436338970495775/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=8507436338970495775&amp;isPopup=true' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/8507436338970495775'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/8507436338970495775'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2010/05/deprecada.html' title='Deprecada'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-2473392905854563589</id><published>2010-05-01T08:00:00.000+01:00</published><updated>2010-05-01T08:00:03.482+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Trabalho... A quanto obrigas!</title><content type='html'>Há quem passe pela vida a meio gás, sem se aperceber de como tudo poderia ser tanto melhor ou pior que o que se viveu. Sempre em velocidade de cruzeiro. “Velocidade” só se deveria aplicar ao que fosse inebriante e incauto, a velocidade de cruzeiro é na realidade uma pasmaceira que nos atrofia e nos enraíza ao solo sem capacidade de elevação que nos aumente a adrenalina, como se nos encaixasse sempre na história de que já conhecemos o fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E houvesse história de que não conhecesse o fim… Mas conheço-os todos. Reduzi tanto os pormenores singelos dignos de nota que qualquer biografia não me mereceria mais que três linhas, como os dias que tem a vida, não fosse um tremendo esforço para me normalizar em tarefas e pormenores. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até por isso quando ouço falar em excesso de velocidade me parece um contra-senso. Nada do que seja rápido deveria ser considerado excessivo. A velocidade deveria ser justamente avaliada como um bem, a assegurar e desenvolver, em prol do progresso e da eficiência. Esta afirmação não me enobrece. O meu pensamento é carbónico, lento de pasmar. Chego a adormecer a meio de um pensamento, principalmente ao serão depois de deitado, e nem pensar em tentar juntar na ideia duas coisas ao mesmo tempo, em vez de adormecer ficaria para aí comatoso. Os meus diálogos são por isso bastante aborrecidos, não será fácil dialogar com um interlocutor que leva meio dia para recordar um nome ou várias horas para descrever um facto, entrecortando cada ideia com pausas enormes. Tento dar uma certa musicalidade às frases, para não ter de reanimar quem me intercepte. Mas ainda assim a coisa resulta mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando é absolutamente necessário elaborar algum discurso imediato acabo por me impor um regime ligado no “nível médio de asneira”, tem riscos calculados e tem funcionado até aqui. Mas acabo a pensar nas coisas que disse e sofro bastante ao compreender todo o potencial que poderia ter aplicado, estivesse eu munido de neurónios mais reactivos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até coisas de que possuo imensos pormenores não fluem na hora certa, acabo por recordá-los só quando o receptor já desapareceu no horizonte. Um campeão olímpico estaria em vantagem, em poucos passos actualizava a conversa. Eu fico para ali agarrado ao telefone, a recordar o número, a carregar nas teclas ao acaso… Acabo por deixar para o dia seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como agora, por exemplo, tenho a certeza de que havia qualquer coisa que queria escrever hoje, tinha de ser hoje, mas sei lá…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se ao menos me lembrasse de que dia é hoje…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou se me lembrasse do que escrevi há um ano…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2010&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-2473392905854563589?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/2473392905854563589/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=2473392905854563589&amp;isPopup=true' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/2473392905854563589'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/2473392905854563589'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2010/05/trabalho-quanto-obrigas.html' title='Trabalho... A quanto obrigas!'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-8068759834688350262</id><published>2010-04-22T00:25:00.001+01:00</published><updated>2010-04-22T03:15:15.723+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Relancionamentos</title><content type='html'>&lt;p&gt;  &lt;p&gt;Vá lá... Não te rias. Não me ofendas. Saberás que me maltratas?&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Não sei quando me apareceu esta estranha tendência.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Foi há muito que comecei a cativar o gosto, a definir uma preferência inusitada por um certo tipo de coleccionismo. Antes de me começarem a cercear as vistas e a devassar os intentos.  &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;"Fecha a boca! Olha que entra mosca!"&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;E eu fechava. E desviava o olhar, como se temesse que me espetassem as agulhas de tricô num olho. Que se tricotava à mão, naquele tempo. Ainda vesti muitas camisolas que as mãos maternas prendadas mostraram ao mundo, e a mim. Tricotadas com aquela paixão com que os meus olhos passavam das suas mãos para os dela, e os meus lábios se entreabriam.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Depois vieram tios e primos, amigos e amigos de parentes. O homem da mercearia, o Justino da papelaria sempre aziado com os catraios, o leiteiro e o padeiro.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;"Olha lá o danado do moço! A olhar para mim... Sou muito feia? Sou?..."&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Durante anos pratiquei esse fetiche. Bambaleando as pernas no banco do autocarro ou do cacilheiro. A viagem era sempre curta, ou parecia; a paisagem sempre variada, e as moscas iam-se mantendo à distância. Eram os rostos que me interessavam, a posição das orelhas, os trejeitos, o tamanho do nariz, a estranheza da calva. Embriagava-me aquela variedade.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;"Que foi? Nunca viste?"&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Começaram depois a disparar. E eu, envergonhado, corava e não respondia. Tinha vontade de lhes explicar, que não. Que nunca vira aquela composição bela de traços e formas, de cambiantes e gestos. Mas nunca fui bom com as palavras, principalmente as faladas. Estragavam o momento e desviavam-me a atenção do cerne do meu interesse.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Com o passar dos anos fui aprendendo a respeitar mais as moscas e a controlar melhor a maxila. Perdi um pouco daquele ar idiota que tão bem me identificava. Sinceramente, era também mais fácil coçar o queixo, onde a penugem despontava, de boca bem fechada.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Os olhos deixaram de me obedecer tanto. Passaram a centrar-se em objectivos mais sexistas e menos adequados ao meu fascínio genésico, dava por mim a mirar inexplicavelmente outros alvos, com cobiça mas sem desagrado. A paixão porém permanecia, mas a boa-educação também. Aprendi com facilidade a não olhar directamente nos olhos dos mais hierárquicos, a não devassar as senhoras casadas; nem, para meu interesse, as solteiras de mau humor. Interiorizei o grande poder que um olhar detém, evitei utilizá-lo a eito como arma temerária, mas também aprendi que há quem afira a honestidade pela tenacidade com que o sustentamos no diálogo, o que não se compatibiliza com muitas das situações que referi. Talvez por isso nos enganemos tantas vezes nos juízos apriorísticos.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Nesta complexidade ainda me surpreende como consegui amansar algumas feras e trazer brasas à minha sardinha, mas consegui.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Dei por mim há dias a passar por pessoas sem as ver.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Porque me conheço bem, sei que isso não é bom sintoma. Temo ter deixado de acreditar que valorizem o meu olhar, mas temo sobretudo ter deixado de procurar a beleza naquilo que me rodeia.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Por isso, não te rias, não me ofendas. Não estranhes se vires um estranho a olhar para ti com ar pasmado, e de boca aberta à espera da mosca. Sou só eu, inofensivo, a admirar a tua beleza e a incorporar-te na minha colecção. E será até bem natural que, de ti, nada mais queira.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Nesse dia estarei a caminho da minha cura. Até lá, desejem-me as melhoras, ou a mim ou ao mundo.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;© CybeRider - 2010&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-8068759834688350262?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/8068759834688350262/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=8068759834688350262&amp;isPopup=true' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/8068759834688350262'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/8068759834688350262'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2010/04/relancionamentos.html' title='Relancionamentos'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-5019496337133407470</id><published>2010-03-30T03:30:00.011+01:00</published><updated>2010-03-30T04:36:42.431+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Objectos de culto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Pequena paixão</title><content type='html'>&lt;p&gt;Era elegante e sóbria.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Trazia consigo o carácter de quem foi talhado para encarar cada dia sem temer o amanhã. O seu dia seguinte era sempre um reinício e transmitia a confiança de que o mundo não acabaria nunca.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Um pouco mais velha que eu, já tínhamos ambos alguma experiência. Acompanhou-me, se bem recordo, por cerca de quatro anos. Felizes. Conheceu-me desventuras que não confessei a ninguém, partilhou comigo as aventuras mais memoráveis e as noites mais tristes, as menos sóbrias também; nestas tive sempre o bom senso de não a envolver em desacatos. Recordo uma noite em particular em que escrevinhámos poemas e tolices na toalha já manchada de cerveja, para gáudio dos presentes. Foi das poucas vezes que a coloquei em risco. Acompanhou-me a concertos. No dia seguinte, naqueles dias que o são porque temos de nos relembrar do calendário, estava sempre pronta para recomeçar um novo ciclo: aulas, estudo, dedicação; partilhávamos cada momento. Quando a não via era, ainda assim, omnipresente; podia contar com ela, sempre. Cumpriria os meus desígnios sem hesitações ou quebras, com abnegado rigor.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Pela minha mão vi-a descrever piruetas de emoção, cifrar com esmero os segredos mais audazes que não partilharia com mais ninguém; contemplei a forma delicada como descrevia os meus pensamentos e emoções como se fossem dela, cheguei mesmo a acreditar que sim, que eram seus e só seus. Escrevemos cartas de amor. Eu e ela talvez pudéssemos ter feito a diferença; quem sabe?... &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Agora é tarde. Separámo-nos haverão bem mais de vinte anos, quase trinta talvez. Rios de tinta que escrevi. Eram rios autênticos por esses dias; nada como essa seiva gelatinosa que agora se espalha em qualquer folha de terceira categoria, que já nem carece de mata-borrão. Naquele tempo era preciso cautela, perícia e instrumentos de confiança. A nossa separação foi-me dolorosa. Não esqueço o malfadado dia em que a deixei só por instantes no local errado para se ficar só.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Tive a ventura de lhe conhecer uma irmã. Faz dias. Partilham as feições e o nome de família. Era americana a minha menina; e a mana, claro está, também. Podiam ser gémeas, já que à primeira vista nada as distingue. Ainda presumi que pudesse voltar a ser como dantes. Mas um olhar atento revelou-me a minha pior suspeita:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;É virgem...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Como se pode conservar a virgindade por mais de quatro décadas?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ciente de que aqueles idos foram os meus mais promissores, reconheço a minha falta de capacidade para dar a esta novo ânimo, incutir-lhe a vitalidade que me fizesse recordá-la alguma vez com a mesma grandiosidade e viver a mesma simbiose que partilhei com a outra, que ainda admiro e pranteio.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Seria preciso voltar a adquirir um tinteiro, bombeá-la para a vida inoculando-lhe o fabuloso líquido. Não sei se o farei...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Como poderia educá-la, submetê-la, torná-la dócil à minha mão?...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;© CybeRider - 2010&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;&lt;a href="http://farm3.static.flickr.com/2789/4475364666_8a8aaf934f_o.jpg"&gt;Foto aqui&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-5019496337133407470?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/5019496337133407470/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=5019496337133407470&amp;isPopup=true' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/5019496337133407470'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/5019496337133407470'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2010/03/pequena-paixao.html' title='Pequena paixão'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-7546697987691470599</id><published>2010-03-24T01:10:00.001Z</published><updated>2010-03-24T01:23:54.155Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>O matador</title><content type='html'>&lt;p&gt;"Não nasci para matar!"&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Grito, a convencer-me. E porém, vejamos:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ao nascer quase matei a minha mãe. Valeram-lhe os cuidados médicos adequados para que não perecesse e me deixasse ali logo entregue à estatística, de mais um órfão à nascença; bem vistas, as coisas, sei lá se haveria alguma já nascida e mantida que assinalasse tais desventuras e nos convertesse automaticamente em números indignos, privando-nos de qualquer protagonismo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ainda faltaria mais essa.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Assim, fiquei sem carregar o peso desse homicídio absolutamente involuntário, bem vistas, as coisas também, nem a conhecia até à data. Tinha a desculpa de ser inimputável. Talvez por isso, comecei logo a matar. Matei a fome e a sede tantas vezes quantas pude. Não me consta que um recém-nascido alguma vez tenha sugado a mãe até ao osso. Maravilhas da natureza. Não sei se me faltaria a vontade, mas acredito piamente que não. Por mim não haveriam sobras depois do primeiro repasto. Agora já penso de outra maneira, talvez em contrição.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em breve a sociedade já matava para mim, já não estava tão só. Comi cada bife sem mágoa.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Cresci de rompante e nem recordo os engodos em que ocultei essa intencionalidade assassina. Perdi-lhes o rasto nas recordações que aniquilei, na minha fuga desesperada para evitar o degredo de pecador penitente. Sei que continuei a matar, pelo que escalpelizo, convicto da minha inocência. Enganado por mim próprio.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Usei à desmesura o meu olhar de matador; armado, em parvo, na maioria das vezes; direccionado às presas incautas que lhe tentavam em debate intenso resistir; camuflando sentimentos pouco claros que justificassem tal atitude, acabei por ser  poucas vezes bem sucedido mas, nas que fui, acabei por encontrar uma injustificada felicidade; algo felina, por desprendida, confesso.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Um dia puseram-me armas nas mãos para que matasse, coisa nenhuma. E estranhei. Estranhei principalmente a sinceridade do gesto. Como uma acusação pendente sobre o meu crânio, capaz de se soltar do pêndulo celeste para me trespassar a essência. Encarei a coisa como um fardo, e fardei-me durante o tempo que me pediram, sem saber ao certo porquê. Afinal pediam-me que usasse capacidades que desconheciam. Mas que eu sabia, sem desejar dá-lo a conhecer, o quanto era exímio na sua execução. Para a sociedade passei por mero amador. E deixaram-me escapar sem que suspeitassem dessa realidade assustadora. Agradeceram-me. Bajularam-me.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Nunca premuniram as ilusões que desfiz, nem as expectativas que gorei às minhas próprias mãos, nem as alegrias de outrem que sufoquei num ápice, sem hesitar. Sempre com a frieza do assassino mais cruel e horrífico. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Criei quimeras também, mas com o intuito deliberado de as abafar. Tantas estrangulei sem remorso.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E disto se fazem as memórias e as saudades, e os arrependimentos. Mais presas para juntar ao meu espólio; também estas que restem terei de matar, a seu tempo. Penso no móbil, calculo a forma.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sei que por cada desmembramento me pesarão os danos colaterais; que os há. São as réstias de esperança, que se desvanecem em cada entardecer, em cada onda do mar que varre o sangue das entranhas restantes desses pobres entes que reprimo. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Das saudades que mato não necessitava. As saudades nunca aproveitam a ninguém, nem aos que partiram que deixam ali um cabo ancorado, nem aos que ficam e que acabam por entortar o pescoço no vislumbre do navio.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;São as horas; tanto tempo que acabo por esventrar e que tanta falta me faria, para continuar a matança. &lt;/p&gt;&lt;p&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;© CybeRider - 2010&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-7546697987691470599?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/7546697987691470599/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=7546697987691470599&amp;isPopup=true' title='16 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/7546697987691470599'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/7546697987691470599'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2010/03/o-matador.html' title='O matador'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>16</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-671322490239393077</id><published>2010-03-15T01:10:00.000Z</published><updated>2010-03-15T01:13:42.053Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>"Skin Deep"</title><content type='html'>&lt;p&gt;  &lt;p&gt;Havia muito tempo que não seguia um conselho naquele sentido.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Procurei-a por recomendação.  &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Uma vantagem das confidências é recebermos em troca conselhos dos confidentes; nem sempre acertados, mas alguns dão-nos que pensar, outros seguimo-los por terem aquela lógica imbatível que nos leva por si ao tapete no primeiro assalto. Este foi assim. Consequência de uma desvalorização de auto-estima a cada dia que passou, do incremento em perscrutar a atenção alheia sobre a minha condição, ainda que ciente de que ninguém poderia pelo olhar desatento avaliar o meu sofrimento, ou mesmo as minhas mazelas.  &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Entrei. Olhei-a nos olhos e disse-lhe de imediato que, apesar de não nos conhecermos, e sem mais delongas, estava disposto a tirar a roupa de imediato. Olhou-me com um sorriso e respondeu-me que afinal estávamos ali para isso. Não protelei. Despi-me e ela pediu que me deitasse. Senti as suas mãos percorrerem o meu corpo, milímetro a milímetro.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O toque de profissional experiente.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Procurei-lhe o olhar quase a medo, a tentar disfarçar o receio de lhe ler alguma crítica que me incriminasse, alguma insatisfação pelo que ali expunha que me pudesse diminuir à sua observação conhecedora. Estou certo que a minha tensão arterial subiu em flecha, sentia palpitar as veias temporais. Não estou certo se me terá mexido no cabelo; diria que sim, mas os pensamentos voavam demasiado depressa, o receio do desconhecido aumentava a cada fracção de segundo. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Sobreveio-me por instantes a culpa. O juízo apriorístico de que a minha presença ali tivesse como causa algum vício maligno, ou que fosse o resultado de algum comportamento desadequado.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;O seu olhar era calculista, desprovido de qualquer sentimento que eu pudesse sondar. Exactamente como eu desejara. As suas mãos continuavam a percorrer-me a pele, já não lhes sentia o frio. O meu temor porém mantinha-se, o seu olhar permanecia insondável.  &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;A minha intenção de pretender apenas satisfazer a minha necessidade, encontrou perfeita sintonia no interesse dela, absoluta e inequivocamente profissional. Dois perfeitos estranhos. A nenhum interessava que aquele momento pudesse ser mais que um mero encontro fortuito, irrepetível.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Vesti-me, paguei.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Afinal, não tenho com que me preocupar, trata-se de uma afecção benigna, talvez causada pelo Inverno estranho a que a minha pele não se terá ajustado.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Receitou-me alguns medicamentos e tratamentos a cumprir a rigor. Tenho nova consulta dentro de uma semana.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Mas já estou melhorzinho.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;© CybeRider - 2010&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-671322490239393077?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/671322490239393077/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=671322490239393077&amp;isPopup=true' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/671322490239393077'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/671322490239393077'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2010/03/skin-deep.html' title='&quot;Skin Deep&quot;'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-4452367461021778175</id><published>2010-02-28T18:40:00.003Z</published><updated>2010-02-28T19:08:42.680Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Do cesto dos papéis'/><title type='text'>Cem</title><content type='html'>&lt;p&gt;Cerca de seis mil e novecentos milhões de dias em vinte e quatro horas. Tantos quantos os relatos diários que podiam constar do comandante desta nau redonda à deriva pelo vazio.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E eu para aqui ralado com cem. Cem textos, e um aniversário que me passou ao lado. E se isto não estiver preparado para três dígitos?  E se se acaba o meu mundo como se vaticinou na passagem do milénio?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Tenho adiado.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Hoje reuni a coragem necessária para este salto profundo. Seja o que... &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Esbarro de novo nisto... O inominável... Ele não existe! Farto-me de afirmar isto e esbarro sempre no mesmo. Devia dizer: "Seja o que Eu quiser", isso sim. Mas sei lá o que quero. A um por ano teria precisado de cem anos. E talvez fosse isso o justo. O que me arroga o direito a tecer considerações sumárias por mais de uma vez em cada ano que passe? Que peso pode ter isto, face aos seis mil e novecentos milhões que se debatem com tanto? E os deveres decorrentes? &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Agora fico cem vezes em dívida por me ter apoderado de algo que não me pertence. Usurpei a inteligência colectiva e assumi por cem vezes que algo era de facto meu. Mais um punhado de mentiras. Cem!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E agora?...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A próxima meta terá de ser quatro dígitos. Outros tantos pecados... Arderei no Inferno!...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Não haverão efemérides que cheguem...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Cem chicotadas me dessem! &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mas se tiver de ser... Que seja uma por ano.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;© CybeRider - 2010&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-4452367461021778175?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/4452367461021778175/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=4452367461021778175&amp;isPopup=true' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/4452367461021778175'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/4452367461021778175'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2010/02/cem.html' title='Cem'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-7996097688434807838</id><published>2010-01-27T00:30:00.003Z</published><updated>2010-04-27T12:30:51.439+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Pequenos detalhes</title><content type='html'>&lt;p&gt;Pasmava-me a facilidade com que aquela gente me punha numa família com a mesma facilidade com que me ajudavam a sentar ao banco do balcão do café.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;"Antão de quem éi o caspinhooooo?"&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Outro lá me traçava o esquiço de uma àrvore genealógica de espécie que me era absolutamente desconhecida. Adivinhava-lhe o tronco grosseiro e os galhos partidos, mas teria de servir assim mesmo. Depois o desfecho: &lt;/p&gt;&lt;p&gt;"Éi o neto do Gatooooo!"&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E também do Progressista. Do Gato ainda me lembro. E lembro-me de me ter ofendido. Gato era também um dos meus amigos da minha idade, o Tó Zé que, não sabendo enfiar um soco, nos esgatanhava as bochechas mesmo que o deixássemos no chão de lábio rebentado a chamar pela mãe. Só isso evitou-lhe monumentais cargas de pancada, as menos permentes que as outras levou-as todas, e aos pais outros tantos cuidados. Assim, como poderia eu ser neto do Gato? E lá imaginava o meu querido velhote, mais pequeno mas já com rugas, a esgatanhar as bochechas de alguém, com a mesma injustiça que o outro que nem sabia dar um soco direito, por que carga de água, à revelia das valentes tareias que em boa verdade nos conferiam o respeito da irmandade e como tal absolutamente necessárias e inquestionáveis. Tinha de ser mentira!&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Cinco ou seis teria, não mais, mas da primeira vez ofendi-me. Olhei para aquelas caras de sorrisos abertos à maneira de algum &lt;em&gt;cartoon&lt;/em&gt; do Vilhena e dediquei-me aos dentes tortos e espaçados, aos meus que ainda eram tenros tinham chamado "de mentiroso", porque a falta dos molares restantes não oprimia os incisivos que ficavam com um ligeiro espaço. E se há coisa que nunca fui... Mas mirei-os por horas, um minuto para eles, mas para mim foi o suficiente para que lhes recorde os deles, até hoje. Os espaços de uns, o amarelado dos Provisórios e Definitivos, de outros. Deixei os dentes e memorizei-lhes as panças à tractorista. Foi por vingança, bem sei, mas guardei cada pormenor no pequeno cofre onde ainda não haveria espaço para muito mais.&lt;/p&gt;Levei anos a juntar os incisivos ao espelho, acabaram por nascer enormes e saídos e tive de tolerar o arame que não era da moda e que me fazia da boca uma máquina de tricotar, ou um radar do aeroporto, como tantas vezes achincalhei outros infelizes. Tudo para me tornar, um dia, num homem honesto e cumpridor, que me apagasse de vez o cognome que herdara da província, pelos amigos daquele Gato que amparou o meu pai nos seus braços rústicos. Também ambos sem dentes de mentiroso, nem dizeres que nos enganassem.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Talvez não percebessem porque não sorria e eu, comprometido pela razão justa mas infantil, não lhes saberia explicar.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ocorre-me que não saibam quem é talvez um dos maiores caricaturistas de sempre deste rectângulo, desde o colonialista e totalitário, ao revolucionário e europeu; mas não importa, não havia lá gaiatas como as dos livros do Vilhena, era tudo gente campestre de vestes pudentas, mas por essa altura esses assuntos eram-me estranhos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Pueril era-me também o ódio de me ver apelidado de "caspinho" por aqueles latagões brutos. Imaginava os ombros com caspa dos estivadores do Poço do Bispo, ou dos engraxadores do Cais de Alcântara, sem ver nenhum paralelismo com a minha tez imaculada de menino lavadinho e metropolitano, que me valesse ali, para os lados de Portalegre, tal epíteto. Já o meu avô me chamava assim, mas dele tolerava tudo, até que me pudesse esgatanhar as bochechas. Mais tarde percebi o paralelismo com "cachopo" acrescentado do diminutivo à minha altura.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Queriam-me bem, afinal...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Nesta minha injustiça, eu cresci e eles definharam. Dos cognomes dos avós nunca lhe saberei a razão, perderam a causa em quase cem anos. O Progressista acompanha-me num papel que entesouro, nunca o conheci em pessoa. Amarelado no preto-e-branco em sépia natural, de ar austero e severo, no seu fato de Domingo, a sobressair a corrente e o relógio respectivo, que o tempo nunca me mostrou. O farto bigode e olhar sóbrio ainda lhe conferem a altivez e o respeito que me impõe quando o imagino meu ancestral. Conta-me a minha mãe que nem sempre assim era, que quando a vida lhe começou a correr pior ele bebia... Nunca à minha saúde, penso eu.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mas não lhe consigo imaginar tal descompostura.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;© CybeRider - 2010&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-7996097688434807838?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/7996097688434807838/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=7996097688434807838&amp;isPopup=true' title='16 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/7996097688434807838'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/7996097688434807838'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2010/01/pequenos-detalhes.html' title='Pequenos detalhes'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>16</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-8330596265586381647</id><published>2010-01-17T21:35:00.004Z</published><updated>2010-01-17T23:53:37.598Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Que as há... Há!</title><content type='html'>&lt;p&gt;É moderno duvidar se existe ou não.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Menos será afirmar que um católico pode ser "não praticante". Assim como ter sido condenado à pena máxima e continuar a circular livremente pelo mundo. Como eu, mas afirmo-me inocente de toda a culpa, como todos os condenados, aliás. Haverá alguém culpado de alguma coisa? Do catolicismo menos ainda. Foi algo que nos foi oferecido de bandeja por quem talvez nem acreditasse, mas que pelo sim pelo não...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Como acreditar que alguém nos governa de uma dimensão supra-terrena. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Pelo sim pelo não, recordo uma obra recém-lançada em que uma testemunha de sinal na testa afirma que sim Senhor; para o anatemizar com as maiores injúrias, pensei eu que tenho memória curta. Meio divertido li, hei-de reler, mas li e compreendi os que não leram como eu li; que há quem acredite que existe e que veja mal visto o facto de se lhe apontar o dedo, talvez pelo medo de represálias ou por temerem que, pela concórdia, já não lhes coubesse o sofá mais confortável no céu, sem acreditarem que o ruído e a aragem dos aviões devem ser insuportáveis; ou talvez duvidem também disso, sem que o confessem.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Se por um lado acreditar no tal Senhor me parece já heresia à humanidade que sofre, acreditar no Diabo também não me convencerá a vender a alma que, para ser honesto, aposto que não tenho. Mas pelo sim pelo não, e por bom preço...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Porque as leituras nos contaminam, basta pensar na incredulidade com que nascemos e na estreiteza de pensamentos  que vamos adquirindo com o avançar das leituras, devo confessar-me bastante contaminado ainda. De repente dá-se aquela calamidade terrível naquele território longínquo e cismo se não seria represália ao livro do que já foi considerado o primeiro do mundo. É uma coincidência terrível... Outra razão não houvesse e tudo poderia ter sido até um mero passo em falso, uma distracção, um erro grosseiro do tal Senhor que se duvida que exista. E nem sei se era Sodoma ou Gomorra, se tinham discriminados casados ou por casar. Mas também ali se varreram repentinamente muitos milhares de vidas a eito; homens, mulheres e crianças.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Daqui passo a encarar a dúvida de que se tivesse tratado de uma técnica de vendas de proporção desmesurada e talvez inútil. Afinal o autor tem vendido tantos tão bem que não haveria necessidade... Mas sabemos nós lá os desígnios do tal Senhor!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sei que, quando alguém refere a veracidade do que digo, não me exubero as virtudes com a vontade de realizar dez hiroximas; normalmente um simples "obrigado" basta, mas lá está: não sou eu o Poderoso. Ao autor que refiro reservo por isso um abraço fraterno, por considerar que não tem culpa pelo acto tresloucado a que deram origem as suas palavras. No seu lugar eu estaria ainda mais infeliz. Assim, não posso deixar de me ver transformado numa estátua de sal, por assistir imobilizado. Pelo sim pelo não temo pelo que alguém faça para me mostrar que terei alguma vez razão.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quedar-me-ei a pensar se não será a minha a fronte manchada. E se não houver quem me mate?...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Surge-me esta vontade indómita de, pelo sim pelo não, ir a correr esfregar bem a testa. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;© CybeRider - 2010&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-8330596265586381647?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/8330596265586381647/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=8330596265586381647&amp;isPopup=true' title='25 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/8330596265586381647'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/8330596265586381647'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2010/01/que-as-ha-ha.html' title='Que as há... Há!'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>25</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-5419541785633379592</id><published>2010-01-07T14:00:00.001Z</published><updated>2010-01-17T19:23:29.460Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Este país não é para velhos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Terra de todas as virgens</title><content type='html'>&lt;p&gt;O sonho comanda a vida. No dia seguinte já não nos lembramos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Saberá quem tomou a mão de um sonho, quando caminharam despidos sobre a areia da praia. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quando havia praias para dois... Ou mais...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A procura do amor de uma vida leva a que se mereça o Inferno. Em boa justiça, quem encontra o Céu na Terra não deverá ambicionar para além disso. É de um pretensiosismo atroz que se tencione o prolongamento dessa felicidade para além de uma vida. &lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ao contrário de certas religiões que contrapõem a infelicidade terrena ao júbilo celeste, e que prometem virgens sem conta para além do bater do coração, a modalidade reinante na sociedade ocidental guia-nos à prossecução de um objectivo sentimental direccionado à monogamia, o que traz vantagens, convenhamos. &lt;/p&gt;Pelo sim pelo não, podemos aproveitar milhões de virgens à nossa volta sem que tenhamos de estragar o Paraíso maculando alguma. Em boa missão cristã alguém deveria explicar, aos que ambicionam a sandice extrema de aguardar pelas suas virgens às mãos de uma divindade de existência duvidosa, que as mesmas serão sempre intocáveis; nunca podendo vir a enformar um possível harém que cruze o imaginário desses pobres crentes. É a subversão de princípios criada no imaginário de tais infelizes que lhes permitirá o idealismo utópico de se virem a rodear de virgens que pudessem usufruir, sem que compreendam que o usufruto de apenas uma estragaria o equilíbrio divino do que deveria ser imutável. Haveria muito menos deles a fazer-se explodir.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;A falha sistémica do cristianismo reside, porém, no facto de se prometer o Céu a quem já o pôde viver na Terra. Haja quem reflicta sobre este desequilíbrio para renegar esse fundamentalismo.&lt;/p&gt;Por outro lado a monogamia enforma uma realidade estranha. Ao satisfazer a necessidade fundamental, cercam-se os nubentes de todas as potenciais virgens do mundo, em vida. Pudesse isso ser o Céu, acaba em boa verdade por se tornar num Inferno em que o desejo se reprime em benefício de princípios que, não deixando de ser religiosos, ainda que não assumidos desta forma, se cumprem à risca; reforçados com a justificação de premissas éticas e morais, que tantas vezes acabam por não se conseguir explicar. &lt;br /&gt;&lt;p&gt;Nesta mesma sociedade, que rejubila de sexualidade exuberante, temos de sujeitar a libido natural ao constrangimento do ditame "que se veja mas não se toque", a menos que não existam compromissos assumidos, o que não é natural que aconteça com a maioria dos que já se libertaram dos condicionalismos, ou frivolidades, da juventude.   &lt;/p&gt;A alguns bastará a aliança contratual com um só amante. Pequeno retalho de Céu, simples sonho para quem pensar ter encontrado a sua alma gémea, que por respeito e lealdade não se deverá atraiçoar. E os que têm essa alma repartida por tantos seres tão belos que os rodeiam?...&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Reclamo o meu direito à indignação. Trata-se a poligamia como assunto tabu, ainda. Intelectuais pseudo-vanguardistas, plenos de justificações perenes para viabilizar todas as libertinagens individuais de teor positivo como necessárias à realização do conceito "ser-humano", não se debruçam sobre este assunto, tolhidos ainda por uma mentalidade esconsa.&lt;/p&gt;Então e eu? Se for poligâmico, serei um anormal? Por que razão não poderei beneficiar do mesmo estatuto que qualquer outra preferência sexual confira à generalidade da população?&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Mais facilmente aceitaria a abolição da instituição casamento, eventualmente retrógrada,  do que me conformo com a marginalidade a que me votam. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;E vejo-as que me olham com desejo... Pretenderão eventualmente tomar-me para sempre, mas não posso... É esta sociedade tacanha e mesquinha que não mo permite. Que argumento existe que conceda aos "hetero" e aos "homo" monogâmicos aquilo que ambiciono? Eles podem! E eu, não?...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Gostaria de assumir esses compromissos legalmente, para sempre, e andar de mão dada com todas elas na praia, como no meu sonho, mas esta minha escolha, embora me seja fundamental, ainda parece ser, por motivos que ignoro e não concebo, demasiado arrojada.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Por quanto tempo mais me obrigarão a permanecer no armário?...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Para quando uma lei em que eu possa ter uma vida como a das outras pessoas?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Até lá não vejo como poderei consolar todas as virgens cujos olhares concupiscentes me devoram, e que amo do mais profundo do meu ser. Só peço um pouco mais de justiça para ser feliz.&lt;/p&gt;&lt;p&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Assim, vejo-me a pairar no Paraíso dos infiéis. Que Inferno!...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;© CybeRider - 2010&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-5419541785633379592?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/5419541785633379592/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=5419541785633379592&amp;isPopup=true' title='24 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/5419541785633379592'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/5419541785633379592'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2010/01/terra-de-todas-as-virgens.html' title='Terra de todas as virgens'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>24</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-9127976438334751475</id><published>2009-12-31T16:50:00.001Z</published><updated>2010-01-02T03:09:11.266Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Ano Novo, vida velha</title><content type='html'>&lt;p&gt;Por onde passo ouço desejos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ou está tudo grávido de algo estranho, ou sou eu o estranho que não entende tanto sentimento desiderativo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Os que tudo têm desejaram prendas, pela celebração do nascimento de Cristo, os outros desejaram que não lhes desejassem nada de pior. E vêm estes dias em que se deseja um "bom ano", e lá se empurram mais umas passas e lá se esquematiza outro punhado de desejos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ainda bem que me atafulho do que a mão consegue alcançar, tento entupir as ideias e calar a boca para que me saia apenas o mínimo indispensável de hipocrisias.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Pois não desejo eu afinal tudo de bom para todos durante todos os dias do ano? Não saberá quem me conhece que nada de mal consigo desejar em todos os dias que restam? O que tornará afinal estes dias mais sinceros que os outros? Que necessidade tenho de enviar votos do que quer que seja? Ainda se durante o resto do ano vos tivesse odiado, invejado, estigmatizado, ofendido; bem, ofendido talvez, mas não foi com intenção deliberada, talvez em autodefesa, ou porque me distraí...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Passarei, à laia de promessa, a desconfiar de quem me deseje coisas boas por esta altura; ter-me-ão sem dúvida desejado o pior em todas as outras.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Não foi a natureza quem pensou na divisão dos anos. Podiam dividir-se noutro dia qualquer que o resultado seria o mesmo. Reitero hoje como amanhã um desejo, este à laia de moda, vício da época, embora o deseje todos os dias:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Que este tenha sido o pior dia do resto das vossas vidas. E o "tenha sido" justifica-se pelo facto de que nada do que foi mau poderei alterar, que se pudesse... Talvez começasse por alterar a forma como celebramos estas passagens. Atribuiria a cada meu semelhante vivente uma medalha por cada período decorrido, essas insígnias trariam consigo a capacidade de nos recordar de um valor antigo, o respeito pelos anciãos. Talvez nos impedissem de seguirmos a moda consumista, talvez evitasse que os fossemos jogando fora aos poucos, com cada cabelo branco que lhes surge de novo, ou cada ruga que se lhes aprofunda na face. E no entanto, tantas vezes, são eles os primeiros a cumprir tradições e a encher-nos ainda a mesa, na ceia de Natal, e a ter desejos positivos para o nosso futuro, tantas vezes com a ingenuidade das crianças, e nós crianças tontas nem os ensinamentos deles seguimos; talvez porque não nos pesem muitas medalhas ainda, mas menos pesarão futuramente por mérito.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mas somos bons nestas alturas, tão bons que o céu chora, tão bons que mesmo que ele não chorasse acharíamos que o mereceríamos, simplesmente porque proferimos alguns desejos como se babássemos por um manjar raro; que ridículos nos tornamos...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Que este tenha sido o pior dos vossos dias, esse é o voto que faço a cada renovação de um sol pelo outro, porque se este tiver sido o pior dos vossos, todos os meus no futuro não serão também tão maus assim.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E amanhã... Amanhã tentarei retomar a minha vida, sem promessas nem desejos. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;© CybeRider - 2009&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-9127976438334751475?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/9127976438334751475/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=9127976438334751475&amp;isPopup=true' title='25 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/9127976438334751475'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/9127976438334751475'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/12/ano-novo-vida-velha.html' title='Ano Novo, vida velha'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>25</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-3413358650380716003</id><published>2009-12-19T23:45:00.001Z</published><updated>2009-12-20T01:14:02.284Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Este país não é para velhos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Uma cadela em Copenhaga</title><content type='html'>Levaram-me a bicha para o estrangeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maganões... Que ali sim, a iam exibir num concurso da especialidade. Iam-lhe medir os quadris, a altura ao garrote, a beleza do pêlo; em suma aferir-lhe o estalão. Cá fiquei inquieto, eu que a trato tão bem, nem me convidaram. A mim disseram que não, que lhe dava maus tratos, que não a livrava das pulgas e que a admoestava à paulada. Mentiras!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei a seguir o evento pela televisão. Sentado, felizmente, de manta sobre os joelhos, que faz frio. Começaram por escová-la a preceito, depois analisaram-lhe o sangue, e concluíram que estava em mau estado. Precisava de uma dose cavalar de vitaminas. De início ainda acreditei que iam tratá-la, mas começou a chegar-me aos ouvidos o relato acerca das condições miseráveis em que a mantinham no canil, rodeada de excrementos, à mercê das intempéries.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, vil malandragem, então foi para isso que ma levaram?... Melhor fora que ma tivessem deixado, pelo menos sempre poderia acreditar que afinal não soubera eu tratar dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho aqui condições. Não sou um industrial, aliás já pouco produzo. Os europeus levaram-me os barcos, pagaram-me para derrubar as laranjeiras que lhes impediam as vistas para o mercado, enfim pouco mais faço que alguns serviços. Chamam-me agora europeu também, a mim que mal os entendo. E querem que fale com eles de igual para igual, mas cerceiam-me os direitos e impõem-me deveres, que para cumprir tenho de forrar em capas de plástico, daquele que eles produzem. Não posso usar os meus métodos tradicionais que lhes chamam bárbaros, acabo por me ver grego...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Anda cá, Terra!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chamo-a, mas não me ouve. Está longe a minha cadela, a alimentar uma ninhada de cachorros gordos. As pulgas bem cravadas na pele já em crosta sugam-na até ao tutano. Foi para isso que me afastaram, que não quiseram que me aproximasse, para não poder ver. E ainda dizem que sou eu o culpado. Culpado de quê? Acaso serei eu que a sufoco com o fumo da minha lambreta? Sou eu que a asfixio, que não lhe deixo espaço, se a minha casa fica cada vez mais vazia? Certo é que já quase não tenho com que a alimentar, talvez por isso me foi mais fácil vê-la partir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mandaram cicerones a acompanhá-la, mas os coitados não se apercebem de como são pequenos, eles também, como o país de onde partiram. Confundem-nos com as pulgas que infestam o pêlo da minha cadela, e eles fazem-se importantes e crescem para aquelas feras malditas, mas estas sabem que eles, assim como a cadela, mesmo que ladrem também não mordem. E os coitados lá vão andando, ridículos, de rabito entre as pernas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não pode a cadela com tanto cachorro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai Terra, Terra... Vejo-te de língua de fora. Infelizmente hei-de, por este andar, ver-te a deitar os bofes pela boca...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-3413358650380716003?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/3413358650380716003/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=3413358650380716003&amp;isPopup=true' title='26 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/3413358650380716003'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/3413358650380716003'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/12/uma-cadela-em-copenhaga.html' title='Uma cadela em Copenhaga'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>26</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-3865478791631762693</id><published>2009-12-11T16:30:00.000Z</published><updated>2009-12-11T16:34:40.122Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>De noite, mais cedo</title><content type='html'>Fica de noite mais cedo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E cada vez mais cedo entranho a noite que cai. Olho o Sol, rei mudo que nos ilumina, e vejo-o sempre a pôr-se na escuridão que me colhe. Ainda quando nasce é a escuridão que lhe sinto, a cada dia que passa inexorável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Invejo-lhe o percurso ilusório, silencioso e lânguido, como se o tempo não se lhe acabasse, como se a rua que palmilha existisse para sempre, a cada segundo a inércia que o impele à escuridão que me atormenta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vem-me o frio mais cedo, a solidão de cada passo sempre no mesmo sentido, o impulso cego para o beco escuro do vazio. O relógio não define o que o coração sente, dali não emana luz que acalente a minha ânsia. É a noite sombria que me espera para me entorpecer no sono a que sucumbo por fim, despojado de força anímica por outra vez. Num ininterrupto activar e desactivar a que me sujeito inutilmente, nesta noite entrecortada que chega sempre mais cedo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cubro-me com a manta, transpiro o desperdício a que me sabem essas horas. Esqueço-me por fim de mim. Um hiato basta para que desperte atento de novo ao percurso igual da luz que tudo aclara, e observo atentamente até à exaustão cada momento do seu percurso gigantesco que me volta a atrofiar. Manifestação rotineira a que não escapo, sinto-lhe de novo o bafo frio, ei-la que se renova sem demora, com pontualidade confrangedora. Mais um dia que se esfuma e me esborracha como um verme nesta noite temporã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na ausência do pequeno Sol que nos aquece, e que nos oculta a dimensão real do cadafalso, ela surge sempre negra, a noite, que é tudo o que há.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E é mais cedo que me chega, sempre. Não importa que voltas dê aos ponteiros enganadores do meu relógio. Como a sinto, silenciosa e fria...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-3865478791631762693?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/3865478791631762693/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=3865478791631762693&amp;isPopup=true' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/3865478791631762693'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/3865478791631762693'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/12/de-noite-mais-cedo.html' title='De noite, mais cedo'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-5715182086163029237</id><published>2009-11-30T16:20:00.001Z</published><updated>2009-11-30T16:28:15.940Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Um dia, hão-de ver!</title><content type='html'>&lt;p&gt;Um dia vou ter um blogue.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Uma dessas modernices, um blogue. Vou ter um, cheio de dia, cheio de vida. Vou contar todas as alegrias e tristezas, o cheiro do pão quente pela manhã, o telefonema que me irritou e que me deixou tão tenso que nem consegui comer a sopa que derramei sobre a roupa. Vou-me divertir à grande, aliviar a pressão dos dias que me ensombram. Vou colocar as fotos mais incríveis, com as festas mais vibrantes, vou fotografar os cães da rua e os pássaros nos beirais, ou as dicotomias que me apeteçam. Nunca mais hei-de passar indiferente, todos saberão onde estive e invejarão cada camisola que pus para lavar.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Vou cifrar todos os textos, para que os possa reivindicar sempre que mos roubem. O algoritmo complexo há-de prever que a combinação de certas sílabas se conjuguem numa frase que só eu conheça e possa apontar à prova; como viver sem propriedade privada?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E desengane-se quem pensar que um blogue vale por si. Não! É um pilar de apoio de uma vida, vazio se esta não tiver sentido, robusto se a vida for plena. Aliás, um blogue é como um filho, e há quem os troque, quem passe horas a escrever tonteiras e nem se recorde se beijou o filho ao chegar. Há quem durma com o blogue e esqueça o parceiro carente. Eles não esquecem, e hão-de amaldiçoar certo autor vezes sem conta até um dia.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E sempre se deixa um traço fugaz no mundo. Sim, porque afinal os filhos morrem, em incentivo da proliferação da espécie, talvez; preferencialmente depois dos pais, ainda assim... Como prolongar a nossa existência até que nada mais reste? Mais fácil de acarinhar, sem termos de lhe limpar o rabo, o ranho, nem dar dinheiro para que o gaste na primeira tolice mal parida que lhe passe pela testa, o blogue é tendencialmente eterno, quando nos vamos também ele fica; principalmente se não testarmos que o apaguem ou não deixarmos senha de acesso.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Nesse dia vou escrever com vontade. E será à séria, sem caixas de seguidores, sem comentários, sem contadores que me iludam. Que me interessa o que digam, quem diga, e quem cuspa? Em mim ninguém há-de! Vão lá comentar o demo que os pese... Será assim, sem chatice, ninguém me há-de deixar a pensar senão eu e o que eu queira.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E sonharei com encadernações bonitas para as minhas páginas... Para os meus meninos. E com vê-los somados em piras como que prontos para imolar, só por mim, que levarei a cabo o crematório para lançar segundas e terceiras edições que se lhes seguirão convulsas, e que só eu saberei ler. Mas serão meus, das minhas exclusivas tripas, sem mulher ou amante que inveje por ter de lhes chamar também seus.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Assim como este ou aquele, que conhecerão, de ler e chorar por mais ou menos, mas principalmente sem linhas de conveniência, nem ligações ou recomendações para algo nem alguém que se admire ou a quem se agradeça.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Deixar-me-ei de funambulismos, será tudo pela certa.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E será assim também, como hoje, cada momento como se fosse sempre o último.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;Será um dia, hão-de ver...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-5715182086163029237?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/5715182086163029237/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=5715182086163029237&amp;isPopup=true' title='18 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/5715182086163029237'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/5715182086163029237'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/11/um-dia-hao-de-ver.html' title='Um dia, hão-de ver!'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>18</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-8828186296284070081</id><published>2009-11-27T03:10:00.001Z</published><updated>2009-11-27T12:08:20.178Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Há datas que não se repetem</title><content type='html'>&lt;p&gt;Faz hoje uma data de anos. Foi a primeira chapada que apanhei. Foi a primeira vez que me separei de alguma coisa. Foi a primeira vez que houve uma primeira vez. E foi-o de facto para uma data de gente, expressão curiosa esta, porque de uma data se trata de facto.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Não fosse a data que hoje recordo e o mundo nunca teria tido esta data para mim; nem as outras. Não recordo o brilho da ria, nem se havia barcas e trombetas, nem se os anjos estavam tristes por uma alma cair do céu. Não recordo se o tipo que me bateu tinha óculos, não recordo gritos de dor, nem manchas na brancura do linho, nem lágrimas de alegria. Calculo que me deram banho, calculo que alguém terá ficado feliz, eu não.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mas que importava a minha felicidade?... Ouvi dizer que foi importante para alguns, pelo menos naquela altura. Sei que sim, porque já fui feliz num dia como esse, a bom rigor em contraponto à felicidade do visado.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Não sei se ela lhe tinha arrancado os botões da farda, nem se ele lhe tinha corrompido a &lt;em&gt;lingerie&lt;/em&gt;. Sei que pelo menos num dia ele não me condenou à latrina, e ela não disse que lhe doía a cabeça. Deviam ser belos, os jovens são sempre belos, e gostaria de pensar que estavam apaixonados. Talvez ela tivesse chorado, e aquela fosse a forma que encontraram para vencer a tormenta e dar corda a um futuro; talvez se tenham envolvido e revolvido em seguida e pensado que o futuro era afinal uma piada de mau gosto. Nunca o saberei. Mas sei que aquele gesto, que o tempo felizmente não me mostrou, teve consequências que eles não poderiam prever naquela altura. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Também gostaria que tivesse sido um anjo a perder-me por anos a fio, mas pode ter sido um demónio. Não tenho pressa em descobrir, mas calculo que um dia voltarei para preencher esse vazio. Até lá não tenciono preocupar-me com a tristeza que um ou outro possam estar a sentir, apenas me palpita que voltarei; um ou outro, talvez fique feliz por me tornar a ver. Não tenho vontade de contar por onde andei, hoje ainda não.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Lamento se fui objecto de uma troca celeste e se algum apanhou com os torrões mais cedo por minha causa. Depois do mal feito já não há remédio. Hoje alguns, algures, estarão a berrar como eu berrei e algumas senhoras que terão arrancado os botões da farda aos maridos há nove meses, ou a quem estes tenham rasgado as calcinhas num gesto de carinho, estarão a sofrer uma alegria igual à que aqueles dois sentiram, resta-me desejar a esses novatos que tenham menos desgostos, que serão outros, que sejam menos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Pela primeira vez aquele gesto longínquo aparece referido, preto no branco, culpem-nos a eles, não a mim. São esses desconhecidos os únicos responsáveis por esta leitura. Esse será para mim o único facto digno de nota.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Que eu já o sabia, a novidade, essa é toda vossa.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;© CybeRider - 2009&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-8828186296284070081?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/8828186296284070081/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=8828186296284070081&amp;isPopup=true' title='16 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/8828186296284070081'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/8828186296284070081'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/11/ha-datas-que-nao-se-repetem.html' title='Há datas que não se repetem'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>16</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-7980634735175896861</id><published>2009-11-21T00:40:00.000Z</published><updated>2009-11-21T00:40:00.079Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Selvagem por um dia</title><content type='html'>Sinto o animal que me agasalha, tolhe-me a memória, invoca os instintos e esqueço tudo o que aprendi para passar a perscrutar a selva à minha volta. O rio porém meteu toda a água na mala e partiu para parte incerta, levou com ele a chuva que nunca mais voltou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na estepe árida procuro o abrigo onde passe a noite, sempre longa, tão longa que hei-de escrever sobre isso, se a memória não me falhar. É o sangue que me domina, o faro apurado que me instiga a prosseguir entre a vegetação moribunda, os pequenos troncos secos que afasto já sem sentir os pequenos golpes que retalham a pele. O vento em fuga constante ressalta nas folhas secas e leva algumas com ele, com um ruído em surdina. Não me lembro do vento, nem das folhas. Já esqueço o rio, que talvez nunca tenha visto. Só o presente é intenso. Esqueci os nomes dos outros... Há uma cara ou outra que ainda recordo, por pouco tempo. Tão pouco que quero guardá-las para sempre, e troco as datas sem saber quando celebrarei outro aniversário. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As maneiras que tive já não as pratico, deixei a etiqueta e os modos. Agora é tudo em bruto, sem medo e sem trégua. Não me confrontem no meu meio, serei vencedor. Aqui terá de ser segundo as minhas regras! Paz, nunca mais, aqui não. Talvez algures, se esse sítio existir. Já não me lembro. Perdi a História e todas as histórias que me contaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda saberei amar pai e mãe?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinto porém o apelo do clã, desses recordo e acalento o cheiro e a vontade de proteger e partilhar. Só desses. A memória que não me lembro de ter tido, essa pressinto que partiu; os nomes; as caras; as datas; os locais... Nem me lembro se tenho ouvidos, se algum dia ouvi algo do que me dissessem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que outra fogueira arde para além da que queima no peito?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há-de haver quem não sinta o cheiro a doce da toca. Há-de haver quem não sinta o sabor a sangue das feridas, que estraçalham a alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que havia sonhos, futuro, esperança. Se ao menos me lembrasse onde os enterrei. Sem rio não tenho norte, resta-me deitar-me no leito e revolver os torrões. Não me lembro da última vez que sonhei. O instinto há-de guiar-me ao covil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que bem me sabe esta maçã. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há retorno porque perdi as memórias. Selvagem por um dia, selvagem para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-7980634735175896861?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/7980634735175896861/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=7980634735175896861&amp;isPopup=true' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/7980634735175896861'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/7980634735175896861'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/11/selvagem-por-um-dia.html' title='Selvagem por um dia'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-3225440618737818155</id><published>2009-11-13T13:50:00.006Z</published><updated>2009-11-13T17:32:38.122Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>D. Quixote de lata</title><content type='html'>&lt;p&gt;Miro a paisagem desmontado do meu Rocinante de lata.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Não fora o penico de plástico na cabeça e ninguém diria a loucura que me invade as entranhas. Queria uma bacia de barbeiro, mas já não havia. Não faz mal, este apetrecho serve o propósito. Imagino-me majestático, imponente. Passam-me pela ideia os momentos mais felizes, aqueles em que a lata da minha armadura brilhante, que era brilhante então, não estava suja e amolgada como agora, não...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Ah, Dulcineia... Lembras-te? Como tudo era fácil... Não haveria moinho de vento que me fizesse frente. No entanto, só tu me compreendias.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Para o resto do mundo eu era apenas um visionário insolente. Alguns achavam alguma piada e juntavam-se ao meu séquito, outros nenhuma e combatiam-me com tenacidade.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O que me vai faltando é a lata. Falta-me a lata para pedinchar favores, falta-me a lata para corromper ideias obtusas e abafar as línguas viperinas que tartamudeiam à minha volta. Falta-me a lata para ferir susceptibilidades de quem se arroga o direito de me tentar profanar princípios e exigir que inexplicavelmente os pretira. Sem lata para ripostar acato desacatos que nunca aceitaria na temeridade da minha sã loucura. Tendencialmente espero que o Sancho Pança me resolva os problemas, ele com o seu pragmatismo e boçalidade. Esqueço voluntariamente que um mero escudeiro nem saberá o que está em risco.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Vejo-me a forjar uma pretensa timidez absurda, com a habilidade exímia com que forjei a armadura brilhante que um dia enverguei e parti para o desconhecido.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Lata não me faltou então, para conquistar o meu parco território, tampouco para me declarar à Dulcineia, que me aceitou a triste figura. A minha armadura sobreviveu tantas pelejas, removi-lhe o pó de cada refega tanta vez... Agora já não. E desiludo-me ao ver no meu reflexo a pálida sombra do guerreiro audaz, que nunca prestou vassalagem para conseguir os seus intentos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;De armadura velha e oxidada, descubro as cãs e olho o horizonte. Sem lata que me proteja fico indefeso, de penico de plástico na mão.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;© CybeRider - 2009&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-3225440618737818155?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/3225440618737818155/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=3225440618737818155&amp;isPopup=true' title='17 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/3225440618737818155'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/3225440618737818155'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/11/d-quixote-de-lata.html' title='D. Quixote de lata'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>17</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-7396527641765092321</id><published>2009-11-08T20:10:00.005Z</published><updated>2009-11-09T00:47:19.045Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Hiperglicémico</title><content type='html'>&lt;p&gt;Cirando por um mundo de feira.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Pessoas de massapão, cães de alcaçuz, gatos de caramelo, pássaros de chocolate.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Os bebés são de &lt;em&gt;marshmallow&lt;/em&gt;, têm de ser! Toda aquela fofura, e a tonalidade rósea da pele... Os de chocolate também são deliciosos, e mais fáceis de definir: perguntei a um dos putos doces da rua que nome dava aos &lt;em&gt;marshmallows&lt;/em&gt;, ele disse que eram "borrachas"...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Borrachas não é o mesmo. De látex serão aquelas bonecas para adultos, curvilíneas, que se passeiam provocantes e desejáveis. Mas a essas chamam-lhes "borrachos", e vou-me perdendo em conceitos, porque me parecem doces também.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Atravesso a faixa de tarte de alfarroba. As viaturas de rebuçado multicolor interrompem a marcha e deixam-me atravessar pelo tracejado de açúcar em pó. À minha volta o pão-de-ló gigante toma a forma de edifícios decorados na base por troncos de chocolate apetitoso encimados por fios de ovos dourados, nestas tardes de Outono.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O mar de granizado azul estende-se a perder de vista, a enorme rodela de laranja parece brilhar intensa e soberana a enfeitar-lhe a orla ao fim da tarde; como num coquetel requintado, onde os montes que sobressaem são pedaços de frutas saborosas embebidos na delícia, serpenteados por traços de licor de ginja. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Vejo alguns cumes cobertos de creme&lt;em&gt; chantilly&lt;/em&gt; delicado, que parece escorrer para os vales polvilhados de polígonos de compota de tomate, atravessados por linhas de gelatina verde prontas a juntar-se ao doce oceano.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Saltito por entre as poças de açúcar em ponto pérola que caiu do algodão-doce espesso que pairou sobre a cidade de manhã.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Chego a casa, abro a porta de morgado de amêndoa, tenho a roupa embebida em melaço. Que bem me vai saber o duche, abro a torneira que jorra a magnífica calda de pêssego. Não há senão doçura no mundo que vejo e que me proponho saborear.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;São as atitudes dos diabéticos, que ao deturpar a culinária, adulteram a confeitaria e tolhem os pasteleiros .&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;© CybeRider - 2009&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-7396527641765092321?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/7396527641765092321/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=7396527641765092321&amp;isPopup=true' title='15 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/7396527641765092321'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/7396527641765092321'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/11/hiperglicemico.html' title='Hiperglicémico'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>15</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-846967745876146317</id><published>2009-10-27T20:55:00.001Z</published><updated>2009-10-27T22:14:57.841Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Um jardim no paraíso</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;Quem quer saber sobre o jardim onde passeio?&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Já vos falei da rapariga do fato de treino rosa? Sim, bem me parecia… Mas não vos falei do coreto, nem do rio maravilhoso que se avista cheio de barquinhos de papel, ou não, talvez papel ainda grosso em toros de madeira bruta, a aguardar que a imaginação os lamine. Só vendo de mais perto.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;O laguinho com peixes dourados e cágados; pois, com acento, para acentuar a diferença. Os cágados, assim acentuados, são pequenas tartarugas que espreitam entre os nenúfares e que se escondem de timidez ao menor movimento. Quando a água do lago está limpa pode-se vê-los a desaparecer num nadar bamboleante para se esconderem nas rochas do fundo, perante a indiferença dos grandes peixes dourados. A água filtra a imagem dando-nos a sensação de que tudo é bem maior. Os grandes peixes são afinal bastante mais pequenos, mas como poderei explicar de que tamanho são os peixes? Digamos que ficariam mal num tacho de caldeirada mas preencheriam a rigor uma caixa de filetes enlatados, tirando a cabeça e as barbatanas, seria isso.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Ainda sou do tempo… Que sou, de facto. De todos os tempos, mas recordo quando o coreto se enchia de musica e &lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt; &lt;/span&gt;a turba se acotovelava, adomingada, para escutar as melodias fanhosas que emanavam dos metais. Não me consta que os peixes ou os cágados, assim com acento pois claro, espreitassem entre os nenúfares. Só nós, ficávamos ali impávidos a olhar, com as cabeças de fora, sem chegarmos às copas das frondosas árvores que sombreavam a calçada e as flores surdas.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Não vos falei das fieiras de casinhas brancas, oitocentistas com telhados de quatro águas, que circundam o jardim, nem da forma intensa como a sua cor branca salteada de amarelo tende a subverter o anil da água do rio que ali já é do mar. Nem dos cães, nem das aves que pousam nas tais árvores de copas inalcançáveis, que subvertem o passeio e os fatos imaculados dos que escutam a banda do coreto; os cágados, assim com acento, ficam serenos perante os cágados sem assento, que a pé se besuntam com os dejectos dos cães, vadios mas gentis e independentes, e se maculam pelas aves que os escolhem à minúcia para lhes tingir as vestes. Nem dos assentos raros, onde as mães trocam as fraldas, sujas sem acento, dos bebés que choram a reclamar do tal som fanhoso que emana dos tais metais, nem do exalado aroma, imperceptível pelo perfume que paira das corolas expostas aos domingos de Primavera.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Hoje passei pelo jardim onde o coreto alimenta as pequenas ervas que brotam do lajedo onde os sapatos dos músicos costumavam marcar o compasso. Não há peixes no laguinho, foram substituídos por pacotes de tons metálicos, já sem batatas. Os cágados teriam assento, porque ninguém se senta nos banquinhos do jardim. E o aroma é do peixe grelhado.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;À porta do restaurante daquela rua antiga vejo-as a grelhar, as sardinhas gordas que encheriam uma lata, sem a cabeça nem as barbatanas. E fico a pensar se não serão afinal aquelas sardinhas douradas os peixinhos que me levaram do laguinho do meu jardim. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;  &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;© CybeRider - 2009&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-846967745876146317?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/846967745876146317/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=846967745876146317&amp;isPopup=true' title='18 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/846967745876146317'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/846967745876146317'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/10/um-jardim-no-paraiso.html' title='Um jardim no paraíso'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>18</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-764289685797172274</id><published>2009-10-21T13:52:00.003+01:00</published><updated>2009-10-21T14:00:03.927+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Quando a fama me vem de longe</title><content type='html'>Maria Madalena tinha reputação de rameira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não é fácil manter uma reputação por dois mil anos. Ao fim desse tempo começou a ter a fama de ser companheira de Cristo, o grande pensador, que reuniu a seu lado doze discípulos, os iluminados que o ouviam atentamente nas divagações, em desprestígio dos iletrados que constituam mero comprovativo de popularidade. Filho de um humilde carpinteiro, não terá também sido fácil ao pai vê-lo deambular pelas ruas, ser perseguido pelas suas ideias que, segundo os relatos, pregava e que também a ele valeram uma reputação, com seguidores até aos nossos dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não é de fé que hoje falo. É a reputação em si que me interessa. De onde nos vem a fama imprevista? Que motivos nos levam a pretender manter uma reputação para além das nossas convicções?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quantas vezes as nossas atitudes mal interpretadas nos designam consequências que nunca pensámos carregar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se não me espanta que nos queiramos livrar de certa mácula que passou a público no nosso passado, já me espanta que recorramos a uma pretensa reputação que defendemos para não aderir ao apoio de alguma ideia válida à qual, não fora a reputação, aderiríamos sem hesitar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O conceito de reputação é ambivalente. Se nos desconcerta quando nos mancha a imagem por ser falsamente acusatória de algo indigno, por outro lado pode ser um trunfo a exibir se for falsa mas abonatória de qualidades que nem temos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A reputação é o juízo que fazem do que somos. Como tal, sempre imperfeito. Apesar disso, insistimos em defender a que supomos ser boa, aquela que nos abre as portas de certo clube a que desejamos pertencer, mas que não nos aceitaria pelo que somos, apenas pelo que parecemos ser. Por este facto nego-me a aceitar qualquer tipo de reputação como ferramenta. Ainda quando me abrem portas por pretensa reputação, teimo em apresentar provas de que encaixo no convite. Este simples facto deixa-me liberdade para aderir a tudo o que pretenda e conviver com quem queira, sem receio de ferir susceptibilidades. Não sou eu que tenho de me cercear para que o clube me aceite. É o clube que tem de me aceitar exactamente como sou, se assim não for não me serve, sem que sequer questione se servirei eu ao tal clube.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na diluição social a que a complexidade da vida nos remete, somos levados a puxar de galões virtuais para nos defendermos do desconhecido. Se sempre me baterei pela defesa das injustiças que me cometam, não me revejo numa realidade em que me tenha de suster num conceito ambíguo e falacioso para justificar as minhas convicções, no intuito de daí obter dividendos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não pretendo contribuir para a elaboração de algum tipo de reputação digna. Ainda que seja um perfeito canalha, sê-lo-ei seguindo os meus próprios princípios. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-764289685797172274?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/764289685797172274/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=764289685797172274&amp;isPopup=true' title='23 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/764289685797172274'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/764289685797172274'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/10/quando-fama-me-vem-de-longe.html' title='Quando a fama me vem de longe'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>23</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-2849547982220418784</id><published>2009-10-13T18:30:00.003+01:00</published><updated>2010-01-02T02:35:30.484Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Os contos sem dono</title><content type='html'>Ao olhar para o que escrevi no passado, compreendo que nunca podemos saber até que ponto o que registamos num momento vai, se é que vai, tocar alguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho para aquilo e parece que foi escrito por outrem. Muitos dos conceitos que afagavam as palavras sei que os perdi, talvez para sempre. Falta-lhes a envolvência com o meu âmago, que talvez só exista no preciso momento em que exponho o que me vai na alma. E no entanto a caligrafia é minha, o caderno também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E fico a cismar se não terei sido de facto outra pessoa, de que já não recordo a essência, mas que deixou coisas escritas, para eu ler. Talvez numa época antiga em que sei que estive, porém com méritos e fraquezas que entretanto perdi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Demoro a convencer-me. De repente, compreendo que não sou o meu autor favorito e perco alguma confiança na minha habilidade. Nunca poderei voltar a escrever daquela maneira, as ideias, algumas aparentemente fantásticas, que volto a abraçar com um sorriso. Perderam a força genética para sempre, já não chegam de fio a pavio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comprovo que ganhei experiência, mas verifico que perdi qualidades. Este reconhecimento assusta, porque lhe sinto a irreversibilidade. Perdi muito do brilho aventureiro e vanguardista que encobria o temor de inovar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algumas ideias atemorizam-me ainda por já não ter memória daquele vilão. Outras apaixonam-me e fazem-me querer conhecer a alma por detrás do pensamento, mas já não a encontro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensamentos que escrevi, contos que imaginei, soltaram-se da minha alçada e partiram para um horizonte a perder de vista. É como se ficassem para ali, sem dono. Até que me reconquistem o coração e os volte a chamar meus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por vezes as coisas resultam mesmo assim. Não lhes falta o fundamental. Mesmo algumas ideias conexas surgem renascidas, outras não. Extraem-se novas interpretações, novas críticas, novas paisagens. As cores, sendo outras, estão lá, mas o quadro já não é o mesmo, e não mudou apenas a moldura... É o enquadramento da obra, e as personagens, sempre dinâmicas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É como rever um filme de que se gosta, uma e outra vez. Nunca se vê o mesmo filme da mesma maneira, nem quando já se conhecem os diálogos de cor. Há sempre um pormenor que surge, em que não tínhamos reparado. Os filmes de que não gostamos é que é pior, mesmo assim só me recordo de ter abandonado uma sala uma vez. Esforço-me. Nem sempre consigo, mas esforço-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há vezes em que reconheço a pouca qualidade do que realizei. Noutras acabo por encontrar ali qualidades que desconheço. Raramente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nestes devaneios sou levado a pensar que não haverá talvez maior injúria para o criador que a crítica pelo infinitésimo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Custa-me olhar para uma pintura, e aqui o abstracto ou não é logo por si muito relativo, e dizer apenas que tem umas belas cores. Haverá algo mais redutor?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou admirar uma fotografia e dizer simplesmente que tem uma boa escolha de tons, um belo contraste. Sou até capaz de o ter feito. Talvez quando não conheço o autor e não apreendo a ideia à primeira. Depois disso não. Por uma questão de respeito prefiro ultrapassar essa fase e tentar compreender a ideia para além da imagem. Ligá-la pelo menos ao meu mundo, e dizer de que forma me toca. Ou apreender algo de novo, se possível. Se não tenho tempo ou imaginação para ver mais que o imediato, mais vale ficar calado que tratar o artista como se fosse aprendiz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que a experiência do fotógrafo, do escritor, do pintor, do músico, devem ser garantias de que a técnica não é o fundamental, antes o resultado. O maior ou menor cuidado na técnica dependem do perfeccionismo de cada um, e podem obviamente restringir muito esse resultado final. No entanto não deve ser a crítica a esses pormenores que o artista espera ao expor a sua obra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se sorrio porque alguém disse que escrevi bem. Sou muito capaz de chorar de alegria se compreenderam o que quis dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afirmo-o num libertino e egoísta tom de alerta. Revejo-me em muita crítica minimalista. Mas todos estamos no mundo atentos a reacções. Assim, faço-me rir ou faço-me chorar. Quando escrevo nunca me sou indiferente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E sei que haverá quem se surpreenda com isto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a obra vale por si. Se não me compreendo hoje, quem sabe, talvez amanhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-2849547982220418784?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/2849547982220418784/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=2849547982220418784&amp;isPopup=true' title='16 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/2849547982220418784'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/2849547982220418784'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/10/os-contos-sem-dono.html' title='Os contos sem dono'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>16</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-8606100629342739581</id><published>2009-10-06T23:25:00.000+01:00</published><updated>2009-10-06T23:30:06.710+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Anatomia do beijo</title><content type='html'>Há os húmidos; os secos; os repenicados; os apaixonados, os que gostariam de o ser; os de carinho; os respeitosos; os consoladores; os terapêuticos; os indecorosos; os consentidos; os fingidos; os repudiados; os roubados; os glamorosos; os decadentes...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tantos... E tão poucos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se o sentido que têm pode ser vasto, a forma não o será menos. Se os lábios põem na prática o que a mente já arquitectou, muitas vezes é a língua que lhes dá o vigor para iniciar a orquestra dos sentidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas isso já sabem... Já todos sabem. Porque hei-de vir aqui perder-me em conceitos que toda a gente conhece?... Que asco!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah! Há os que doem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que os há! Já ouvi dizer. Há os que sabemos derradeiros, de alguém que parte para sempre, por vezes até para melhor. Partir para melhor... Esta expressão que me causa estranheza. Como se ao quebrar a loiça lhe amplificasse a qualidade. E, no entanto, às vezes que bem sabe!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os que dão nos mortos? É estranho que se beijem os mortos... É um beijo para nosso consolo, que eles não sentem... E apesar disso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas adiante, que são os vivos que escrevem História.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como é o último beijo de quem se separa para sempre, depois de uma relação profunda e cúmplice. Falo daquelas verdadeiras; que sensação vibra em quem sabe que aquele é o último? Quantas vezes de alívio, outras tantas de receio. E pensa-se nisso? Pensa-se que será "aquele" "o último"?... Melhor quem não saiba, diria eu; se soubesse...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que, por grande que seja o alívio, terá de doer um pouco; pelo que não se construiu mas que comprovadamente se destrói. E vem aquela réstia que nos cheira a liberdade. "Finalmente só". Só, inseguro; carente; às vezes. Perdido, mais vezes; diria eu, como disse que diria outras coisas, que afinal não sei. Mas outras vezes apenas saciado, sem vontade de mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E que "saciado" pode ser menos que "carente" também não sei. Mas disse-o, se o disse é porque o penso, se o penso é porque o acho. Acho... Um tesouro, mais um. Escondido... Penso... Num beijo; que nunca se chegará a dar, aquele que ficará para sempre pendente, depois do derradeiro. Aquele que esperámos repetir um dia mas que se afundou na esperança. A esperança, essa tal que morre, também ela, sempre solitária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E dói, mais que nenhum, o beijo do nosso filho; o que aquela senhora bem vestida limpa da face com o pequeno toalhete, sem notar que reparamos... E esse, sei que dói. E talvez doa como nenhum outro. E há-de doer para sempre, porque não lhe é avó mas me é madrasta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E porque a vingança se apura em tacho frio, ou num mero beijo que se não dá... Há mortos que nunca hei-de beijar; porque não podem limpar, depois, o meu beijo da face pútrida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-8606100629342739581?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/8606100629342739581/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=8606100629342739581&amp;isPopup=true' title='26 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/8606100629342739581'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/8606100629342739581'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/10/anatomia-do-beijo.html' title='Anatomia do beijo'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>26</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-7523069751188170486</id><published>2009-10-02T11:45:00.001+01:00</published><updated>2009-10-02T11:58:27.363+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Alma de campeão</title><content type='html'>É raro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Melhor... É muito raro ver alguém fazer peito à violência, que grassa, com atitudes de bravura individual. Vemos sim todos a escudar-se institucionalmente, mas a assumir exemplos de clara fraqueza na situação concreta, algumas vezes com razoabilidade mas em muitos momentos nem por isso, com que se deparam no dia-a-dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não falo do confronto com meliantes, mas mesmo de atitudes mais mundanas, e principalmente da violência psicológica que nos asfixia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é necessário medirmo-nos à pancada. É mesmo da postura que não se assume que falo, e que consequentemente nos enfraquece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesta mariquice em que se vai tornando a vida colectiva, no super proteccionismo que procuramos de um Estado que não nos conhece mas que queremos, a saber porquê, uma mãe; na timidez que se assume como norma quando é preciso intervir, devíamos apelar mais ao nosso lado biológico de animais com capacidades de defesa, que ainda existam intrínsecas ao nosso ser, e que deveriam estar aptas a surgir quando as institucionais falhassem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não somos decerto super-heróis, mas ajudava lembrarmo-nos de que a forma física não devia servir só para cultivar aparência. Deveríamos estar aptos a mostrar que não somos lesmas indefesas prontas a que nos esmaguem com o sapato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A falta de atitude interventiva torna-nos na vítima potencial, pronta a ser predada pelas feras argutas, e mesmo pelas acéfalas. Não cultivamos a aura que as faria olhar-nos de soslaio e temer pelas consequências de nos obstruírem o caminho. Assim somos como meras ovelhas indefesas face à matilha de lobos, em que só o número de potenciais vítimas no rebanho as pode salvar; pelo facto de, na escolha dos lobos, a sorte caber a algumas em detrimento de alguma sua irmã que será devorada. Esta forma de defesa não é digna de quem se encontra no topo da cadeia alimentar. Envergonha-nos na biologia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tivéssemos algum brio, não na imagem mas na essência, e haveria menos barrigudos. Fisicamente mais aptos ficaríamos mentalmente mais sãos. Consequentemente mais auto confiantes, em sequência mais altruístas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não estamos apenas a engordar fisicamente. É também a gordura moral que nos vai tolhendo os movimentos, roubando aos poucos a agilidade mental que nos tornaria mais aptos a colher direitos e mais prontos a executar deveres. E tantas vezes vemos direitos a ser exigidos sem que se pense na contrapartida...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a tenacidade? Pelo contrário! Quebramos à mais pequena adversidade. Sem capacidade argumentativa para ripostar à altura, principalmente por falta de robustez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mimados, é o que estamos. Pensamos que merecemos um doce só porque pretensamente nos portamos bem. Mas os lobos crescem em tamanho e em número, e levam-nos a razão, os direitos e o prémio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Devíamos ter um bocadinho mais de alma de campeão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-7523069751188170486?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/7523069751188170486/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=7523069751188170486&amp;isPopup=true' title='18 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/7523069751188170486'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/7523069751188170486'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/10/alma-de-campeao.html' title='Alma de campeão'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>18</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-4254478093555438230</id><published>2009-09-27T23:50:00.008+01:00</published><updated>2009-09-28T13:04:04.198+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Com dedicatória'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poesia'/><title type='text'>Pequeno e Imprevisto</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Este exercício é resposta &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;a href="http://blogue-do-ogre.blogspot.com/2009/09/com-campanha-terminar.html"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;daqui&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Neste belo mas aziago dia&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Havia por cá eleições&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Eu, apesar de incauto sabia&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Que em defesa da democracia&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Se iriam mover multidões.&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;O que das sondagens se previa&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Que o poder absoluto findasse&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Trazia dois grandes em agonia&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Mas não me causava fobia&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Que o meu voto não aplacasse.&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Para escolher quem ganharia&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Vieram da cidade e das hortas&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;E eu apostava a lotaria&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Que iriam fazer porcaria&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Mas nunca que ganhasse o Portas.&lt;/div&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009 &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-4254478093555438230?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/4254478093555438230'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/4254478093555438230'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/09/imprevisto.html' title='Pequeno e Imprevisto'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-2744164454412453784</id><published>2009-09-27T13:15:00.005+01:00</published><updated>2009-09-27T19:32:16.735+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Enfarruscado</title><content type='html'>Acordei noutra dimensão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estendi o braço para puxar o cartão e os jornais que me aqueceram pela noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sete da manhã, pelo relógio da torre. Se é que ele sobreviveu a outra noite, ou talvez esteja a dormir, como eu deveria estar… Para sempre. Chamei o Bartolomeu, que me tem acompanhado nestes derradeiros dias de exílio. Não o encontro... Chamei de novo… Ah! Lá vem ele, a abanar a cauda… Afago-lhe a cabeçorra sorridente, de língua de fora... "Só tu para te rires, meu amigo...".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jardim está todo lá. E a rapariga do fato de treino rosa, já corre por ali, junto ao canteiro das hortênsias, de auscultadores nos ouvidos. Nunca me viu, como ninguém me vê... A rega não está ligada… Dirijo-me a ela, passo-lhe a três, quatro metros, a contravento, não quero que me sinta o cheiro nauseabundo, que só eu já não sinto. Tomo o meu pequeno-almoço: o cheiro inebriante que ela exala, vai-me durar para uma boa hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há muito que ninguém sorri para mim. Só o Bartolomeu, "não é, meu velho?..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordar noutra dimensão pode trazer-nos dissabores. Começo a achar que também este dia me vai correr mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho para as minhas mãos. A pele grossa e suja, as unhas partidas de sabugos negros. Podia ir ao mar, mas não quero que pensem que o Adamastor se ergue das ondas. E se fico pior da tosse?... O desalento é grande, arrasto-me pelo passeio, sujo como eu. Condizemos, e o Bartolomeu não se importa. Apanho a beata quase inteira que alguém deixou ali para mim, à porta de um táxi que partiu. É fácil encontrar tudo nesta natureza. Onde tenho o isqueiro?... Revolvo os bolsos. Neste não, que já estava roto, tem de estar neste... Ahhhh! A primeira passa estremece-me de prazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preparo-me para a aventura. O jardim ainda cheira a manhã. Vou ao lixo, passo sempre cedo, porque as coisas grandes são deixadas durante a noite, para que ninguém encontre quem as abandona. O sofá, a mesa, o rádio que funciona quando encontro pilhas, apanhei-os todos assim. A comida é junto ao hipermercado, às duas da manhã. Aí chegamos quase a andar à pancada... Que tenho o meu orgulho, não vou à "sopa dos pobres", esses são os que não têm espírito de aventura, eu sou um sobrevivente. Também não quero ser "inserido", antes que me esqueçam, quero perder os números que já me ligaram à sociedade, há muitos anos, e o nome. Que me esqueçam, para sempre! Moradas... Sim, essas tenho-as todas, cada rua e avenida, cada praceta, rotunda ou cais, todos meus sem que eles saibam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No desperdício valorizo os medicamentos... Hoje não há.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olha... Uma bicicleta! Que aconteceu?... Começo a pensar que me estão a pregar alguma partida. Olho à minha volta, mas não vejo ninguém que pudesse querer rir-se de mim. Hoje não. Só vejo os que não me conseguem ver, do costume. Não me recordo de alguma vez ter tido uma bicicleta só minha... Ena! Tem mudanças!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há-de haver uma explicação para tudo isto, penso; enquanto vou pedalando rua abaixo até ao quiosque dos jornais. Podia ter sido pior, nem os pneus estavam muito vazios. Há-de haver uma explicação... Logo estarei de volta, ao padrão que tão bem conheço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho de encontrar o Chico, troco-lhe isto por um maço de cigarros e o gajo vende a bicicleta e compra uma ganza. O gajo consegue vender tudo por causa da droga, a necessidade dá-lhe a astúcia. Já eu, não tenho necessidades. Além disso, com a bicicleta, o desgraçado do Bartolomeu esfalfa-se para me apanhar. Outros me seguiram, o Acácio, o Manuel, a Catarina, a Júlia... Só o Bartolomeu responde pelo nome que lhe dei. Os outros partiram, fartos da minha vida podre. Como a família, esses malandros que se me desapareceram para a solidão. Não guardei as moradas nem os telefones, da família; que os cães, esses nunca foram meus, os nomes que lhes dou fazem-nos ser da minha trupe. Os da família querem-me menos que estes soberbos que passam; que nem me acotovelam pelo temor que lhes causo, e para quem um metro de distância me torna transparente. Pensam que não tenho escrúpulos, nem sentimentos. Que sabem eles de mim, se nem me vêem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que fome...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah... Um jornal de ontem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Separo as folhas. Quase nem reparava, no nome igual ao meu, ali, em letras garrafais. Hum... Este teve problemas com os negócios... Pois, a fábrica... Coitadinho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não devia ler jornais. Fazem-me reviver um mundo que já vou esquecendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pior que acordar rico no dia em que se perdeu tudo, será acordar com pouco ou nada para perder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amanhã... Amanhã, não quero recomeçar, outra vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-2744164454412453784?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/2744164454412453784/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=2744164454412453784&amp;isPopup=true' title='18 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/2744164454412453784'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/2744164454412453784'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/09/enfarruscado.html' title='Enfarruscado'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>18</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-2946529719889829015</id><published>2009-09-23T23:23:00.002+01:00</published><updated>2009-09-23T23:34:22.848+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Resplandecente</title><content type='html'>Acordei noutra dimensão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estendi a mão para a campainha para pedir o pequeno-almoço. Não estava lá, a campainha… Estranho… Ia jurar que…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chamei o Bartolomeu, o meu fiel mordomo, que me recebe sempre com o meu roupão nas mãos prestáveis, aquele que costumo vestir enquanto vou até ao corredor apanhar os jornais que o Manuel, o meu motorista, costuma trazer logo cedo. Chamei de novo… Nada…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espreitei pela janela. O jardim está todo lá. Estranho não ver o Acácio no canteiro das hortênsias.  A rega não está ligada…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dirijo-me à cozinha, por esta altura devia sentir no ar o cheiro das torradas, afinal já acordei há uns bons quinze minutos. A Catarina recebe-me sempre com um sorriso maravilhoso, e a Júlia é uma cozinheira fantástica. Mas hoje a Catarina e a Júlia também não estão ali. Que se passa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordar noutra dimensão pode trazer-nos dissabores. Começo a achar que o dia me vai correr mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho para as minhas mãos. A pele está fina, as unhas brilham do verniz de ontem. Vou até ao duche, já que o dia vai ser diferente, preparo-me para a aventura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A água quase fria sabe muito bem. Visto-me, ainda a pensar que o Bartolomeu tem sempre uma boa sugestão para me adequar as vestimentas e os atavios ao estado do tempo. Assim tenho de ter cuidado para não trocar os pares de meias, nem os sapatos. Será que esta camisa me condiz com este par de calças? Olho-me ao espelho. Pareço-me bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saio. O jardim ainda cheira a manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou à porta da garagem entreaberta. O Manuel também não está. Que aconteceu?... Começo a pensar que o Bartolomeu, o Manuel, o Acácio, a Júlia e a Catarina me estão a pregar alguma partida. Só tenho ali um carro que nem sabia que era meu. Que coisa… Começo a suspeitar que vamos ter problemas… Não me recordo de alguma vez me ter sentado num meio de transporte tão desadequado… O quê?... Não encontro o botão do ar condicionado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há-de haver uma explicação para tudo isto, penso enquanto vou conduzindo rua abaixo até ao quiosque dos jornais. Troco as moedas pelo jornal. Sento-me na cafetaria e peço. O pequeno-almoço, por fim; não das mãos da gentil Catarina, que me saberia melhor, bem melhor… Podia ter sido pior. Podia ter acordado cego pelo brilho do ouro. Que faria sem os meus serviçais?... Há-de haver uma explicação. Logo estarei de volta, ao padrão que tão bem conheço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desfolho o jornal. Quase nem reparava, no nome igual ao meu, ali, em letras garrafais. Algo aconteceu com a fábrica. E com as acções… Assembleia de credores…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém me ligou pelo telefone. Não liguei o televisor… Os meus assessores não me informaram. Demitem-se ou despeço-os?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é bom acordar rico no dia em que se perdeu tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amanhã recomeço outra vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-2946529719889829015?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/2946529719889829015/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=2946529719889829015&amp;isPopup=true' title='24 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/2946529719889829015'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/2946529719889829015'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/09/resplandecente.html' title='Resplandecente'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>24</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-4497111349695884730</id><published>2009-09-18T17:00:00.001+01:00</published><updated>2010-01-02T02:50:06.990Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Nem por acaso...</title><content type='html'>Desdobrei o mapa sobre a mesa ampla.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fechei os olhos. Estiquei o braço e deixei que o acaso escolhesse o meu destino. Passar da ideia à acção não foi obra do acaso. Chegar lá inteiro talvez fosse. Olhei o mar, companheiro de uma vida. Também ele sempre igual a si mesmo, indiferente aos acréscimos dos homens, que lhe são vil natureza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A manhã calma propiciou o passeio pela marginal, solitária ainda. Apanhei o pequeno papel. Os pássaros murmuraram-me algo imperceptível. Era um pequeno talão onde a esperança de alguém parou por momentos, na escolha de cinco números e duas estrelas. Estava válido ainda. Não fosse o acaso e teria sido uma esperança em vão. Guardei-o na algibeira com a noção de que talvez o fado me quisesse murmurar algo, assim como os pássaros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentei que o destino dos meus olhos vagueasse ao acaso. Não é um exercício fácil, parecemos direccionar os sentidos para as coisas que nos interessam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As flores do jardim emanavam o aroma da frescura. Algumas gotas de orvalho estavam suspensas, aqui e ali, ao acaso. E os raios de Sol, que casualmente atravessavam a folhagem das árvores, embatiam-lhes e dançavam na direcção dos meus olhos, tentando feri-los e privar-me daquele pequeno milagre casual da natureza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escolhi uma cadeira na esplanada ainda vazia. Pedi a bica. Reparei no casal que passava casualmente por ali; trocavam risos. Senti-me bem. Diria que só por acaso não tropeçaram em mim. Saboreei a pequenos goles as primeiras gotas do café, por acaso bastante quente. Bebi o restante de um trago.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reflecti então sobre o destino. O que nos reservará o acaso; esse milagreiro pardo que nos traça um caminho ignorado, esperançoso, desilusório, gratificante ou não, expiatório às vezes, inquisitório sempre, desejado, concreto e talvez indefinido?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não existem acasos na natureza. Nunca houve laranja que brotasse de um galho ao acaso, nem onda que se abatesse em pedra “porque sim”. Não haverá raio que a natureza me mande, sem nexo. A física dirá por que motivo me terá calhado a mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Somos nós afinal que o traçamos, esse engulho que nos justifica tudo o que não explicamos. São as escolhas que abraçamos, e os desvios que nos infligem, que nos justificam tudo o que acontece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No salão de jogo, a virtualidade que nos atribui um terno de seis aos dados não é um acaso. Fomos nós que fabricámos os cubos e lhes marcámos os ícones que simbolizam os números, criámos os números também, para interpretarmos a natureza casual, e acreditamos que aquele ângulo natural em que o vértice ou a aresta do pequeno cubo embate no pano verde e que define qual a face a ficar para cima, há-de determinar o sorriso que o futuro não anteviu. Nós demarcamos as regras, que pretendemos casuais para tudo aquilo que a natureza nunca pariu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia esgotou-se num ocaso magnífico, esse bem real.&lt;br /&gt;Segurei o pequeno papel nos dedos e fi-lo deslizar pela abertura da caixa de correio do prédio incógnito que me passava ao lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também me passou ao lado o sorteio. Nunca cheguei a saber se alguém foi premiado naquele local, onde estive por casualidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por um acaso posso ser um maçador. Estou convencido de que o sou a propósito. E afirmo à exaustão, para que não me esqueça, que o acaso não existe; a não ser como fundamento hipotético na nossa mente. E sempre criado por mão humana, será eventualmente a única criação exteriorizável, mas irreal, genuinamente feita a alguma imagem e semelhança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E gostava que me corrigissem se, por mero acaso, estiver errado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-4497111349695884730?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/4497111349695884730/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=4497111349695884730&amp;isPopup=true' title='20 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/4497111349695884730'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/4497111349695884730'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/09/nem-por-acaso.html' title='Nem por acaso...'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>20</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-614525495457419701</id><published>2009-09-15T14:40:00.000+01:00</published><updated>2009-09-15T14:46:13.355+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>O "Ter" das coisas</title><content type='html'>Encontrei-me casualmente comigo há dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia tempos que não me via. Estava sentado num penedo. Agachei-me e perguntei-me o que tinha. Olhei-me nos olhos... Não... O olhar estava parado, fixo num ponto de fuga, a quilómetros de distância. Respondi que não tinha nada, enquanto recordava os meus, que amo, e uma vida por acabar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei-me com o mesmo olhar vazio, sem emoção que classifique o bater do coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho vindo a adequar o discurso, pela constatação clara de que já não importa o "ser" das coisas. Importa-lhes principalmente o "ter". Daí que o saber, aquela faixa estreita onde a crença e a verdade se sobrepõem, pouco importe; porque é relativo, muito relativo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às voltas com este transe... O sábio que antes invejámos ao afirmar "só sei que nada sei", demonstrando clareza sobre a enorme variedade de conhecimentos que houvesse para apreender, face à diminuta capacidade do Homem para tal grandeza, hoje é o que apregoa ao vento "só sei que nada tenho".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso a inteligência se mede cada vez mais pelo sucesso, pelas influências apropriadas, do que por formas de pensar. Louco já não é o que se passou do juízo, que se designa, também em contra-senso,  por "infeliz". Louco é o que vive sem nada, porque nada soube amealhar, esse sim temido e repudiado por todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Consequentemente tenho de admitir que "tenho, logo, existo". Deixo para trás o paralelismo em que a consciência do ser se relacionava com a actividade cognitiva, negando o insano. A afirmação do sábio remete-nos agora, por silogismo, à definição de existência apenas para quem possui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta afirmação completa-se em círculo; pela conclusão de que o sábio, que afirma que nada tem, na realidade estar em rota de negação com a sua própria existência, o que confirma a tese de que o saber é, não apenas tendencialmente inútil, como uma via directa para o ostracismo, para a marginalização, para o degredo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sociedade ensina-nos que sem ter não haverá saber, e isso definirá a nossa permanência. O saber, que nos negaria a essência, é-nos assim fornecido a conta-gotas. Na medida exacta a permitir que continuemos a fomentar a ambição, e dessa forma levar-nos a justificar a nossa existência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tecidas estas considerações sumárias comigo, resta-me a imodéstia de vos confessar que não existo. O que me torna no imortal mais procurado do planeta. Sou também, por isso, o único sábio ignorante, e aqui aproximo-me do conceito antigo, mas por razões diversas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixei-me a olhar inexpressivamente para o tal ponto de fuga. Afastei-me desse louco que nada tem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao fundo as luzes da cidade atraíram-me como cantos de sereia. A tal cidade... Onde de tudo existe, a mesma onde nada se sabe, aquela onde tudo se conquista.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E fiquei a pensar, numa ambição antiga... Se ao menos tivesse juízo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;© CybeRider - 2009&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-614525495457419701?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/614525495457419701/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=614525495457419701&amp;isPopup=true' title='27 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/614525495457419701'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/614525495457419701'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/09/o-ter-das-coisas.html' title='O &quot;Ter&quot; das coisas'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>27</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-4211037093903638538</id><published>2009-09-11T16:40:00.002+01:00</published><updated>2009-09-11T16:54:39.105+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>E Setembro ficou mais frio</title><content type='html'>Arroz de tomate com biqueirões fritos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estavam-me a saber bem, na tasca do Alfredo... No ar um certo cheiro a borrego guisado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei se já vos tinha dito, mas detesto borrego. Ainda para mais guisado. Mas biqueirões fritos... E com arrozinho de tomate...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para a imagem no suporte de parede, com aquele ar com que sempre olho para as imagens nos suportes de parede, a indiferença, as ideias a batalhar com o que os olhos querem deles. E vi aquele símbolo da minha civilização ocidental ferido. E lembro-me que um biqueirão me ficou a arrefecer no garfo. Sem que eu visse a minha boca entreaberta. Os ouvidos a estenderem-se-me pela sala, a tentarem abafar as conversas dos pedreiros e pescadores que atulhavam aquele diminuto espaço, pleno de cheiro a gente e tabaco, para tentarem abraçar o pequeno altifalante, que me dissesse que aquela imagem mal definida, pior que qualquer filme de Hollywood, era um pioneirismo mal conseguido dalgum filme de série B.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;B... do biqueirão que me arrefecia no garfo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era tudo verdade, menos a repetição, que o não era. A repetição era a confirmação de que o meu mundo estava a sofrer, mais do que imaginei que fosse possível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me recordo de como se acabaram os biqueirões do meu prato, nem se comi o arroz frio. Mas recordo-me de ter saído da tasca do Alfredo, onde as conversas tinham baixado de tom mas se mantinha o cheiro a gente e a tabaco, e de ter corrido para um espaço em que a televisão fosse minha, para me poder enfiar pelo écran em privado, como quem procura a latrina para descarregar a mais eminente diarreia. Julgo que ainda paguei a conta. Senão, talvez o Alfredo me tenha perdoado; porque nunca mo disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não me lembro de muitas vezes em que a tristeza me tenha motivado a correr mais do que a curiosidade. Sei que a alegria e o desespero me produzem esse efeito. A tristeza... Não sabia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aprendi a esquecer que o avião do Pentágono não tinha asas, nem bagagens. Aprendi a esquecer que o avião da Pensilvânia tinha um sistema vanguardista para a época, que permitia comunicações de telemóvel. Aprendi a esquecer que todos os seus ocupantes e os seus pertences se esfumaram na terra que os recolheu. Aprendi a esquecer que quem quer que tenha calculado ao rigor cada milímetro daquela operação se esqueceu que uma hora mais tarde teria aniquilado mais trinta e seis mil pessoas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas nunca mais me esqueci de que a civilização, que me criou um ícone de orgulho que guardo religiosamente em tantas fitas de cinema, tem a triste capacidade de tudo destruir em segundos, e de acabar com milhares de vidas inocentes, por meros fundamentalismos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E hoje, sei por A de Alfredo mais B de biqueirão, que corro mais depressa. Principalmente, se vir um avião a voar baixinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-4211037093903638538?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/4211037093903638538/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=4211037093903638538&amp;isPopup=true' title='19 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/4211037093903638538'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/4211037093903638538'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/09/e-setembro-ficou-mais-frio.html' title='E Setembro ficou mais frio'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>19</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-1792257764257644538</id><published>2009-09-07T21:50:00.002+01:00</published><updated>2010-01-02T03:13:39.851Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Este país não é para velhos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Drive-In</title><content type='html'>O carro é uma coisa maravilhosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me da estima com que um primo, afastado no tempo e no espaço, nem tanto no sangue, escovava o pêlo sedoso da mula que atrelava à carroça para o tal passeio à vila. De férias por lá, na planura tórrida do Alto Alentejo profundo, ainda recordo a primeira vez que me sentei na tábua que servia de poltrona à simples carruagem. E lá fomos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A trepideira e o ruído dos aros metálicos das rodas gigantescas a arrepiar o empedrado é quase inimaginável. Dir-se-ia que os meus dentes de leite iam a arar o granito empedernido e invulnerável que as suportava. A compasso com o matraquear do galope, a quatro cascos bem ferrados, no pavimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu primo, homem possante de braços espessos atiçava a besta que avançava sem custo pela rua quase deserta. Recordo o movimento pendular da cabeça do animal, para cima e para baixo, a afirmar a certeza de chegarmos ao destino. Os guizos do malim a soar com brio, a rédea a fustigá-lo para passarmos da velocidade-de-cruzeiro a mata-cavalos, por ali fora. As minhas pernitas de franganote e os dedinhos ainda frágeis a agarrarem-se a cada trave, para não desaparecer com a nuvem de poeira que se libertava do restolho sobrante das cargas brutas vencidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me do sorriso dele, a embrulhar-me puto naquele delírio. Lembro-me da confiança que aquele sorriso franco e quente, na tez encortiçada, me punha na alma; e que me fazia gritar por mais, sem perigo que me assomasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rodei o volante. Entrei naquela produtora de alimentos a metro, logo a seguir à placa que indicava "drive-in", como num cinema à americana. Nunca tinha lá estado. Parei no primeiro &lt;em&gt;guichet&lt;/em&gt; e reparei que vinha outra viatura atrás. Olhei para o rapazola de boné vermelho, à americana, e disse-lhe à antiga portuguesa que como tinha "outro" atrás talvez fosse melhor parar no &lt;em&gt;guichet&lt;/em&gt; seguinte. Ele olhou-me com aquele olhar com que eu costumava olhar para o meu avô, quando me dizia aquelas coisas à antiga portuguesa. Disse-me que estava ali bem e anotou o meu pedido. Depois percebi... Percebi que estava atrasado, que os anos tinham passado por mim sem delicadeza, a mata cavalos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O outro &lt;em&gt;guichet&lt;/em&gt; era apenas para levantar o pedido. Não havia espaço a gentilezas, a coisa já estava pensada assim. Se tivesse sido gentil, teria estragado a mecânica do espaço. O rapazola, de boné à americana, também pensou nisso mas era tão complicado tentar traduzi-lo para o meu vocabulário à antiga portuguesa, que se limitou a olhar-me com aquele olhar com que olhei tantas vezes o meu avô e limitou-se a balbuciar: "Deixe-se estar. O senhor está bem aí..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E de facto acho que sim. Agora que penso nisso, acho que estou bem melhor aqui do que com um boné à americana a cobrir-me o cabelo grisalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas estaria ainda melhor sentado sobre a tábua rachada, que servia de poltrona no carro do meu primo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-1792257764257644538?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/1792257764257644538/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=1792257764257644538&amp;isPopup=true' title='23 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/1792257764257644538'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/1792257764257644538'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/07/drive-in.html' title='Drive-In'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>23</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-2521050328572259452</id><published>2009-09-03T12:15:00.003+01:00</published><updated>2010-12-10T21:47:09.206Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Há uma razão para uma mosca nos cair na sopa</title><content type='html'>Sou acometido poucas vezes pela ideia de que os segredos do Universo me foram já todos manifestados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não que os entenda, entenda-se. Mas acabo por acreditar que de uma forma ou de outra já vi a matéria-prima com que tudo se compõe. A maioria das conversas soa-me por isso a &lt;em&gt;déjà vu&lt;/em&gt;. As politiqueiras, as crises económicas, as lástimas sociais, a namorada do amigo, o preço da gasolina. Até por isso já não uso a memória com a intensidade com que costumava abusar dela. Não esqueço os nomes nem os factos por questões de senilidade. Esqueço-os porque me são meros plágios retirados de coisas mais antigas; pessoas que se repetem, com ligeiras diferenças fisionómicas; factos que nunca terão o impacte da primeira vez que os vi desenrolarem-se aos meus olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algumas recordações menos recentes ficaram-me como princípios fundamentais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje apraz-me recordar uma, pela estranheza que me causa sempre que me lembro da coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive um amigo, em tempos, que cultivava a filosofia oriental com um rigor e um saber invulgares. Passámos horas a contrapor a racionalidade das minhas questões ocidentais com os pressupostos epistemológicos daquelas sociedades longínquas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem posso esquecer o momento em que me salvou a vida, naquele dia aziago em que me encontrava a comer uma suculenta bifana cheia de mostarda num &lt;em&gt;snack bar&lt;/em&gt; à esquina da estação do Rossio, batida com uma imperial bem tirada - ai, que lhe sinto o gosto... - e o vejo entrar alarmadíssimo pela porta dentro, agarra-se-me ao braço e me pergunta com aquele olhar inquieto, que diabo estava eu a fazer, a suicidar-me daquela maneira, arrastando-me porta fora para me ir atafulhar de pastéis macrobióticos para o Celeiro, ali a poucos passos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois um dia caminhávamos à sombra de umas nogueiras em Sintra, onde ele tinha uma pequena fábrica de pickles biológicos (que eu nem sabia que havia outros) e íamos apanhando nozes, e discutindo as habituais dialécticas do conhecimento humano. A certo ponto quebrei uma noz já habitada... Mau... Ele fitou-me e esclareceu-me que aquilo seria a prova cabal de que a partir daquele momento o meu organismo já não necessitava de mais nozes... Se necessitasse, por estranha premonição, teria sido capaz de escolher outra sem bicho... Pois... Ah! E mostrou-me como o organismo dele continuava a seleccionar as imaculadas com que se ia empanturrando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De facto penso muitas vezes nessa minha incapacidade, de pré-seleccionar as coisas boas, de forma a não sofrer desapontamentos, talvez por já ter tido benesses em excesso e não precisar de mais nenhuma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E posso até esquecer nomes e factos, não por senilidade, mas porque me são meros plágios de coisas antigas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre que me cai uma mosca na sopa, porém, fico a pensar que há uma razão para isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez seja o único segredo do Universo que ainda não me foi revelado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-2521050328572259452?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/2521050328572259452/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=2521050328572259452&amp;isPopup=true' title='32 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/2521050328572259452'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/2521050328572259452'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/09/ha-uma-razao-para-uma-mosca-nos-cair-na.html' title='Há uma razão para uma mosca nos cair na sopa'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>32</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-1244328014005480938</id><published>2009-08-27T00:26:00.002+01:00</published><updated>2009-08-27T00:34:48.972+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Este país não é para velhos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>A bronca da broncocoisa...</title><content type='html'>Tinóni... Tinóni...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os faróis a piscar, o veículo amarelo surge. Encostam, deixam passar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Jacinto também deixou passar, em branco, a mãe que lhe faleceu no hospital com broncopneumonia. Já se lhe fora um tio e uma prima afastada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afastados… Todos, por esse anátema ceifeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou é andaço, ou uma terrível coincidência, mas ultimamente parece que não há velho que morra de outra coisa. Vítimas de cancro, de SIDA, de uma perna partida, ou de simples senilidade; desde que haja internamento, é quase certo. Se não foi acidente, foi broncopneumonia. Penso eu, não o Jacinto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não lastimou que se fale de gripe XPTO, quando a porcaria que nos leva os velhotes mata muito mais que qualquer outra maleita, e sobre ela nada. Desta ninguém fala, saiba-se lá porquê. Os velhotes vão assim, muitas vezes para melhor, por broncopneumonia. Liberta-se a cama que os desgraçados ocupariam a perder de vista no tempo, e uma data de gente livra-se de uma série de encargos e chatices. Assim como o Jacinto, que sem saber trocar as fraldas à mãe, sem proventos dignos de um desafogo, a lavava à mangueirada no quintal da casota modesta da aldeia. Já o tinham debaixo de olho, a Segurança Social… Assim foi melhor… Que a velha estava a sofrer. O pior foi a reforma. Faz também falta aos outros, para jogarem à carta no banco de jardim até que a vida lhes doa, e precisem de internamento, como necessitam da tal cama no hospital.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E no ciclo do Jacinto, conformado com a forma como a mãe lhe partiu, sem mistério, vive-se, envelhece-se, apanha-se a broncopneumonia e, saberá Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns resistem, ainda pecou o Jacinto em pensamento. O AVC não os deita abaixo tanto quanto se esperaria, e o raio da broncopneumonia ainda se cura, mas estes são de facto poucos. Talvez a medicina tenha evoluído em dois sentidos diferenciados; dum lado os que recupera para ficarem inválidos por uma série de anos, do outro os que despede rapidamente com a tal broncopneumonia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Jacinto, não gostaria de ver o assunto estudado, os números apresentados, as estimativas e estatísticas realizadas. Isso dar-lhe-ia uma intranquilidade desnecessária. Não o incomoda o dia em que apanhe uma broncopneumonia, não terá violado nenhum cânone sagrado de uma máfia oculta, inominável, que se queira então ver livre dele, que nem sequer questionou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mim sim. Preocupa-me. Daí que comece a ver nisto uma dúvida existencial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, se amanhã estiver hospitalizado com uma conveniente broncopneumonia, já sabem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-1244328014005480938?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/1244328014005480938/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=1244328014005480938&amp;isPopup=true' title='29 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/1244328014005480938'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/1244328014005480938'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/08/bronca-da-broncocoisa.html' title='A bronca da broncocoisa...'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>29</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-1723102311212159523</id><published>2009-08-22T16:00:00.010+01:00</published><updated>2010-11-24T15:00:09.781Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>A cigarra e as formigas</title><content type='html'>A meus pés, o carreiro de formigas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Infestam-me o mundo, nas suas filas indianas, que decerto chegam à Índia, onde nunca estive, mas que imagino. Cheia de formigas também. Como estas, que se acotovelam, como na fila do metropolitano. Imagino-as a atravessar pontes e vales, montanhas e desfiladeiros. Embarcam nas folhas e vão-se pelos ribeiros à aventura. Sem louros a colher, sem História, nem política...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma imensa monarquia, talvez um império cheio de rainhas que, de pernas abertas nos tronos, infestam e manifestam sem cessar. Um negócio de família afinal, maior que qualquer latifúndio que conheçamos. Em comum a mão de obra barata, a sujeição irracional, a massificação quase automática como que telecomandada. Recolectores pré-históricos, que não pensam que o mundo acaba, não sofrem da ansiedade da morte, nem das incertezas da velhice.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma sociedade complexa. Com hostes que se dividem em tarefas específicas. Talvez não se entendam umas às outras na missão mas, ao contrário de nós, não se questionam. Limitam-se a cumprir o destino que lhes coube em sorte. Sem ambição, nem gula. O altruísmo é automático, derivado do cumprimento espartano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não conhecem a cigarra. Fomos nós que lha inventámos. Porque tínhamos de lhes poluir o mundo com uma inveja que não concebem. Com uma moral que não as toca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Somos nós quem questiona a laboriosa formiga face à preguiçosa cigarra. Nós, que também infestamos o mundo que pensamos que é nosso. Que nos escusamos à comparação com a estirpe de gripe mais violenta. Fugimos à analogia entre a nossa pandemia sobre a Terra e a de qualquer vírus que subavaliamos em intelecto. Não reconhecemos a violência com que debilitamos este nosso hospedeiro, cujo sistema imunológico nos tenta a todo o momento repelir. Oxida-nos os tecidos, invade-nos de natureza, que logo acusamos de doenças, que no entanto não a atingem, a essa Terra-mãe que tudo gera. São essas as suas defesas contra a nossa acção nefasta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Questionamo-nos as razões de cada missão a que nos propomos. Quantas vezes não encontramos nexo na Ecologia, que nos tenta preservar enquanto não acharmos outro hospedeiro que contaminemos e extorquamos à exaustão. Talvez a Lua... Atrasa-nos o suicídio, que sobreviria se apenas o grupo de recolectores existisse. Sim, continuamos a recolectar tudo o que podemos deste globo, as transformações do que colhemos iludem-nos, como se fossemos capazes de criar. Deuses menores numa acrópole de mentecaptos mecânicos, que se revezam na atitude e no posto, desejando e adorando um pai que nos abandonou há muito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixamo-nos governar pela cigarra. As nossas rainhas não são suficientemente belas, nem têm o monopólio da parição. Perderam assim o poder face ao esplendor do canto e à cristalinidade das asas que aquela ostenta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cigarra não tem o poder de avaliar o mérito nem a justiça do destaque magnífico que o formigueiro lhe dedica. Limita-se a alimentar-se do que as nossas hostes laboriosas lhe colocam aos pés em vénias redobradas e salamaleques. Empanturra-se de mordomias, injustificáveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia morre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quando morre uma cigarra é sempre o carreiro de formigas que a carrega, em ombros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E guardam-na na despensa. E, um dia, banqueteiam-se com ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-1723102311212159523?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/1723102311212159523/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=1723102311212159523&amp;isPopup=true' title='23 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/1723102311212159523'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/1723102311212159523'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/07/cigarra-e-as-formigas.html' title='A cigarra e as formigas'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>23</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-8127992368873124874</id><published>2009-08-18T00:05:00.005+01:00</published><updated>2010-04-28T12:25:59.642+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>A caixa de música</title><content type='html'>Pressionei o pequeno troço de metal brilhante. Dei-lhe algumas voltas com os dedos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pousei a caixinha de acabamento finíssimo sobre a mesa do &lt;em&gt;boudoir&lt;/em&gt;, lacada a negro brilhante, com flores marchetadas por algum hábil artífice. Abri o pequeno fecho da tampa e levantei-a, parte de um cenário coberto a espelhos multifacetados, dispostos em semicírculo. O forro vermelho que cobria o fundo da caixa, tinha cavidades em volta, tinha também outro espelho, circular, ao centro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A música começara. Uma pequena harpa tocava a melodia celeste que só por si já embevecia. Retirei com cuidado a pequena fada do seu leito e coloquei-a sobre o lago, formado pelo espelho central.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei a mirá-la, sob hipnose, enquanto revolteava no seu vestidinho de corista, as pernas nuas surgiam-lhe maravilhosas sob o saiote de tule. Os braços em arco sobre a cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pim... Pimperlimpipim... Pim, pim... Pim, pim...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não conseguia libertar o meu olhar do voltear da pequenina figura sobre o seu lago hipotético. Imaginava-me a acompanhá-la, no seu mundo perfeito em que nasceu para bailar nos meus sonhos, adivinhava-lhe o sorriso sereno, da segurança dos passos de dança. Via-a como que saltasse e pousasse em pontas de novo, como que de nenúfar em nenúfar, o que lhe seria possível, sem custo, pela sua virtuosa delicadeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Via-me a pegar-lhe na mão e a suster-lhe o corpo elegante no ar, enquanto desenhássemos figuras belíssimas. Eu, do tamanho dela; como via nos bailados clássicos da televisão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não bastava a magia da música, tinham de ter inventado uma figura tão linda para dançar, a propósito, para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive outras paixões na vida, mas nunca pude esquecer a pequena bailarina, nem a segurança com que volteava no seu mundo, onde nada acontecia sem o acompanhamento da música de corda. Como numa maravilhosa história de amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia fechei pela última vez a tampa da maravilhosa caixa. Parti para o mundo à procura da minha própria caixinha de música, onde pudesse exibir os passos graciosos ao lado da talentosa &lt;em&gt;prima ballerina&lt;/em&gt;. Vagueei para encontrar o lago brilhante e sereno onde uma fada dançasse em círculos aquele bailado eterno. Gostaria de lhe ter dito quanto lhe invejava a vida maravilhosa e quantas vezes sonhei com o seu sorriso misterioso, tranquilo e seguro. Gostaria depois de a fechar na minha mão, para a poder soltar quando quisesse e vê-la dançar só para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gostaria principalmente de lhe ter trauteado ao ouvido a música que nunca esqueci. Ela haveria de se admirar e talvez pela primeira vez os seus lábios mágicos se abrissem num espanto, e então, quem sabe, ela me correspondesse a paixão:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pim... Pimperlimpipim... Pim, pim... Pim, pim...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a voltei porém a encontrar, anos mais tarde, já não emanava a mesma beleza virginal. O vestido de tule estava amarelado, cheio de manchas. As pernas esbeltas estavam raiadas de varizes e máculas escuras. O cabelo desgrenhado já tinha conhecido melhores dias, algumas mechas escondiam-lhe as rugas que o tempo lhe lavrara a cinzel, indeléveis. Reconheceu-me. Apagou à pressa o cigarro e tentou pôr-se em pontas, mas os sapatos estavam rotos. O cheiro a bebida fazia-me antever que mesmo o estereotipado "quatro" lhe seria difícil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encostada ao balcão, tirou outro cigarro e ainda me pediu que lhe desse lume. Não lhe dei corda. Mas beijei-a na testa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abri a porta ao sair. Como saíra tantas vezes do seu palco radioso. Fechei de vez o pequeno fecho da tampa. Limpei uma lágrima que me saltou para a noite, pelo frio...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Compreendi que nunca poderia fechar a bailarina na minha mão. Nesse dia deixei de procurá-la, e percebi que o que precisava afinal era de uma mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi a última vez que abri uma caixinha de música.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-8127992368873124874?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/8127992368873124874/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=8127992368873124874&amp;isPopup=true' title='18 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/8127992368873124874'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/8127992368873124874'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/08/caixa-de-musica.html' title='A caixa de música'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>18</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-3041051243002307169</id><published>2009-08-12T17:30:00.002+01:00</published><updated>2009-08-12T17:41:11.279+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Esquerda... Direita... Um... Dois...</title><content type='html'>Andam a par. Como o sim e o não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O não que nos afasta do que não queremos. O sim, que nos atrai para tudo o que julgamos merecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A esquerda lava a direita e sem a direita a esquerda não se poderia lavar. Repara como se juntam, imagens opostas uma da outra. No entanto são quase simétricas, completando-se neste espaço que é só um. Fazemos nós a destrinça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quantas vezes seguramos na direita o que sem a esquerda cairia ao chão. Quantas vezes apanhamos do chão com a esquerda o que a direita recupera, para lhe continuar a dar uso. E todos os possíveis vice-versas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca abdicaríamos de uma em favor da outra. Não olhamos para a esquerda negando-lhe o valor, nem para a direita como omnipotente. Nem uma está errada nem outra, somos nós quem erra, não elas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há quem as junte numa prece, quem as estenda à vez, num pedido de socorro. Nelas confiamos a nossa sobrevivência. Voltamo-las para brincar, dividimo-las em cada dedo que também não negamos. Para nós são sempre um sim. Sempre juntas e carentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com uma e outra afagamos o destino, e distribuímos amor. Comunicamos. Com elas conseguiríamos destruir o Mundo... Sem elas nunca conseguiremos realizar os nossos sonhos mais queridos, nem distribuir o bem-estar, nem concretizar os planos audazes que nos trespassem a ideia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bate palmas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma não faz barulho sem a outra. Sozinhas são inaudíveis, mudas, imperceptíveis. Só ambas fazem sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar disso não se misturam. A da esquerda será sempre "a da esquerda" e a da direita, será sempre "a da direita" também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Venham falar-me de democracia, como um ideal clubista. Venham falar-me em partidos, e em multidões que se odeiam. Nunca acreditarei que se faça algo de útil sem as duas mãos que se unem. Nunca acreditarei que consiga fazer-me ouvir a aplaudir a uma mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com uma apenas, posso dar um soco, posso disparar uma arma, ou arremessar uma pedra. Preciso das duas para te levantar do chão, preciso das duas para fabricar o pão, para me segurar à árvore de onde colho o fruto, para te salvar de morreres afogado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preciso das duas para retirar a mais bela melodia do piano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando me escolhem só uma, deixam-mas atadas. Não estaria completo, porque sempre precisei das duas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preciso delas para me lavar a cara. Para me cobrir a vergonha, uma à frente e outra atrás, sem distinção. Com uma apenas consigo esborratar o quadro mais belo e destruir a maqueta que estavas a construir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As minhas botas continuam a marcar passo: Esquerda... Direita... Um... Dois... Esquerda... Direita... Um... Dois... Esquerda... Direita... Um... Dois...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não chego a lado nenhum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-3041051243002307169?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/3041051243002307169/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=3041051243002307169&amp;isPopup=true' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/3041051243002307169'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/3041051243002307169'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/08/esquerda-direita-um-dois.html' title='Esquerda... Direita... Um... Dois...'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-2222121983592952098</id><published>2009-08-09T17:30:00.002+01:00</published><updated>2010-12-10T21:54:43.431Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Este país não é para velhos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Manta Beach - Consumo deturpado</title><content type='html'>O Algarve reserva a magia de atrair vários milhares de pessoas às regiões do seu litoral por esta altura do ano. Para além das praias fabulosas que proporcionam o almejado descanso e divertimento aos que possam usufruir de umas férias merecidas por terras de Portugal, tem também uma vida nocturna cheia de animação, sons e cores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Novos espaços renascem a cada ano para uma época alta que se espera sustente a aridez económica e social do Inverno. Esta sazonalidade, tão ansiada pelos profissionais do sector turístico e pela restauração, prevista milimetricamente, por quem sabe estar ali a dependência do sustento de famílias e localidades, pode ser desvirtuada por investimentos absolutamente surpreendentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive ocasião de ser convidado a um desses sugadouros da economia local. O "Manta Beach", na Manta Rota, localidade da freguesia de Vila Nova de Cacela, do Concelho de Vila Real de Santo António. O facto de ser convidado, e consequentemente agradecido, não me pode tornar num sequaz cego à realidade de que um local de culto como aquele, implantado por uma fabulosa máquina de &lt;em&gt;marketing,&lt;/em&gt; poderá efectivamente ter um impacte significativo nas expectativas dos prestadores de serviços similares da região, que recordo se enquadra entre Tavira e Monte Gordo; principalmente num ano de crise que já ninguém nega, em que as coisas já seriam difíceis por si. A controvérsia lança-se porém ao apreciarmos o facto pelo lado da ocupação hoteleira, em que este tipo de estabelecimento, com inegável pendor mediático, terá por outro lado um impacte positivo, a avaliar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;À entrada colocaram-me um bracelete amarelo de distinção de classe que não sinto, e presentearam-me com um cartão de consumo e umas lembranças patrocinadas. O ambiente, de &lt;em&gt;casa cheia&lt;/em&gt;, estava muito bem frequentado, a noite amena, a música ao agrado mesmo de alguém da minha faixa etária.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confesso que não me alarguei para além das fronteiras do &lt;em&gt;Vip Lounge&lt;/em&gt; e do espaço exterior. Estava lá para me divertir, com amigos, e o teor deste blogue não me permite análise jornalística, daí que não vos possa descrever a roupa da Maya, simpática e omnipresente, nem nomear algumas das outras caras famosas que por lá circularam nesta noite de festa. Para isso existirão os tablóides do costume.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A única extravagância acabou por ser o "Consumo Mínimo" referido no cartão. Nem que seja exagerado. 15 euros, parece-me bastante acessível a qualquer bolsa de veraneio. No meu cartão constava a oferta de uma bebida. Imaginei que teria direito a essa bebida e que poderia escolher bebidas até ao valor de 15 euros antes de ter que pagar mais que esta quantia pelos meus eventuais excessos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na caixa fui presenteado com uma conta que ultrapassava em muito o dobro daquele valor. Ora eu tinha consumido três bebidas que totalizariam 27 euros. Sendo uma de oferta, seria legítimo que eu liquidasse os 15 euros, e o eventual excedente até perfazer aquele montante. Foi-me explicado porém que os 15 euros incluem de facto uma bebida "grátis", mas que todas as outras são pagas à parte. Paguei sem atrito, à laia dos meus bons costumes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Consultado o meu séquito, verifiquei que a todos tinha acontecido o mesmo facto estranho. Não se tratou, por isso, de um mero engano de um funcionário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora bem, não é pelo valor que me continua a parecer irrisório, mas é pelo conceito moderno e vanguardista de "consumo mínimo"...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um estabelecimento daquela magnitude não deveria ter de recorrer a estes subterfúgios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Digo eu...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-2222121983592952098?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/2222121983592952098/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=2222121983592952098&amp;isPopup=true' title='22 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/2222121983592952098'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/2222121983592952098'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/08/manta-beach-consumo-deturpado.html' title='Manta Beach - Consumo deturpado'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>22</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-278195650348307607</id><published>2009-08-05T13:20:00.001+01:00</published><updated>2010-01-02T03:21:43.149Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Ah, Bonaparte! (Parte 2 de 2)</title><content type='html'>Por esta altura estarão a pensar que não falo a sério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedem-me provas... Pois bem! Não que tivesse de fazê-lo, mas dar-vos-ei as provas que me pedis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nasci com vários dons. O primeiro é a &lt;em&gt;Incapacidade Da Ideia Derradeira&lt;/em&gt;, daquela ideia com potencial para acabar com tudo. Que, dizem, a imaginação humana não tem limites. Pois a minha tem. Não conseguirei nunca ter essa ideia maldita. Nunca criarei um procedimento ou artefacto capaz de me (nos) destruir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O segundo é a &lt;em&gt;Incapacidade De Violentar&lt;/em&gt;. Assim, não concebo a possibilidade de qualquer acto menos digno para com os que me rodeiam. Para quê? Para viver num mundo de sofrimento? Não creio que houvesse justeza na minha criação, nem que me fosse atribuído um mundo cheio de coisas boas, se eu fosse capaz de o destruir em actos que me envergonhassem perante mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O terceiro é a &lt;em&gt;Incapacidade De Subjugar&lt;/em&gt;. Devo explicá-lo? Acho que é um dom bastante fácil de compreender...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O quarto é a &lt;em&gt;Incapacidade De Me Glorificar&lt;/em&gt;. Mas este não vos fará diferença. A menos que pensassem que vos faria sombra. A minha natureza porém é diferente, não vos causarei obstáculos. Já mencionei a minha incapacidade de interagir com este mundo que me foi destinado, não lhe poderei alterar uma vírgula. Lamento. Peço-vos apenas que não me endeusem. Consequentemente, nunca ouvirão falar de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Surpreende-vos decerto que os meus dons sejam, de facto, incapacidades. Poderá até parecer que misturo conceitos antagónicos. Não é assim. Observai que as capacidades equivalentes estão distribuídas, em porções desiguais, por muitos de vós. É isso que vos torna humanos. Sois os humanos do meu mundo, e tendes a minha compreensão porque os dons que refiro não vos terão eventualmente bafejado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cuidai porém, que alguns se fazem passar por mim! A esses, a minha sociedade fecha-os num hospício. Perguntei a um uma vez:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E vós, senhor? Qual é a vossa graça?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao que me respondeu com um pino perfeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se depois de vos confessar isto, duvidas houvessem, pediria que fizessem rapidamente um raciocínio. Que pensassem a quem confiariam qualquer dos bens que, sem ter aprendido por mestres ou manuais, vos afirmei que sou incapaz de violar. Eu tenho a resposta imediata para essa dúvida, se alguém ainda questionasse: a mim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizem-me, porém, que tenho uma doença mortal. E isto deveria ser segredo. Não quero que se saiba que padeço deste mal, que até nem sei se é derradeiro como afirmam, mas já que o disse, e até o aflorei anteriormente... Que não vos cause ansiedade... Padeço de vida! Dizem-me que é fatal. Irremediável. Sinto-a que me consome, a cada dia que passa... Receio, por isso, que o meu mundo possa eventualmente chegar a um fim, e que todos desapareçam. Mas tento resistir. Sei que quanto mais me aguentar, mais tempo tereis para gozar o meu mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vos roubarei, nem vos governarei. Isso já há muito quem faça de sobejo, com muito sucesso e pouco senso, mas esses não têm a responsabilidade de ter um mundo só deles, daí que terão o meu perdão. Afinal, que bem poderia eu guardar ou querer para mim, se o que me encanta é a vossa felicidade suprema?... Hei-de admirar-vos sempre o saber, para meu espanto. Nunca vos direi que esse saber de pouco vale, que não alterará o percurso do Universo. O meu pouco saber, o que quer que isso seja, também me é absolutamente inútil, bastam-me algumas habilidades empíricas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lamento que alguns de vós nunca cheguem a conhecer-me. No vosso lugar, eu gostaria de saber quem fosse o dono do mundo em que eu estivesse. Mas, talvez seja melhor assim, há coisas que não devem ser reveladas por não aproveitarem a ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre vos vou pedindo que deixem de pontapear os que julgam sem-abrigo. Um deles, pelo mau aspecto, poderei ser eu, e esse nome nunca me caberá, porque afinal de contas,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Mundo é meu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;P.S.: Concluo que me estou a evadir da responsabilidade por todas as catástrofes, não necessariamente as naturais, que vos acontecem. Pois bem, como saberão, os dons nunca são atribuídos aos pares. Os meus também não foram. A minha honestidade irrepreensível não me permite que vos oculte a verdade. Tenho um quinto dom! Trata-se da &lt;em&gt;Incapacidade De Ser Competente&lt;/em&gt;. A competência transformar-me-ia num tecnocrata que vós não gostaríeis de conhecer. Nessa medida, já sabeis a quem responsabilizar por todos os males que têm vindo ao meu mundo, derivam da minha incompetência em pôr ordem nisto. Esta característica, que também me diferencia de vós, que ambicionais a competência, tem-me impedido de acabar com muitos dos males que condenais à humanidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não o mencionei, porque ainda estou a aprender a lidar com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-278195650348307607?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/278195650348307607/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=278195650348307607&amp;isPopup=true' title='16 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/278195650348307607'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/278195650348307607'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/08/ah-bonaparte-parte-2-de-2.html' title='Ah, Bonaparte! (Parte 2 de 2)'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>16</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-5589389380097314617</id><published>2009-07-31T23:20:00.004+01:00</published><updated>2010-04-28T12:41:49.612+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Ah, Bonaparte! (Parte 1 de 2)</title><content type='html'>Importante foi o dia em que nasci!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse dia criou-se o meu mundo. Quais seis dias e descanso ao sétimo? Não! Foi tudo num ápice.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sei! Afinal, estava lá. Apareceu-me uma mãe, e um mundo inteirinho à minha volta. Alguns de vós apareceram-me aí, espalhados pela vasteza do meu mundo. Outros vieram depois, a somar aos que já havia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inventou-se-me tudo o que vos é dado ver, a meados desse dia. Aos que supostamente cá deveriam ter estado, criou-se-lhes uma memória, com parentes e sentimentos, com preocupações e tristezas, como se tivessem de facto existido tais vivências. A alguns inventou-se-lhes uma fé... Nunca aceitariam a realidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse dia, num segundo, nasceram, morreram e fossilizaram-se, todos os dinossauros...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mim, limparam-me tudo o que tinha aprendido. Para mim foi de facto o recomeçar do zero. Daí que não me recorde de vaguear pelo vazio, nem me lembre de nenhum passe de magia que tivesse originado o que vemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa é a verdadeira maravilha, e o segredo, de toda a criação!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E de repente iludiram-me de que tudo já existia há muitos anos. Criaram-me a História!... Hum... Histórias... Tantas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como se fosse possível alguma coisa existir sem eu cá estar! Imagine-se! Quem é que via? Quem é que ouvia? Quem é que tomava conhecimento?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outros houve ainda... Acho que mos têm roubado, aos poucos, quase sem que dê por isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho para o meu mundo, para as minhas limitações, para todos aqueloutros que me são impostos, e compreendo que o meu poder de decisão parece relativamente pequeno. No entanto não deixa de ser tudo meu. Assim como quando dou à chave do meu carro, não comando a subida nem a descida dos êmbolos nos cilindros e no entanto eles movem-se. Também os que me rodeiam se movem, para dar vida a este mundo criado de propósito para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também o meu mundo se avaria. Nem tudo corre às mil maravilhas. Mas... Milagre! Conserta-se sempre por si! Haverá coisa mais fantástica? Nunca tive de reparar coisa nenhuma. É quase assim como se... Tivesse vida! Assim como eu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até por isso estamos muito bem um para o outro. Puseram-me cá mas não me incutiram a habilidade de o reparar. Por isso tenho confiança! Sei que todos esses que andam por aí, que povoam o meu mundo e parecem agir de forma caótica e irresponsável, só o fazem para me assustar, para me aumentar a adrenalina, e quebrar a monotonia. Afinal, nada poderá estragar o meu mundo. Eu nunca saberia repará-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é um conto de fadas! É a realidade do mundo que se me fez. Não posso trocá-lo por outro, nem todos os que me rodeiam, mesmo sem se darem conta disso, podem evitá-lo. Todos estão dentro deste mundo que é meu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gosto de ver como partilho, sem inveja, porque o compreendo, e de forma natural, o meu mundo com todos. Alguns vestem-se de riquezas, e açambarcam cada pedrinha que lhes surja no caminho, outros não conseguem arrebanhar nada. Vivem pobres e infelizes. Não gosto deste aspecto do meu mundo, mas não tenho opção. Foi-me feito assim. Já compreendi que não consigo cobri-los a todos de segurança, saúde e tranquilidade. No entanto observo e faço um esforço para que as minhas ideias piores não os afectem. A indiferença com que me olham, mostra que não sabem que este mundo é meu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns até pensarão que sou eu que vivo no mundo deles, mas não compreendo essa forma de pensar. Aí começam as nossas diferenças. Eles que não sabem o que são e eu, que sei que eles são meras personagens do meu mundo, feitas à minha imagem e semelhança, para que eu não ficasse aqui plantado sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vêm-me com conceitos de justiça que repudio, com ideias de divisão ou concentração de poderes. Hum!... Poderes... Se eles soubessem, que nem eu próprio tenho poderes sobre este mundo, e ele é meu!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho piada quando me limitam a um país e dizem que sou português... Ciente como estou que andei livre pelo espaço antes que me dessem esta esfera para morar. E querem impor-me regras, e limitar-me as fronteiras. Como se pode confinar o dono à coisa? Limitar algo que é de alguém, sem cometer uma tremenda injustiça?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso me nego a aceitar esta rebelião do meu mundo. Não deixo de achar que esta zona geográfica com nome é a minha casa. Deram-ma. Também pudera! Este mundo não foi feito com direito a habitação?... Pois então!... Se tenho o mundo, tenho também uma casa, este espaço rectangular enorme, cheio de gente. Estes têm um linguajar parecido com o meu, pois, fizeram-se-me vizinhos... Escusavam, ainda assim, de me ter povoado a coisa com tanta gente estranha. Afinal ainda só consegui aprender a viver com alguns...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já não é mau. Podia ser bastante pior. Podiam ter-me colocado junto aos que quisessem acabar comigo... Se calhar alguns querem... A isso chamam eles homicídio!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Posso contar-vos um segredo?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se eles me homicidiarem, suicidam-se a eles próprios. Não lhes posso contar... Eles iam ficar tão desiludidos... Talvez até deprimidos, cheios de inveja, por saberem que afinal este mundo é mesmo meu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, farto-me de rir. Cada um parece mais importante que o outro. Alguns falam-me com voz grossa! Ah! Se falam! Pensam que me assusto... Já não!... Agora que descobri a diferença. Agora que sei o que eles são:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peças do meu cenário!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só tenho pena de uma coisa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao ser dono de tudo acabo, eu próprio, por não pertencer a ninguém. E sei que me puseram aqui mas se esqueceram de pensar nisso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quanto mais penso, mais me convenço... Isto não é coisa boa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguém deveria tomar conta de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-5589389380097314617?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/5589389380097314617/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=5589389380097314617&amp;isPopup=true' title='29 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/5589389380097314617'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/5589389380097314617'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/07/ah-bonaparte-parte-1-de-2.html' title='Ah, Bonaparte! (Parte 1 de 2)'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>29</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-3352459184036510907</id><published>2009-07-29T20:40:00.002+01:00</published><updated>2010-04-28T12:56:17.190+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Este país não é para velhos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Quanto custa pagar?</title><content type='html'>&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;O texto anterior ao aditamento foi publicado no dia 28/7/2009 pelas 13H10&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esqueci-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha de pagar uma factura da EDP... Esqueci-me...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que já há essas modernices do débito em conta... E eles querem. Mexer-me na continha, a seu bel-prazer... Sei que querem. Não deixo! Uma empresa milionária, a mexer-me nos trocos... À vontade. Até me dá calafrios...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então vou ao &lt;em&gt;multibanco... &lt;/em&gt;(Assim, em itálico, então não?...) Vou, quando não me esqueço. Desta vez esqueci-me. É fácil, é moderno, é tecnológico. Mas esqueci-me!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Instalou-se-me o pânico... E agora? Lá fui, à procura do edifício onde se encontravam, por tradição, as dignas instalações da suprema entidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já não. Agora tinham mudado, dizia o papel afixado no vidro: "Loja do Cidadão". Para o espaço comercial, recém-remodelado no centro da cidade. Olhei o relógio, do telemóvel... Ainda tinha tempo de parquímetro. Andei. Entrei no tal espaço, aberto ao público há... anos. A minha primeira vez, ali. Ora "Loja do Cidadão"... Não estava assinalada nas placas. Cá em baixo rodeava-me o mercado municipal, uma panóplia de lojas em riste, em suma, nada do que eu queria. Rodeei o espaço, cheirei o peixe, as hortaliças, a fruta. Olhei para o tecto, lá acima, como que a pedir a um deus que não conheço. Lá estava... Todo o andar de cima era a tal "Loja do...". E pensei que se calhar uma cunha do tal a quem não pedi, mas que me deu, talvez acabasse por dar jeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora escada rolante... Vá... Já sabes que não cais... Lá fui! Não era do lado direito. Fui para a esquerda, do outro lado do prédio imenso. Está bem, afinal temos de ter alguma paciência para lidar com as instituições. Um sorriso feminino aconselhou-me a tirar uma senha e dirigir-me para o corredor à direita, ao final, que era lá... Pois sim, é fácil. Algumas cadeiras ocupadas. Um lugar livre... No quadro o número 39 estaria lá sentado. Olhei para a minha senha... 40.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A jovem perguntou-me se eu era o número 39. Não... Sou o CybeRider, a minha senha é o número 40. Esperei alguns minutos... Pareceram quase uma hora, sossegadito, em silêncio. Subitamente o número mudou para 40 no tal visor, aquele ali bem ao cantinho. Pulei da cadeira onde me tinha acabado de sentar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"- Venho liquidar a factura. Mas está fora de prazo." Afinal que não. Ainda perguntei, mas isto é a EDP, não é? Que sim. Mas que a factura tinha de ser paga num agente, porque nas &lt;em&gt;payshop &lt;/em&gt;(o que quer que isso fosse) só dentro do prazo, mas que para minha felicidade estava um quiosque verde ali mesmo, logo ali, ao descer da escada e à saída da porta principal por onde eu entrara, que ela vira por onde eu entrara, claro que vira, a mim e à minha aura brilhante e resplendorosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui escada abaixo! O quiosque... Mais não era que o quiosque de jornais, centenário, agora com revistas da moda, e de moda, menos de lavores, mais de tecnologia e coscuvilhices, jornais carregados de desastres e política. E a fila, uma fila, como a que não havia na "Loja do...", mas ali era para o &lt;em&gt;totobola. &lt;/em&gt;Talvez para o &lt;em&gt;euromilhões&lt;/em&gt;, pois acho que agora é mais isso. Uma senhora baixinha entrou e atirou com o dinheiro para algures no espaço, tirou um Correio da Manhã e partiu esvoaçante apregoando que tinha de tirar um bilhete para a identidade, às vezes também procuro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram só mais 15 minutos. Olhei para o relógio, pensei no parquímetro. E na &lt;em&gt;Emparque.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Ainda recordei com satisfação a menina do &lt;em&gt;guichet &lt;/em&gt;da EDP, na "Loja do...", ali pela fresca, a olhar para a cadeirita vazia à sua frente e a fazer saltar os utentes da cadeira da sala de espera, à medida que lhe aprazia carregar no tal botão, naquele intervalo, em que se cansasse de sentir a frescura e de olhar para o vazio. Que rica vida!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"-Fáiche fávô sinhô?..."&lt;br /&gt;"-Para pagar isto."&lt;br /&gt;"-Djinheir ú chequi?"&lt;br /&gt;"-Dinheiro."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi fácil. Foi assim como antigamente. Chegava à EDP e estava 20 minutos na fila. Não havia ninguém perdido. A fila não era para o totobola, nem para o tabaco. Todos sabiam que para pagar a EDP, em primeira e última instância, seria na EDP.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, fiquei a saber, para pagar a EDP. É como comprar a lotaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_______________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aditamento: Em 29/7/2009 pelas 14H00 recebi uma carta da EDP, a informar que, caso o pagamento da minha factura ainda não tenha sido efectuado, poderei utilizar os meios comuns de pagamento, enviam-me um novo código para pagamento pelo &lt;em&gt;multibanco...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Gastaram recursos deles, dos correios, do quiosque, quase uma hora - talvez mais, ainda não avaliei as consequências por inteiro - de um dia do meu trabalho, porque o código inicial não funcionava ao fim de quatro dias, e agora mandam-me outro código para pagar o mesmo valor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os códigos da PT permitem pagamento após alguns dias... Os da EDP não, eles repetem o envio, outra carta (no meu caso inútil), com novo código.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paguei ontem... Escusava de me ter chateado. Para a próxima, não me vou chatear, não vou pagar até que me mandem novo código. Aprendo a cada dia. E assim o país avança... devagar... devagarinho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-3352459184036510907?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/3352459184036510907/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=3352459184036510907&amp;isPopup=true' title='23 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/3352459184036510907'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/3352459184036510907'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/07/quanto-custa-pagar.html' title='Quanto custa pagar?'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>23</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-744180317492954771</id><published>2009-07-19T18:00:00.005+01:00</published><updated>2009-07-19T20:28:53.399+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Bom dia, Mr. Magoo!</title><content type='html'>Os meus óculos ridículos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde cedo me envergonharam. Quantas vezes me apontavam a dedo, e riam-se na minha cara. Quantas vezes por isso os tirei, e deixava de ver o Mundo. Seguia às apalpadelas, à espera que me guiassem, por caminhos que não conhecia. Aí ninguém se ria, faziam-me acreditar que ia pela trilha certa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caí. Esfolei os joelhos. De novo o riso... Agora pelas minhas mazelas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por maldade me enganaram, sempre que os não tinha. Poucas vezes cheguei, portanto, a horas ao meu destino. Sempre incógnito. Por vezes tarde demais, também àqueles que me foram comuns a tantos, que fizeram comigo longas caminhadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há porém os que me aceitam, sem embaraços. Acompanham-me pelas ruas onde alguns me caem aos pés, mortos de riso. Olho-os, a esses meus companheiros, nos olhos; enquanto encolhem os ombros sem compreender o efeito que causo, em quem nunca me viu. Ficam tristes, penso. Não é bonito rirmo-nos dos defeitos de alguém. Aceitam-me, com as minhas fraquezas; embora achem que as minhas lentes já me distorcem as coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estão muito velhos os meus óculos, as hastes mal se seguram, as lentes têm muitos riscos, adquiriram uma pátina, do tempo. As suas armações exuberantes, de cores esdrúxulas, dão-me um ar ridículo, muitas vezes. Sem que compreendam que, sem eles, não vejo nada. Já não tento, também por isso, que me vejam sem eles. Nem mesmo no meu campo de girassóis, onde passeio tantas vezes. Lá, nem procuro já distinguir a cor viva das pétalas. O meu campo de girassóis é todo cinza. Uma realidade a preto e branco que as fotos teimam em registar as cores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só os meus óculos me permitem ver essa realidade, exactamente com as cores que não tem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chego a acreditar que quem me conhece já nem repara que os trago. Não é raro ouvi-los dizer: "Nunca te vi de óculos...". Nessas alturas, quem se ri francamente sou eu, é nesses momentos que sei que cheguei ao meu porto seguro. E alguns até se arriscam a deixar-se guiar por mim. Aí, fico tentado a confessar-lhes a verdade. Sinto que lhes deveria dizer que os caminhos que sigo com estes meus óculos, os únicos caminhos que consigo de facto destrinçar, não são os mais directos, nem os mais seguros, mas apenas os únicos que consigo percorrer com alguma certeza. Talvez os mais longos e íngremes, muitas vezes os menos óbvios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Simplesmente os que me permitem chegar a um destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À noite, finalmente, guardo-os na caixinha, de dobradiças já carcomidas; e adormeço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonho... Vejo-os. Uma multidão que se ri e me aponta. Lembro-me de cada rosto que se repete, sempre da mesma maneira, nesse meu pesadelo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontro-me nu, num imenso campo de girassóis cinzentos onde apenas a armação nos meus olhos brilha. E eles encontram-me pelo brilho e seguem-me, seguem-me todos para um abismo enorme onde serei o primeiro a entrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vêm sequiosos, como feras famintas, querem ver-me cair do cimo do penhasco; uns trazem máquinas para registar o momento, outros vão tirando apontamentos. Não consigo parar, a minha queda será inevitável, naquele abismo imenso, naquela boca imunda e fétida que se abre a metros escassos dos meus passos compelidos e inseguros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, oiço um ruído cavado. Olho para trás, ainda a medo, e vejo-os a todos caídos. Alguns levantam-se contundidos e confusos. Nenhum conseguiu ver o obstáculo que saltei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho para o abismo, que se abre a curta distância e volto a olhar para eles. Todos esfolaram os joelhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rio-me, rio-me mesmo muito, por fim. Vejo-lhes os esgares de espanto. Apreendo que todos caíram por não terem afinal, uns óculos iguais aos meus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-744180317492954771?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/744180317492954771/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=744180317492954771&amp;isPopup=true' title='18 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/744180317492954771'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/744180317492954771'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/07/bom-dia-mr-magoo.html' title='Bom dia, Mr. Magoo!'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>18</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-6968709860929807035</id><published>2009-07-14T22:00:00.005+01:00</published><updated>2009-11-04T19:22:00.193Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Um momento na vida de Lucky Luke</title><content type='html'>De todas as personagens de Morris, a que sempre me deu maior satisfação foi a do &lt;em&gt;Cowboy Solitário.&lt;/em&gt; Os textos de Goscinny faziam jus aos bonecos; o que resultava, como sabemos, numa das bandas-desenhadas de qualidade mais reconhecida de sempre.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me de devorar as aventuras do dito, e de viver cada vinheta como se a tencionasse transpor para a realidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pequeno momento que refiro é, por tudo isso, intemporal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luke deixara o Jolly Jumper junto a uma árvore à entrada do &lt;em&gt;saloon.&lt;/em&gt; Lá dentro, comia-se, bebia-se, falava-se. Espiras de fumo ocasionais percorriam o ambiente levadas pela brisa do entardecer. O pianista não tinha comparecido. Luke pegou na viola e começou a entoar uma balada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela aproximou-se, juntou a sua voz potente e maravilhosa. Aos poucos a voz de Luke deixou de se ouvir, acho que ele não tinha afinal tanto jeito para a música, porque a viola se calou também. Em minutos era apenas a voz dela que entoava pelo salão. O pequeno, de cabelo encaracolado e uns olhos lindos de arcanjo, sentara-se havia pouco tempo junto deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escutava atento, também ele, aquela voz melodiosa de beleza ímpar. Olhou-a nos olhos e, com a honestidade que só as crianças têm, e talvez a tentar interpretar o olhar cúmplice daqueles dois, perguntou: "Mãe, estás a tentar seduzir o Luke?..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela, sem interromper a balada, talvez à espera de uma reacção à altura, olhou para Luke; que mudara de cor; que olhava agora para o lajedo do chão, enquanto afagava o Rantamplan; enquanto tentava engolir um &lt;em&gt;impossível&lt;/em&gt; do tamanho do Mundo, e com esse &lt;em&gt;impossível&lt;/em&gt; também todas as frases que justamente demonstrariam ao pequeno que a mãe dele, por ter além do atributo da voz também os outros; de ser linda, inteligente, e jovem; não haveria nunca de precisar de seduzir quem quer que fosse, pelo simples facto de que qualquer homem ficaria logo seduzido, apenas pela presença dela. No balão da vinheta ficaram apenas as reticências que emanaram da voz do Luke.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luke, que fora o pistoleiro famoso que conhecemos, já raramente ensaiava o tiro, a sua sombra que ele batera em rapidez tantas vezes, era agora a mais rápida, e ele tentava apenas segui-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também naquele dia a sombra o levou por um caminho dúbio, onde ele ficou sem resposta adequada, sentindo que mais um pouco da sua juventude se esvaía naquele cenário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saiu do &lt;em&gt;saloon&lt;/em&gt;, montou o dorso do Jolly Jumper. Sem olhar para trás, seguiu o seu destino. Quem tivesse boa audição ainda o poderia ter ouvido a cantarolar ao longe:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;"I'm a poor lonesome cowboy... And a long way from home..."&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-6968709860929807035?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/6968709860929807035/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=6968709860929807035&amp;isPopup=true' title='28 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/6968709860929807035'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/6968709860929807035'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/07/um-momento-na-vida-de-lucky-luke.html' title='Um momento na vida de Lucky Luke'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>28</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-1291073623532566365</id><published>2009-07-05T17:45:00.000+01:00</published><updated>2009-07-05T17:50:30.830+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Moto-contínuo</title><content type='html'>Observo o langor da queda daquele bago de areia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito lentamente cai, seguido de outro e outro ainda. Perco-me algures na contagem. Penso na vida, nesta paragem de autocarro, sem saber o destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho em redor, cada um na sua paragem. Ínfima...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada um, dos que aguardam, poderia tentar contar cada grão de areia que cai. Cada um opta por acompanhar as notícias. Cada um opta, também, por cultivar um pequeníssimo inferno à sua volta. Ninguém quer saber do grão de areia que existe apenas para cair. Ninguém se importa acerca do sentido da sua própria existência, ou da subjectividade que anteviu a sua própria criação, nada se questiona, nada parece incerto; sujeitos a uma queda igualmente imprevisível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A velocidade do pequeno grão de areia, que parece elevada, demora exactamente o necessário para chegar de um ponto a outro; nem mais, nem menos. Perfeito no seu desígnio, sem falhas, sem acidentes. Um olhar atento revela porém que é muito lento. Naquele percurso singelo, os potenciais observadores cansam-se de aguardar o autocarro que não chega, que no entanto não querem que chegue, por não lhe conhecerem o destino; outros surgem como que de parte nenhuma, outros há que embarcam para parte incerta. Num mundo coberto de paragens de autocarro, o percurso do grão de areia, que ninguém vê, que ninguém chama pelo nome, é uma eternidade. Hoje estou a vê-lo cair... Devagarinho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Observo o frágil balão de vidro, como um ventre inchado de uma Vénus paleolítica, que num parir constante vai fecundando o outro, em baixo, até que se esgote toda a areia que, no entanto, não tem fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Compreendo a importância de cada grão que nasce indiferenciado de tal mãe e que parte para o desconhecido, num movimento perpétuo. Adivinho o temor em cada um, ao passar por aquele estreito ponto da segurança da matilha imensa para o seu salto singular. Sinto-lhe o palpitar acelerado até se voltar a reunir com os irmãos ao fundo do abismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinto-lhe a amnésia também, que o fará cumprir o destino, enquanto a minha mão for dando voltas à bela estrutura, cheia de saber.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, em vez de me sentir um deus, sinto-me afinal um grão de areia que teima em desconhecer, ou em não aceitar, que lhe dão voltas à vida. Mas não daqueles, antes dos que, um a um, cheios de protagonismo, emperram a perfeita engrenagem do mais perfeito relógio de corda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A meus pés, o carreiro de formigas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-1291073623532566365?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/1291073623532566365/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=1291073623532566365&amp;isPopup=true' title='26 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/1291073623532566365'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/1291073623532566365'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/07/moto-continuo.html' title='Moto-contínuo'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>26</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-3776280560493501662</id><published>2009-06-29T23:55:00.003+01:00</published><updated>2010-04-28T13:08:28.595+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Duelo ao Sol</title><content type='html'>"Eles eram três.&lt;br /&gt;Dois castelhanos e um holandês.&lt;br /&gt;O holandês, forte e feio, saca das pistolas...&lt;br /&gt;Zás! Pás!&lt;br /&gt;Pensam que os matou?...Não!...&lt;br /&gt;Vou contar a estória, como se passou..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No original, este início repetia-se como na do Repete, que tinha um irmão chamado Repete Repete, e outro chamado Repete Repete Repete; indo o Repete Repete e o Repete Repete Repete com a mãe às compras, qual é que ficava em casa?... Pois...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pior que estas só a da formiga que prendeu um pé na neve, que deixo para outro dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na minha versão porém, menos monótona talvez, o desfecho é diferente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles eram três.&lt;br /&gt;Dois lusitanos e uma princesa.&lt;br /&gt;A princesa, esbelta e astuta...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E neste passo deixo-me de rimas porque, além de mentir, iria desvirtuar a beleza do texto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O momento acontece numas férias de Verão. Sob o Sol abrasador, lugar comum em que a estrela imensa não se refugia, mas nos obriga a nós a procurar um lugar fresco e sombrio. Seguiram juntos até à esplanada, junto à piscina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gelados, aguinha fresca, dois dedos de amena cavaqueira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois lusitanos que eram amigos pensavam, cada um a seu jeito, que o controle da situação lhes pertencia. Aquele duelo ao Sol não se desenrolava aos olhos de um juiz, nem houvera, ainda, bofetadas com luva branca. Sentados em traje balnear, fingiam aguardar a digestão para o apetecível mergulho no lago azul de onde irradiavam os brilhos dourados que os deveriam atrair para o objectivo inicial, aquele que servira de argumento para o encontro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabiam-no ambos. Só um poderia sair daquela situação de queixo erguido. Um deles ganharia o troféu; o outro, trespassado, abandonaria para sempre o cenário pré-idílico que se adivinhava entre os dois restantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A conversa foi-se alongando, sempre afável, amena, prazenteira. Um verdadeiro momento de quase pura amizade que todos, mesmo a princesa, sabiam não poder acabar assim. Os risos, os sorrisos, os espantos, os olhares dos três, disfarçavam a guerra aberta que se travava em cada sílaba que emanava de dois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A digestão, essa, não era já desculpa para coisa nenhuma. Amigos como eram, os lusitanos recusavam-se ambos à estocada mortal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subitamente a princesa, altiva e soberana, lançou o repto. "E se fossemos dar uma volta?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Penso que dois lusitanos nunca terão tido ideia tão semelhante a cruzar-lhes a cabeça. Antes a morte, verdadeira e definitiva, que o abandono da contenda sub-reptícia que se desenrolara até ali, de forma tão inglória. Mas se tivesse de ser, iriam ambos aos confins daquele mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi então que a princesa, sábia, majestosa, olhou para um dos lusitanos e disse: "Podes ficar a tomar conta das toalhas?..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foram... Ela e o outro, em direcção ao horizonte verde e fresco da imensidão do amplo jardim que se estendia até ao final do entardecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não foram contudo felizes para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anos mais tarde, os lusitanos encontraram-se. Antes de se trocarem os detalhes dos destinos até aquele dia, aquele que ficara com as toalhas olhou o outro (que pensava já ter esquecido tudo o que havia para esquecer, por muita água levada a muitos moinhos) nos olhos, e timidamente disse-lhe: "Sabes, sempre cheguei a andar com ela..." Mas o outro, antevendo-lhe a mesquinhez, já lhe voltava as costas, afinal talvez a recordar algumas tardes que, para ele, não se tivessem ainda perdido no tempo, essas sim dignas de nota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há segundas escolhas que ficam bem melhor por referir... Ou caladinhas, ou assim...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-3776280560493501662?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/3776280560493501662/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=3776280560493501662&amp;isPopup=true' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/3776280560493501662'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/3776280560493501662'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/06/duelo-ao-sol.html' title='Duelo ao Sol'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-7420747175705280844</id><published>2009-06-26T14:54:00.003+01:00</published><updated>2010-04-28T13:14:35.259+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>É a última vez que bato num morto</title><content type='html'>Para um republicano, a morte de um rei é algo bastante inócuo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o rei ocupa o cargo por sufrágio directo e universal, sem lhe correr nas veias o sangue azul da destrinça, haverá talvez que avaliar de que lado colocamos os sentimentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelas imagens, previsíveis, da multidão maioritária à volta das exéquias do Rei da Pop, pergunto-me que semelhanças terei com esses meus irmãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gosto de música, &lt;em&gt;pop &lt;/em&gt;também em consequência. Não posso dizer que tenha vibrado ao som do &lt;em&gt;Thriller&lt;/em&gt;. Aqui começo logo a sentir-me minoritário, afinal foi o mais vendido de sempre, eu não comprei...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouço os elogios ao génio, classificação que aceito em termos genéricos, mas que não reconheço nos confins das minhas preferências. Interrogo-me sobre que razão me levaria a uma eventual homenagem póstuma. A quem? Ao músico genial, esquecendo o ser humano hediondo? Assim como homenagear um féretro com um braço, voltando costas ao que contém o resto do corpo? Como separar as coisas e manter a minha integridade com os meus princípios?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu lado comezinho, não dissocia neste caso, a imagem do músico da daquele ser estranho, da personalidade controversa, antropofóbica, depressiva, birrenta, inconsequente, mariconça, prepotente, egocêntrica, frágil no pior sentido, de argumentação incongruente e desconexa, que me atiçava a mais sórdida repulsa sempre que aparecia nos meios de difusão social.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na minha forma simplista de introspeccionar esta reacção alérgica, descubro sem espanto que o meu subconsciente me dita que aquela pessoa nunca me seguraria num braço para me evitar uma queda num precipício, porque teria medo que lhe germinasse algo de estranho que o levaria a uma morte certa. E por mais que me esforce, isso para mim é razão suficiente para justificar tudo o que não sinto pelo seu desaparecimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso a somar à falta de estima que teria de si próprio, que me é também um factor de depreciação; a confusão com que tentou iludir a natureza, que o tornou também único, onde confundiu cores, misturou conceitos sem nunca saber colocar o preto no branco, tornando-se assim aos meus olhos o mais xenófobo de todos os humanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Louco, talvez, mas sem a loucura que advém da genialidade. Antes daquela de quem perdeu tantos neurónios que deixou de se distinguir das coisas irracionais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem deixar de sentir que este texto me empobrece e me desgasta como ser humano, tenho contudo de admitir dois méritos ao defunto: o de, por vontade própria ou falta de habilidade, não nos ter escondido nunca as taras que o enformavam. Nesse aspecto, mais honesto ou incauto, do que eu. Noutro plano, o de ter tentado mostrar ao Mundo que é possível acreditar em sonhos e tentar transformar a vida de forma a realizá-los. Por não ter como super-herói o Peter Pan, não deixo de homenageá-lo por isso. E aqui começo a pensar se não estarei a ser injusto...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O seu desaparecimento exalta-me a tristeza que sinto pela morte do aspirador, do micro-ondas ou de um candeeiro de salão. Irrita-me até talvez, como me inquietaria ver que me fariam um funeral milionário a algum desses apetrechos, mas principalmente que isso se converteria em dias de trabalho para todos os jornalistas do Mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E porque não compreendo o que sente aquela turba a que não me anexo, e porque ao repudiar o "Rei da Pop" me torno ainda mais impopular, sinto de facto a solidão que me persegue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E acabo por concluir com algum sentimento:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morreu o Michael Jackson, ficarei assim mais sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Tivesse eu reduzido o texto a esta última frase...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-7420747175705280844?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/7420747175705280844/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=7420747175705280844&amp;isPopup=true' title='23 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/7420747175705280844'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/7420747175705280844'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/06/e-ultima-vez-que-bato-num-morto.html' title='É a última vez que bato num morto'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>23</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-3280496404731576103</id><published>2009-06-23T00:40:00.014+01:00</published><updated>2011-11-20T22:47:14.582Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>O par de botas</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: left;"&gt;É pungente ver um militar a chorar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;Por coisas que não vêm ao caso fui, há muitos anos, incorporado num esquadrão de cavalaria. Nos quatro meses que durou a instrução militar ocorreram diversas vicissitudes inerentes à aprendizagem e adequação dos mancebos com o objectivo de tornar aquele grupo, absolutamente heterogéneo, numa unidade de combate uniforme e digna.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;Os laços de camaradagem que se foram naturalmente desenvolvendo, e moldando aquelas personalidades muito jovens, parceladas em características individuais distintas, rapidamente tenderam a uniformizar-se num espírito de entreajuda exemplar.Vistos alinhados na parada, ninguém lhes imagina muitas vezes a perícia requerida para a apresentação a preceito, as horas de tentativas goradas no apuramento do rigor técnico da marcha, do aprumo da postura, da cuidada exibição do fardamento.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;O Nascimento, nunca conseguiu atingir os mínimos olímpicos que o qualificassem como um militar mediano. De botas baças, fivelas e crachás untados, aliados ao visual estranho dos óculos de lentes grossas, seria a antítese do militar perfeito.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;Recordo-me de uma ocasião em que fazíamos os últimos preparativos para a última formatura do dia. Aquela que antecederia o prémio de podermos passar o ansiado fim-de-semana fora do aquartelamento. Com o apuramento das técnicas aprendidas, o grau de exigência dos oficiais também aumentava quanto ao aprumo requerido, sendo sobejamente sabido que qualquer deslize anormal poderia alterar a permanência, de dois dias de sonho, em dois dias dentro da unidade de pesadelo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;Pela porta da sentina ouvi um soluçar... Aproximei-me devagar e vislumbrei o Nascimento agarrado às botas. As mãos farruscas, a escova entupida de uma massa preta, o suor a escorrer-lhe pela testa...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;- Então pá, que é lá isso?... Vá, tem calma!...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;Balbuciou qualquer coisa imperceptível. Aproximei-me mais um pouco, para tentar ouvir, enquanto perscrutava se não se teria ensandecido de vez. Perante a minha segunda ou terceira insistência, já preparado com o meu manual mental de psicanálise de bolso, consegui extrair-lhe a temida confissão:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;- Não consigo... Não sei engraxar as botas... Desta vez não me safo...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;Não vos disse que o Nascimento era médico, pois não?... É que de facto era. O senhor doutor, que se tinha atrapalhado com os papéis ao ponto de estar "naquele" curso de milicianos, que se atrapalhava com o abotoar da camisa, que era sempre o único com o passo certo na formatura, e pelo qual fizemos tantas flexões que as mangas das fardas já se queixavam para nos acomodar os braços, estava a ter uma crise de identidade com as suas lastimosas botas, sem compreender que assim, às três pancadas, é que assentariam bem.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;- Dá cá as botas, pá. Repara!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;Disse-lhe, num tom paternalista. E engraxei-lhe as botas... Como se fossem as minhas, talvez até melhor! Mostrei-lhe como fazê-lo, e mascarrei as minhas mãos na bedunguice com que ele as maculara.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;O Nascimento... Que no dia seguinte já nem me reconheceria entre os outros camaradas. O Nascimento... Sempre aluado e perdido no seu mundinho de cientista louco.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;Sóis e luas sucederam-se muitas vezes, um ano passou pelo outro... Baralhei-me por cidades e vilas. Ora eu teria vinte e dois... Sete anos mais tarde, quis a natureza dar-me uma razão de existir.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;Recordo-me da alegria do dia em que saímos, ela e eu, com essa razão nos braços, para a primeira vez a céu aberto. Passámos a porta da maternidade, entrámos no carro, aconchegámos a alcofinha e fizemo-nos ao vento cálido de Verão.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;A questão surgiu mais tarde, quando ela me disse:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;- Olha lá, para matar a sede, eles davam um soro ao bébé, mas não faço ideia que soro era...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;Centro de saúde. À saída, ela trazia um ar de espanto. Eu ficara no carro. Ela conhecia-o, eu já o apontara na rua. Tinha sido "o Nascimento" que, com tanto país, tinha incompreensivelmente vindo morar para a mesma capital de distrito que eu, a atendê-la no Centro de Saúde. E dissera-lhe que... "soro... soro... soro..." E conforme ela me descrevia a coisa, eu imaginava as mãos dele, a enegrecerem-se-lhe de graxa. "...só se for soro fisiológico!..."&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;Ora, soro fisiológico, como saberão, é água com cloreto de sódio; que eu não sou médico, eu estive no curso certo de milicianos, não por minha vontade, mas estive. Em suma, água salgada.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;É dos livros, que beber água salgada, se for muita, de modo continuado, faz mal... Calculo que a um recém nascido fará pior.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;Fomos calmamente a uma farmácia, onde o doutor, este genuíno, nos esclareceu que o soro glicosado do hospital era para substituir com aguinha fervida, que no entanto muitos bebés se contentavam com o leitinho. Pois, o meu não.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;Ensinei bem, ao Nascimento, como engraxar as botas. Nunca teve de ficar lá nenhum fim-de-semana, pelo menos por causa disso...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;Naquele dia desejei que não, confesso. Desejei, não lhe ter escutado os soluços, que ele tivesse levado as botas emboladas de massa para a formatura, que tivesse ficado lá castigado naquele dia, e que com a depressão se tivesse enforcado com o cinto, que não sabia enfiar pelos passadores das calças!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;Assim, vou sempre lembrar-me que na sequência do nascimento do meu filho, tive de o salvar de outro Nascimento, esse que soneguei a um fim talvez merecido, que viabilizei em contranatura.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;Como se alguém pudesse imaginar que, ao engraxar aquele par de botas, estaria a pôr-me a jeito de arranjar o meu.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-3280496404731576103?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/3280496404731576103/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=3280496404731576103&amp;isPopup=true' title='24 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/3280496404731576103'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/3280496404731576103'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/06/o-par-de-botas.html' title='O par de botas'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>24</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-221208569040325395</id><published>2009-06-18T23:45:00.002+01:00</published><updated>2010-01-02T03:36:08.763Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Disfunção eréctil</title><content type='html'>Há quem também lhe chame falta de inspiração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhamos para esta folha em branco e ficamos a pensar se algum dia voltaremos a conseguir preenchê-la, com aquelas ideias luminosas de antigamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há maneiras fáceis. O recurso à pornografia pode ser uma. Podemos pegar num matutino (leia-se televisão, rádio, internet) e agarrar a via imediata da crítica aos políticos, aos jornalistas, aos comentadores. Pode falar-se de futebol, de Fátima, do fado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quando se pretende um desempenho perfeito, há que ter em conta os preliminares que nos conduzem com mais segurança ao ambicionado êxtase. Há que acariciar cada curva de cada palavra, passar a língua pelos conceitos mais audazes, beijar cada concavidade do imaginário, vibrar com cada metáfora que arrebita, gemer com as hipérboles menos óbvias. Há que gostar do paladar do suor que brota da refega... (Sentem?... O palpitar destas reticências?...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não será de seguir o trilho de imaginar o "como" do funcionamento da coisa. Quanto mais pensarmos "como" vai acontecer, mais depressa nos iremos deparar com a inibição, com o fracasso, com a desilusão de constatarmos que, afinal, já não é como dantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem de ser incontrolável, inexplicável, irracional mas simultaneamente consciente. Uma força anímica que não se comanda nem se compreende. Que existe, e pronto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto mais racionalizarmos a possibilidade de vir a acontecer ou não, mais somos levados a práticas onanísticas que só dificultam as coisas. Pensamos nos assuntos, gastamos os temas antes de os transpormos para aqui, e concluímos que à altura de tentarmos brilhar com o nosso desempenho, já nos falta a motivação que queimámos egoisticamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A leitura do que os outros escrevem transforma-se nas imagens e sons indecorosos e imorais que nos apaga a libidinosa veia literária e, quanto maior a qualidade do que lemos, mais dúvidas teremos de que o nosso desempenho venha a estar à altura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É aqui que admiro o &lt;em&gt;gigolo&lt;/em&gt;, que consegue a performance desde que lhe paguem. É que, comigo, nem que me paguem a coisa resulta!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei como é num cérebro feminino. No meu funciona de facto num paralelismo atroz. Quanto mais pensar nisso menos hipóteses terei de sucesso. Sei, por aprendizagem e constatação, que há-de vir o dia em que tudo se normaliza, em que conseguirei o tema orgástico que fará de mim o herói da noite; aos meus olhos, pelo menos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É a angústia de não lhe saber o"quando" que me atormenta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim fica-me sempre a dúvida. Sei que para alguns foi demais, para outros não chegou para começar. Inquieta-me a precocidade que resulta dessa ansiedade em provar que "posso".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ainda não inventaram o &lt;em&gt;Viagra&lt;/em&gt; de que preciso. Aquele que provoque aquela Tensão Uniforme Singularmente Agradável (&lt;em&gt;TUSA&lt;/em&gt;) para as ideias que me faltam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resta-me desejar que tenha sido tão bom para vocês, como foi para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-221208569040325395?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/221208569040325395/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=221208569040325395&amp;isPopup=true' title='19 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/221208569040325395'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/221208569040325395'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/06/disfuncao-erectil.html' title='Disfunção eréctil'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>19</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-8199261358250603836</id><published>2009-06-15T23:10:00.005+01:00</published><updated>2010-01-13T19:44:26.416Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Com dedicatória'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Blind Date</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Ao &lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;a href="http://cabradeservico.blogspot.com/"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Cabra de Serviço&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os anonimatos com que por vezes nos resguardamos servem muitos fins.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já presenciei algumas opiniões acerca dos escritos anónimos que enchem a blogosfera. Já vi defender que o pseudónimo que nos protege é uma forma de nos ocultar de intenções malévolas e que constitui uma forma de anonimato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho defendido que nos ocultam de quem pretendemos ficar ocultos. Principalmente daqueles para quem o nome verdadeiro não terá nunca qualquer importância, nem o que fazemos, porque nada disso é o que somos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve um telefonema, um encontro marcado. Um "talvez" que saiu dos lábios, no lugar do sim que de imediato baqueou no coração. Uma chave na ignição, alguns quilómetros. Receio? Talvez, o de poder não estar à altura, o de poder não corresponder a expectativas que se tivessem criado em quem convidou. Nada mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A meio percurso a sensação de que me dirigia de facto para um "blind date".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada mais errado. Ocorreram-me as recomendações de pai. O exemplo contrariado que teria de lhe justificar... Mas como?... (Ele há-de ler este texto. Compreenderá a diferença.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente estava entre amigos de longa data. Faltava apenas saber quem era quem. Já os admirava a todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tantos momentos já partilhados entre pseudónimos e longe de uma realidade que nos atrofia. Tantos textos escritos e lidos, trocados numa base quase diária. Textos que dizem mais de nós que todas as conversas que a medo vamos entabulando com muitos dos que nos ouvem, estes de quem conhecemos nomes de registo, e profissões. Estes de quem ocultamos facetas mais intimistas, opiniões sinceras e excêntricas, por sabermos que teremos de conviver com eles por mais uns dias...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ali não. Ali, estavam aqueles com quem partilhei segredos que expus para sempre em público e que aqui permanecerão. Estas ideias para as quais não temo consequências, nem concórdias nem discórdias. Ali estavam desses, apenas. Que me toleram como de facto sou, com as minhas diferenças, a minha individualidade talvez estranha, que me conhecerão melhor que muitos que convivem comigo passo a passo, que julgam saber quem sou mas que não me lêem o que aqui confesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez por isso, vi-os sem inibições.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez por isso não falámos de profissões. Despedimo-nos por fim...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda hoje não lhes sei os nomes de registo, nem onde trabalham, nem quanto ganham, nem em que lojas vestem, nem que carros conduzem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que enquanto estive com eles estive na segurança de amigos que somos. Mas sei sobretudo que, afinal, já os conhecia a todos, bastante bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um "blind date" não é isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-8199261358250603836?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/8199261358250603836/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=8199261358250603836&amp;isPopup=true' title='21 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/8199261358250603836'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/8199261358250603836'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/06/blind-date.html' title='Blind Date'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>21</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-4037109717023962362</id><published>2009-06-09T01:05:00.004+01:00</published><updated>2010-04-28T13:27:52.778+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Meninos e meninas - Epílogo</title><content type='html'>Apanhei as hormonas com a revolução.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como uma virose peçonhenta agarrou-se-me às entranhas e nunca mais voltei a ser o mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda hoje confundo por isso a sensação de me revoltar contra factos políticos com a rebelião geracional descontrolada. Quando penso em política fico dividido, entre os juízos que faço serem à luz de ensinamentos pós-revolucionarios ou meras retrospectivas saudosistas da minha adolescência. Talvez até por isso o antagonismo político em geral me pareça, cada vez mais, bastante infantil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha revolução interna, e suas consequências, compactuaram com mudanças sociais profundas. Se por um lado combati com fervor a minha timidez, em obediência a uma líbido exacerbada, fi-lo em paralelo com a aceitação implícita da destruição de valores românticos que a sociedade de então debelava, em prol da emancipação feminina e do eliminar progressivo, que ainda presenciamos, do conceito do &lt;em&gt;bonus pater familias&lt;/em&gt;, ou a sua ampliação para um contexto mais vasto e justo do reconhecimento desejável de uma &lt;em&gt;bona mater familias&lt;/em&gt;. O solavanco que o poder masculino levou no seio familiar, permite que surja a aplicação de todo um conjunto de direitos exercidos pelas mulheres em desprestígio do que foi considerado senso comum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moda acompanhou estas alterações pouco subtís. A maneira feminina de vestir, que definia na cabeça do homem uma multiplicidade de conceitos sexistas acerca de qualquer visada, abandonou arquétipos, confundindo subitamente a forma como o macho desta espécie passou a olhar para o sexo oposto. Posteriormente, durante alguns anos, a toilette mais arrojada definiu, para uma camada mediana pouco esclarecida, algumas pessoas do sexo feminino como autênticas almas levianas aos olhos da sociedade, apenas pela forma como exibiam de forma mais liberal os seus melhores ou piores dotes físicos, conforme partilhavam costumes até então típicamente masculinos, ou como se sentavam a uma mesa de café para uma amena cavaqueira com elementos do sexo oposto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher portuguesa deixou também, aos poucos, de ser vista socialmente como um desejável modelo de todas as vitudes, para se determinar; vindo a partilhar com o homem o protagonismo das vilezas mais mundanas e dos prazeres mais proibidos. Esta profunda reforma social, que recordo se iniciou a par com uma fase crucial do meu desenvolvimento enquanto indivíduo sexuado, não deixou porém que a minha grande admiração pelo sexo oposto esmorecesse, trazendo no meu caso novos desafios que penso que superei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As turmas escolares passaram a ser mistas, o que contribuiu significativamente para desenvolver capacidades de comunicação, e apreciação entre ambos os sexos, desde cedo. A breve trecho assistiu-se a uma mudança relativa na forma como pessoas de sexos opostos, com diferente grau de instrução, conviviam e partilhavam uns com outros os valores típicamente femininos ou masculinos, havendo uma clara tendência de homogenização nos mais instruídos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estas diferenças são ainda residuais na sociedade hodierna. E é nesse contexto que aceito que possa haver quem discuta uma eventual "Guerra dos Sexos" que na realidade não revelará mais que um tremendo equívoco, e eventual falta de poder de análise, face aos valores partilhados por homens e mulheres no quotidiano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os jogos de sedução alteraram-se e os sinais que antes eram explícitos para aproximar pessoas que viviam numa sociedade aparentemente pudenta, hoje servem para ridicularizar os menos atentos. As formas de aproximação são outras, e os valores podem parecer confusos para quem não se actualizou ou não se sentiu no dever de alterar formas pessoais de abordagem, vendo-se estes actualmente em situações que denotam, para desencanto da estirpe masculina, uma total desarticulação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A novidade do comportamento de uma facção, que se encontrava subjugada, para um clima de liberdade relativamente recente, levam a que se questionem capacidades, se comparem desempenhos se analizem comportamentos, face à realidade anterior. Por seu lado as escolhas passaram a ser ainda mais ambivalentes, e hoje as mulheres decidem-nas activa e directamente, de forma por vezes menos monogâmica e por isso mais equitativa, substituindo o poder de mera recusa de que apenas beneficiavam anteriormente, sem que se vejam repudiadas socialmente por isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A meu ver nada permite concluir que algum dos lados possa ganhar uma pretensa guerra, porque não existe, a não ser como forma de masturbação mental. Até que isso acontecesse de novo haveria que desequilibrar direitos, deveres e competências, para um ou outro lado, mas ao ponto em que estiveram no antigamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-4037109717023962362?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/4037109717023962362/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=4037109717023962362&amp;isPopup=true' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/4037109717023962362'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/4037109717023962362'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/06/meninos-e-meninas-epilogo.html' title='Meninos e meninas - Epílogo'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-1930391750330671586</id><published>2009-06-05T01:05:00.003+01:00</published><updated>2010-04-28T13:30:28.892+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Meninos e meninas - Intermezzo</title><content type='html'>&lt;p&gt;Por isso tendes razão!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Vós as que defendeis que os homens são todos iguais. São-no de facto. E raros também.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;São difíceis de destrinçar dos déspotas que não sabem escolher uma parceira como uma parte igual de si mesmos, mas que antes as escolhem como servas que não merecem. São difíceis de separar dos que não têm carácter e que desequilibram as lutas de direitos e deveres, utilizando calúnias e vergando a realidade à sua maneira para obter dividendos questionáveis. Os homens, por justos, lutam apenas com a verdade, equilibram as armas, oferecem o punhal que pode ser a sua derrota, abandonam a própria espada quando o adversário deixou cair a dele, para que a sua vitória seja mais grandiosa e merecida.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;São provavelmente pouco abastados porque a camisa que têm no corpo não é apenas sua mas dos que integram o seu parco clã, pois que têm sempre muito poucos amigos. Também porque são incapazes de subjugar um irmão. As conquistas ser-lhes-ão, por isso, sempre difíceis e solitárias. A palavra &lt;em&gt;romântico&lt;/em&gt; não os adjectiva, define-os.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Não são aqueles que se riem sempre que duas mulheres vão juntas aos sanitários. São os que já aprenderam que eles próprios não têm costas, como tal não precisam de quem lhes tire o autocolante ridículo que alguém lá quis colar; aprenderam que as meninas cresceram num conceito de beleza diferente, não vão juntas por qualquer fetiche desconhecido para eles - que até já os conhecem todos, vão como conselheiras mútuas.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Já os homens não têm conselheiros, podem até ter confidentes, mas nunca recuam nas suas decisões medidas, não pela razão, mas pelo gozo. Quantas vezes já sabemos que a decisão que estamos a tomar poderá ter consequências devastadoras, mas sentimos aquele frenesi que nos atrai para o abismo, incontrolável, incontornável, inebriante, e acabamos por perseguir certa ideia ou atitude apenas pelo regozijo de cumprir um desejo?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Homem é também aquele que exibe o coração à doçura do feminino. É aquele, que guardou aquela admiração por essa força da natureza esplendorosa que o atraiu desde criança, que soube resistir com tenacidade à sua própria e relativa fealdade e nunca desistiu de as amar, mesmo sabendo que nunca poderia ser uma delas. É sobretudo aquele que nunca teve a fraqueza e o pretensiosismo de imaginar que poderia um dia fazer parte desse grupo, até por isso não compreenderá aquele elemento que desistiu e que, no seu tresloucado acto de deserção, o persegue agora com intenções sempre estranhas.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;É também o que aprendeu a linguagem delas, independentemente de levar o dia a olhar para o Sol, ou de picareta na mão a rachar calhaus. A palavra &lt;em&gt;cortês&lt;/em&gt; não o limita, enforma-o. Pode até não ser culto, mas tem de ser sábio.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Por isso, minhas leitoras, se encontrarem um tratem-no com carinho. Dêem-lhe todas as mordomias. Tudo o que ele possa ter das vossas mãos é mais do que merecido. É o culminar da razão de existência de algo muito especial. Ele saberá, sem dúvida, agradecer-vos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Àqueles meus leitores que se preparam para me mostrar o quanto estou errado, restar-me-á dizer que lhes faltarão decerto trilhos a percorrer. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;© CybeRider - 2009&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-1930391750330671586?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/1930391750330671586/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=1930391750330671586&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/1930391750330671586'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/1930391750330671586'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/06/meninos-e-meninas-intermezzo.html' title='Meninos e meninas - Intermezzo'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-8254922090020805010</id><published>2009-06-01T23:45:00.002+01:00</published><updated>2010-04-28T13:35:49.763+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Meninos e meninas - O início</title><content type='html'>Já não me lembro de quando fiz essa descoberta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recordo-me vagamente do desapontamento de não ter encontrado o que procurava mas de me ter resignado a que aquela coisa estranha, talvez um defeito, tivesse de acompanhar-me para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agradável era o que, ligeiramente mais tarde, vim a descobrir noutras pessoas. Cedo me atraiu a beleza encoberta do feminino, escondida nos pequenos corpos sexualmente indiferenciados, como o meu também seria na altura. Terei chegado a ter inveja do que lhes via? Julgo até que sim, já que o que encontrava em mim nada tinha de belo e desejável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui despertando lentamente para o facto de o meu "defeito" poder ser uma vantagem, aquele símbolo de diferenciação tinha afinal uma força que não podia imaginar, patente na sociedade daquele tempo. Comecei a compreender os elogios que amigos do meu pai lhe teciam por ter sido bafejado com um filho varão, as palavras jocosas que me anteviam como um elemento futuro do clã, começou a agradar-me a forma inequívoca como as senhoras me acarinhavam. Ouvi atribuírem-me responsabilidades na defesa da &lt;em&gt;Pátria Mãe&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com uma infância marcada pela bronquite asmática até aos oito ou nove anos e pelo uso do pouco harmonioso calçado ortopédico, que atirava para um canto da rua sempre que podia, não o usei suficientemente pouco para que não conseguisse suplantar o esforço com que tive de acompanhar as parcerias brutas dos meninos do meu tempo, e entrei na adolescência com as mesmas capacidades físicas dos meus "defeituosos" congéneres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais difíceis de suplantar terão sido outras incapacidades que me marginalizavam do grupo dos mais machos, nem sempre por motivos óbvios. Com uma altura generosa para a idade, embora fosse durante muitos anos o mais novo das turmas, era dos primeiros a ser escolhidos para o primeiro jogo de futebol da primeira aula de ginástica de cada ano lectivo. O primeiro... e para mim o último, que dali em diante prefeririam jogar com um a menos do que voltar a convidar-me, até ao ano seguinte. Mas nunca desisti; não era físicamente hábil, teria outras virtudes...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi na luta e confronto destes detalhes que batalhei para me incluir sempre no grupo desses "defeituosos". Aqueles que como eu tinham tido o azar de ter nascido com aquele bocadinho de chocolate a mais. Aqueles a quem por ignota causa se mandava que, por definição, não chorassem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às meninas, perfeitas aos meus olhos, reservei sempre a maior admiração, pelo ar frágil, a voz doce, as linhas delicadas, a presença harmoniosa. Claro que havia uns estafermos... Essas para mim não me mereceram nunca qualquer desrespeito, entendia que teriam "defeito", como eu, e como tal teriam de batalhar as suas próprias batalhas, até por isso me mereceram o maior respeito também, embora as considerasse de outro clube. Sentia no coração todos os "caixa de óculos", cada "pescoço de girafa", os "cara de lua-cheia", que lhes eram dirigidos pelos meus pares, com muita tristeza. Nas raríssimas vezes que os acompanhei, que foram mesmo muito poucas, foi mais em tentativas de marcar alguns pontos na minha admissão à matilha que por vontade própria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E como as coisas podiam mudar neste campo!... Vim a descobrir mais tarde, quando já pelos catorze, quinze, as via resplandecer, como borboletas que tinham abandonado aquelas crisálidas horríveis em que as conhecera. E o arrependimento de não ter conseguido eventualmente agarrar uma ou outra... Apenas mais machadadas no meu ego.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí que aos meus olhos os meninos nasçam sempre com uma mácula que os inferioriza, cresci com a minha auto-estima alimentada aos poucos por uma situação privilegiada por uma sociedade, que reconheço injusta, mas que atenuava os efeitos perversos do meu defeito de nascença, pois que essa mesma sociedade o considerava afinal uma vantagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, logo pela génese, situo-os numa franja instável. Incompreendidos muitas vezes nas suas atitudes rebeldes, embrutecidas, frias até. Não encontram eco na sociedade contemporânea para ocupar o lugar que lhes pertence por direito. Não sentem o prazer de brilhar, como as meninas, tendem por isso a fechar-se nas suas próprias conchas, sem qualquer desejo de se unirem mais, do que o suficiente para afirmar a sua condição, a um grupo de semelhantes que padecem dos mesmos defeitos e falta de valores atractivos. Existe em cada um de nós a palavra "desenrasca-te" bem vincada no nosso âmago, que nos impede ligações mais profundas e qualquer regozijo por vitórias sexuadas. Não nos permitimos faltas de habilidade, odiamos com todo o ser os auxílios às nossas fraquezas, que não queremos somar às que já trazemos de longe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabo por acreditar que houve na minha criação muito senso. Não fosse esse apêndice fundamental, e os inerentes complexos que assumo, estaria hoje a governar o mundo. Seria uma respeitável ditadora, profundamente orgulhosa de todo o meu ser e saber, o que não aproveitaria decerto a ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Assim, sou apenas um homem.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;© CybeRider - 2009&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-8254922090020805010?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/8254922090020805010/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=8254922090020805010&amp;isPopup=true' title='19 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/8254922090020805010'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/8254922090020805010'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/06/meninos-e-meninas-o-inicio.html' title='Meninos e meninas - O início'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>19</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-7626894766435168151</id><published>2009-05-29T01:30:00.005+01:00</published><updated>2010-04-28T13:40:31.731+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Com dedicatória'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Epitáfio - (Pelo sim, pelo não...)</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Ao diabo que me carregue&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui jaz...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vaticinei num blogue desta praça que haveria de ter uma pedra, num pedaço de terra, com uma frase de um outro que começasse por "Aqui jaz...". Como não chego à conclusão se seria o artigo do blogue, ou uma sua frase, a começar assim para ser alvo da escolha, resolvi deitar mãos à obra - que não quero que me falte nada - e, visto não ter encontrado uma coisa ou outra que começassem dessa maneira, criar para meu alívio, bem como dos que me procedam, o tal texto que salvará de mais esse embaraço a minha imagem pós-féretro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Tenho a perfeita noção de que a morte de alguém é sempre um problema dos outros, já o referi e volto a repeti-lo. Daí que se preocupem com os quilos que peso, que exigirão esforços mais intensos para pôr a tal caixa em ombros. E se há coisa que me causa calafrios é imaginá-los a lançar-me anátemas, para além de algum desassossego que a minha ausência mais alargada lhes possa causar.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Alguns ficarão logo com aquela ideia preconcebida "sacana, não me pagou", esses podem descansar que pagarei, logo que os volte a ver; outros que não cheguei a retribuir o jantar que me ofereceram... que não se inquietem, se tiverem barriga enchê-la-emos, assim não me falte a memória. Haverá ainda os que não conterão um suspiro, sentido e profundo, não de pesar mas de alívio.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sabe sempre bem ver chegar o dia que põe fim a um continuado autoflagelo psicológico e persistente tenacidade, empregues em tentar desbravar, aclarar e esclarecer, esta mente absolutamente embrutecida. E ter levado com as visitas e telefonemas intempestivos, de quando em quando, tantas vezes a interromper momentos de grande elevação e beleza, também não terá sido agradável. Lamento.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Nada encontro de mais coerente que deixar perdida no meio do ciberespaço, quiçá &lt;em&gt;ad aeternum&lt;/em&gt;, a resolução final de uma vida. Aqui onde a terra acaba e o mar começa, onde ninguém encontra e ninguém conhece, onde ninguém critica e as vozes de burro não chegam ao céu. Aqui, dizia eu, terei de encontrar a solução para este engulho.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mais fácil seria guardar a frase que, a meu gosto, alguém dissesse com sinceridade nesse último dia; nesse em que vestido com as vestes domingueiras, sapatos novos, daqueles 3 ou 4 números acima, que ninguém compra, e por isso saem a preço de ocasião; já privado de enfeites, maquilhado a preceito, a esconder o tom esverdeado da pele, penteado a brilhantina, coberto de aroma floral, com o guardanapo enfiado dentro da boca e o algodão nas narinas, como para não sentir do aposento o cheiro a parafina; a tal frase que me ficou de infância, quando a li ao Samuel Langhorne Clemens (&lt;em&gt;nickname&lt;/em&gt; Mark Twain) - (30 de Novembro de 1835 – 21 de Abril de 1910), e me tem acompanhado ao longo da vida, como que num saquinho de relíquias, que é esta: "Olha... Está vivo!"... e respectivas consequências.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mas não é isso que se pede. E de pedidos também serei acanhado: &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Não quero ir de burro. A viola podem deixá-la no saco, a menos que a leve alguém mais hábil do que eu terei sido. Lembram-se de como saíam sempre que a ia buscar?... Pois agora serei eu que a não quero! Não vá algum faltar e dizer-se por aí que fez lá tanta falta como isso.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sei que não haverão lágrimas, a maioria de vós nem gosta de cebola, mas espero que não se alarvem em estrondosas gargalhadas, que não quero acordar e ver-me naqueles preparos, ou para ali fechado no caixote (sei lá quando vos daria a parvoeira), e faltar-me para ali o ar e ver-me possivelmente aflito. Fora isso espero que se divirtam, que passem um dia muito bom e que se lembrem principalmente que vos terei deixado livres de uma quantidade de problemas, que tenderiam a aumentar com o avanço da idade.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ah! Não se esqueçam de pagar ao gajo que cravar na lápide esta frase que entretanto me ocorre, no seguimento das palavras com que comecei o texto: &lt;/p&gt;&lt;p&gt;"...aquele que um dia prometeu que, quando lá chegasse, O convenceria que Ele não existe. Oxalá esteja a ser, também nisso, mal sucedido."&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Quanto ao testamento, é muito mais fácil. Basta seguir a moda. Não vejo como não deixar tudo à nora.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;(Ainda pensei nesta: "Δεν ελπίζω τίποτα. Δεν φοβούμαι τίποτα. Είμαι ελεύθερος", mas, além de não ser minha, achei-a demasiado rebuscada.)&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;P.S.: Texto sujeito a alterações, consoante prazo a conceder por entidade indeterminada.&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-7626894766435168151?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/7626894766435168151/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=7626894766435168151&amp;isPopup=true' title='19 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/7626894766435168151'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/7626894766435168151'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/05/epitafio-pelo-sim-pelo-nao.html' title='Epitáfio - (Pelo sim, pelo não...)'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>19</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-205349501841849686</id><published>2009-05-26T00:50:00.009+01:00</published><updated>2010-04-28T13:42:51.363+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Bisca lambida</title><content type='html'>E nisto estamos no meio do jogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E vamos à procura de mais e mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixamos de temer o risco. O importante é abrir o quadro e marcar, marcar, marcar... Voltamos... Já mostraram o resultado? Não?... Bolas!... Passa mais uma hora...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltámos para outros campos onde já tínhamos estado. Novidades? Humm... Então?... Está tudo na mesma?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltamos ao nosso campo. Não mostram nada... Suspenso de resultados. Outra vez... Então?... Não vem ninguém?... E o que tive de pensar... Que chatice... Fiz algum erro... Deixa ver outra vez... Sim... É... Está tudo certo... É aguardar. Alguém há-de vir... E está tão giro!!! Vá lá! Não me façam isso!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Criamos um novo jogo. Agora é mais complexo, aguardamos o resultado das nossa apostas prévias, mas temos de estar atentos ao nosso campo também. Há que dar resposta, contra-atacar, tudo a tempo. Não podemos baixar os braços!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente surge o primeiro... Batota! Então não tenho os resultados lá e apareces-me aqui? Não! Penso... Mas não digo nada... Vou à luta. Assim... Isso... (Que gozo!... É... Pois, isso mesmo!)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já está! Pimba!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aqui deste lado? Boa! YES!!!!!... Pois... Isso mesmo! Ena!... Que fixe! (Já venho...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ahhh pá! Nunca me teria lembrado disso!!! Vá... beijos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, fecho esta... Abro... Aqui!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olha!... Não está mal!... Mas já vi melhor... Vi melhor?... Fiz melhor!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ninguém disse nada... Não importa... Isto é mesmo assim. Uns dias ganha-se, outros perde-se. É igual para todos... Esquece... Vamos a outra...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olha... Aqui... Não tinha visto esta... Que calinada!... E não vi... Apago? Não... Vou gozar com isto!... Pois, assim já ninguém nota... Boa! Até parece que foi de propósito!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volto lá... Ah! Assim está bem, ora... pois claro. Já sabia!... Isso também eu queria! Ná! Nada disso... Não! Eu não disse isso!... Calúnias!... Já vais ver...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Obrigado"?... O tanas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Anónimo"... Pois, assim é fácil. Vai-te lixar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acrescento... Não, não é isso! Deixa ver... (Apago a linha toda).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois... Talvez assim. Vá!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fico à espera. Mais um dia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É assim, a mecânica da blogosfera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois há toda uma panóplia de sentimentos que podemos misturar ou tentar demonstrar, e compreender, ideias mais ou menos arrojadas... Trazem colorido à festa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É um desporto violento, não aconselhável aos mais frágeis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-205349501841849686?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/205349501841849686/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=205349501841849686&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/205349501841849686'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/205349501841849686'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/05/bisca-lambida.html' title='Bisca lambida'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-8069197979776520494</id><published>2009-05-22T23:40:00.004+01:00</published><updated>2010-04-28T13:45:47.669+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Nunca mais!</title><content type='html'>&lt;p&gt;Evito a expressão "nunca mais".&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Se por um lado me daria a tranquilidade de melhorar o mundo à minha volta sem intervenções intempestivas, por outro lado priva-me de voltar a lugares que, não sendo perfeitos, me ensinam o caminho para a tranquilidade.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O "nunca" é o obstáculo maior de vencer. Se por um lado nos livra das atracções mais perigosas e de aventuras desmioladas, por outro é a barreira aos sonhos que pressupomos inalcançáveis.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Por isso me custa a sair. É uma palavra que tenho de mastigar, tomar-lhe o paladar, como quem degusta um manjar exótico.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Já o "mais", sinónimo de adição, proliferação, virtualmente abundância, podendo ser de evitar quando nos referimos ao pernicioso, é capaz de uma atracção quase irreflectida. Quando nos perguntam "queres mais?" raramente nos surge a imagem de um malefício, a menos que tenhamos atingido o ponto de saciedade, o que para muitas situações é em si um objectivo por cumprir.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quem nos quer mal não nos costuma colocar a questão, que surge na continuação de um acto. O mal é algo que se distribui, normalmente sem perguntas directas e que se pressupõe, à partida, intrinsecamente aceite pelos contemplados.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quando se juntam as duas é que adquirem contornos verdadeiramente maquiavélicos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Nunca mais" é um ponto sem retorno. Um autêntico mergulho no infinito, perdem-se os limites, abandonam-se referências, para passarmos a dedicar todas as nossas energias numa inacção que não terá fim à vista. Todos os meios ao nosso alcance servirão para ajudar à causa, ainda que isso nos traga tristeza e depressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O abandono de um vício é por isso algo que considero incomensuravelmente difícil. Registar, de forma indelével, que algo que dá prazer tem de ser, por vontade própria, abandonado para sempre, provoca decerto uma angústia atroz que só poderei conceber por uma força superior de razão. Esta "razão" mais não é que a racionalidade a que deveríamos apelar quando nos socorremos do nosso bom-senso.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Nessa medida, se já me custa articular a palavra "nunca", a expressão "nunca mais" tem para mim o peso de uma "palavra de honra" à antiga. Utilizá-la significa a aquisição de certezas absolutas que já &lt;a href="http://outranaferradura.blogspot.com/2009/02/relatividade-do-absoluto.html"&gt;referi&lt;/a&gt; não ter, como tal e por via das dúvidas, prefiro esquecer-me de que existe.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E não deixa de ser caricato que acabe, assim, por concluir que o que me impede de utilizar essa expressão seja mesmo a falta de senso, que &lt;strong&gt;nunca mais&lt;/strong&gt; tenho...&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt; &lt;/p&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-8069197979776520494?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/8069197979776520494/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=8069197979776520494&amp;isPopup=true' title='20 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/8069197979776520494'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/8069197979776520494'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/05/nunca-mais.html' title='Nunca mais!'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>20</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-1120211706193563941</id><published>2009-05-19T23:55:00.017+01:00</published><updated>2010-04-28T13:49:39.769+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Com dedicatória'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Gritos</title><content type='html'>&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;À minha primeira paixão&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É o Grito que nos liga a voz à alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há atalho mais curto. Alegrias, tristezas, espantos, medos, dor, prazer, todos são identificáveis por gritos, diferentes num todo, únicos em si.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Basta um grito para sabermos com que emoção estamos a lidar. E sabemo-lo melhor ainda se for nosso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não falo dos gritos de libertação. Que importam, mas são exteriorizados de outra forma. Refiro-me a esse som que emitimos, quando o coração não nos sustém o ar nos pulmões e o liberta, através das nossas cordas vocais de forma incontinente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arrisco que não haverá melhor registo do espírito, nem maior forma de arte que o pinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na sua maioria incontroláveis e por isso sinceros, há os que soltamos a sós, os que partilhamos a dois, e os que publicamos ao vivo para uma multidão ouvir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Destes últimos recordo um dos primeiros, senão mesmo o primeiro, da minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Transporto-me para uma distância deveras grande no tempo. Recordo um amplo ginásio, um sarau, muita gente a assistir - que naquele tempo a televisão era um objecto raríssimo e passava-se o tempo de outras maneiras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia mesmo muitas crianças que, enfiadas nos seus uniformezinhos de brancura imaculada, calçãozinho e camisolita, com o emblema da filarmónica da freguesia bordado a pontos de amor pelas mãos maternas, tentavam orgulhosamente brilhar pelo meio dos colchões de espuma, trampolins, espaldares, barras assimétricas, enfim toda a parafrenália própria de um ginásio que se preze.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A festa teria início com a apresentação de uma corrida à volta do recinto com umas tropelias pré-combinadas executadas pela classe mais jovem. Teríamos de executar umas rodas, umas cambalhotas, enfim, o habitual, que já se me desvaneceu na precisão dos pormenores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas houve um detalhe que sublimava a importância de tudo o que tivéssemos de fazer. Se de facto deveríamos ter começado com o que estava combinado, começámos antes com o meu grito de descontentamento, de injustiça, de direito roubado, de desilusão com o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi um momento alto. Todos os olhos se centraram em mim. O meu protagonismo não condizia com os meus pequeníssimos cinco anos. Procuravam perceber o significado daquele grito lancinante, que rapidamente se transformou num pranto de revolta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A razão era porém bastante simples. Na formatura final tinham-me colocado junto a outra menina que não era a Ana Maria. De forma alguma aquele sarau teria início sem que eu pudesse brilhar ao lado da maior estrela do firmamento daquela noite, e aquela surpresa que me reservaram por mera ignorância do maior sentimento que um coração pode sentir, e que era o meu, levou ao meu boicote.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Incrédulo o professor dirigiu-se a mim, recordo o olhar nervoso da minha mãe, e limitei-me a apontar o dedo, para a criatura mais bela que alguma vez vira, e a dizer baixinho com os olhos rasos de lágrimas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Só vou se for com a Ana Maria...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi feita a minha vontade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Já não me recordo se fiz bem as rodas e as cambalhotas. Recordo-me que foi uma noite muito feliz. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Foi também, talvez, a maior humilhação por que passei em público. Mas valeu a pena!&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho ainda, muitas vezes, vontade de gritar sozinho perante uma multidão. Talvez não saiba depois explicar tão bem o motivo do meu pranto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas do que tenho mesmo receio, é que não me façam a vontade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-1120211706193563941?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/1120211706193563941/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=1120211706193563941&amp;isPopup=true' title='19 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/1120211706193563941'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/1120211706193563941'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/05/gritos.html' title='Gritos'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>19</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-4928150616402412439</id><published>2009-05-15T23:40:00.002+01:00</published><updated>2009-05-15T23:50:39.030+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Os cães do Adelino</title><content type='html'>O Adelino podia ter sido um amigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para onde fossemos poderia ter sido um prazer tê-lo com o grupo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois podia, mas tinha uma rara habilidade: a de se esquivar sempre a pagar a conta...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vestia bem e falava melhor, tinha aquele dom inato de liderança que fazia dele o detentor de uma clarividência e de um poder obscuro sobre o seu semelhante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os cravanços do Adelino, sempre com a promessa de que aquilo era tudo por conta dele, que logo nos ressarciria, eram de certo modo um investimento no nosso futuro. Sempre cheio de projectos promissores e infalíveis, contava-nos as façanhas de uma vida política e social precoce, onde cada um de nós ainda viria a encaixar na perfeição logo que organizássemos e completássemos os planos que ele tinha reservado para um futuro bastante próximo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao princípio nem se estranhava. Na nossa boa fé de jovens, estudantes e foliões, queríamos era a diversão e nem reparávamos a naturalidade com que a carteira do Adelino tinha ficado algures pelo Mundo, sempre que o final da noite acontecia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Noronha, de família abastada, era o mais sacrificado. Desde os combinados do Galeto, aos gin-tónicos do Tropicália, sorvidos aos acordes da viola ao vivo, aos jantares na Trindade ou na Portugália, às "girafas" na Nova América, ao táxi do Cais do Sodré ao Lumiar; quando já ninguém se descosia, o Noronha salvava a situação. Que até lhe calhava de caminho... Que morava em Linda-a-Velha, pois...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era por isso o preferido, desde que estivesse presente, caso contrário sê-lo-ia aquele que mostrasse estar mais abonado, ou que tivesse alguma gasolina para umas voltas à vontade do freguês.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontrei o Noronha uns anos mais tarde. Não terminou o curso, estava desempregado, nunca tirou a carta de condução, e calculo que o dinheiro para o táxi se deve ter acabado. Tratei-o como amigo que fora e dei-lhe o número de telefone, mas percebi que se passava um bocado das ideias, não sei se houve reciprocidade de pensamentos, que dali nunca mais nos vimos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os outros comparsas daqueles convívios também se perderam nas vielas do tempo. Ninguém me trouxe notícias do Adelino, mas se bem o conheço a esta hora deve estar bem colocado numa empresa de topo, rodeado de amigos que ainda não repararam que a carteira deles é a medida da sua amizade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Adelino tinha dois cães, pequenitos e simpáticos que se fartavam de abanar a cauda sempre que o viam, mas isso é outro conto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-4928150616402412439?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/4928150616402412439/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=4928150616402412439&amp;isPopup=true' title='17 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/4928150616402412439'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/4928150616402412439'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/05/os-caes-do-adelino.html' title='Os cães do Adelino'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>17</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-2470289251862610850</id><published>2009-05-12T00:15:00.002+01:00</published><updated>2010-04-28T13:55:10.227+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Espelho meu</title><content type='html'>Aperto-a entre os dedos. Dói! Só a mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do lado de lá a imitação quase perfeita do meu gesto. Não fosse estar tudo invertido...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A dor, que é só minha, faz-me pensar quantos dias irão passar até que ele, o do lado de lá, deixe de ter a mancha vermelha. Deste lado só sinto a dor. Deste lado não vejo a mancha, que só conheço porque ele me diz que sim, está lá, de onde lhe tirei a borbulha. Mas é a mancha dele que me preocupa. É a dele que vão ver, não a minha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei por onde ando quando não o vejo, mas dele não sei. Apenas que está sempre prestável para me servir, apesar de me olhar como igual. Idiota, esse mero escravo insolente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é meu irmão, no entanto nascemos juntos, eu de uma mãe, ele de um fenómeno da natureza, e fazemos tudo em simultâneo, suponho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além da irreverência do olhar, que não reconheço a mais ninguém, o pior são-lhe os caprichos. Quando aparece com outra ruga, lá me verte os sinais do tempo. Zás! Fica-me logo a indelével tatuagem, como um destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas sempre ao contrário. Se levanto o braço esquerdo, ele levanta o direito, e todos os vice-versas. As concretizações são porém as mesmas. Quando me barbeio, também ele muda de aspecto, e os dentes ficam-lhe lavados como os meus. O cheiro do after-shave, esse é só meu. Que o dele é inodoro independentemente da marca. Já tentei perfumá-lo, e ele a mim, por isso sei. Nesse dia fiquei a perder...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recordo-me da primeira vez que me vi projectado num painel, e lembro-me de como me pareci estranho. Nunca me tinha visto a cirandar pela rua. Uma fotografia não é a mesma coisa... Falta-lhe aquela força anímica que nos altera a forma em cada hiato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Concluí que afinal era o inverso do que me imaginara. Porque aquela outra imagem, que pensava corresponder-me, afinal não era a minha. Como pude andar enganado, por ele, tanto tempo?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E no entanto há coisas que são transmitidas com rigor e clareza, a tristeza de um olhar, aquele brilho de outro num dia de festa. Mas posso estar a interpretar mal, e aquela rara forma de olhar que me parece, ocasionalmente, de estima pode estar a ser devolvida cheia de rancor e ódio, sei lá o que lhe estará a passar pela cabeça, afinal não é tudo ao inverso?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E até que ponto essa inversão de sentidos de um olhar cara a cara não me irá afectar para todo o resto do dia? Aquele olhar de esperança, que lanço, não me estará a ser devolvido carregado de derrota e desprezo?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso sinto algum alívio por saber que aquela criatura vil, a quem não leio os pensamentos nem consigo arrancar confissões, que me enche de mazelas, partirá comigo se um dia eu tiver de partir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É a sério! Prometo que o levo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não sem lhe perguntar:&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Espelho, espelho meu, há alguém aí que goste mais de mim do que eu?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;© CybeRider - 2009&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-2470289251862610850?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/2470289251862610850/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=2470289251862610850&amp;isPopup=true' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/2470289251862610850'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/2470289251862610850'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/05/espelho-meu.html' title='Espelho meu'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-9025443575694003823</id><published>2009-05-08T01:20:00.007+01:00</published><updated>2010-04-28T13:58:37.828+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>O imortal</title><content type='html'>Tenho sentido uma preocupação que varre o Mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uns queixam-se da falta de tempo, outros que os abismos se lhes abrem a cada passo, outros que parecem adivinhar que a sua hora é certa. E eu, que até já me ia curando destas paranóias, e acreditando que isso não passam de boatos sem fundamento, acabo por me sentir envolvido por esta negritude.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A imortalidade porém é que me causa estranheza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que me dizem ser alcançável. Ou por feitos notáveis, ou pela descendência que alguns por cá deixamos, ou por índices elevados de popularidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se afinal tudo o que começa terá de acabar, se dizem que um dia esta esfera se vai esborrachar contra o Sol, se de facto essa estrela vai esgotar todo o hidrogénio que nos ilumina e deixar este cantinho do Universo às escuras, então de que nos serviria a imortalidade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para ficarmos a pairar no espaço?... Ou criarmos uma imobiliária nas cinzas, iluminada a candeias de azeite? O que quer que restasse não seria com certeza um final feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí que me seja mais pertinente pensar no que devamos fazer para prolongar a nossa memória junto dos que nos são iguais e, desse modo, dar melhor sentido à nossa vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vem-me à ideia que há várias formas de o fazer: ou por feitos notáveis, ou pela descendência que alguns por cá deixamos, ou por índices elevados de popularidade. Pois... Mas não é isto. É que estas formas aplicam-se ao colectivo. E de facto são muitas vezes os actos mais simples que deixam as melhores marcas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que a humanidade agradece os feitos de todos os grandes nomes de todas as ciências e artes mas eu, este ser minúsculo e indiferenciado, recordo também muitas vezes pequenas coisas que não passaram de breves momentos, alguns antigos, do meu dia-a-dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E este é o tipo de marca que gostaria de deixar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gostava de poder saber, sem manigâncias, jogos de influências e golpes publicitários, que marca é que incognitamente deixei naqueles que se cruzaram comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho de facto uma ideia do meu índice de popularidade, maior ou menor, entre a minha família, os meus amigos, os meus colegas de trabalho ou outros que comigo interagem diariamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas qual é o meu coeficiente de penetração na sociedade? Nessa selva imensa onde, com os nossos olhares mais cinzentos, nos encontramos uns com os outros todos os dias?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recordo uma situação que me aconteceu, haverá sete, oito, talvez mais, anos - que parece que foi ontem:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava a estacionar um automóvel num espaço apertadíssimo à esquerda da faixa de rodagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esperava começar a ouvir soar as buzinas dos impacientes que se acumulavam à retaguarda, quando de súbito me apercebo de um carro branco parado ao lado do meu, ambos de vidros abertos, comecei a levantar o meu escudo pessoal contra os "anjinho", "saiu-te na farinha Amparo" e piropos que tais, quando me apercebo que o condutor, sem se incomodar por atrasar um bocadinho mais a fila, me gesticulava até que ponto ainda me poderia aproximar das viaturas já estacionadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Incrédulo, porque a besta que há em mim nunca me teria, até aquela data, levado a igualar aquela atitude, segui as instruções, e recordo que só tive acção para levantar o braço em agradecimento. Recordo também que, já recuperado, me arrependi de não ter saído a correr do carro para perguntar aquele sujeito quem ele era, e dar-lhe um abraço fraterno, e fazê-lo notar que, anos que eu viva, nunca esquecerei aquele gesto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E isto para mim é a imortalidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tenho pena que ele nunca venha a saber, por mim, que a atingiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-9025443575694003823?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/9025443575694003823/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=9025443575694003823&amp;isPopup=true' title='22 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/9025443575694003823'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/9025443575694003823'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/05/tenho-sentido-uma-preocupacao-que-varre.html' title='O imortal'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>22</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-4139225263065851926</id><published>2009-05-03T23:05:00.003+01:00</published><updated>2009-05-07T00:39:24.588+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Com dedicatória'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Mãe... Quem és tu?...</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Dedicado aos que nunca foram filhos da mãe&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que as há de toda a grandeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As boas, as más, as carinhosas, as mais distantes, as cuidadosas, as descuidadas, as que nos amam, as que nos odeiam, as que nos amparam, as cultas e as iletradas, as que nos matam, as bonitas por fora e feias por dentro, e as que, por mais feias que sejam por fora, serão sempre lindas para nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há ainda mães que são melhores que muitos pais. Há os pais que são mães também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E há aquelas que vivem connosco para sempre. Que nos acompanham cada dia, como se fosse o seu, lá longe ou mais perto. As que nos transportam na boca em cada palpite do coração, em cada expiração. As que nos seguem, as que nos perseguem, as que nos telefonam e as que nos esquecem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As que os nossos pais amaram ou amam. As que amam ou amaram os nossos pais. As que nunca amaram ninguém. As que nunca foram amadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há ainda as que nos abandonam num ninho de cucos, para crescermos entre os outros, cientes de que esse futuro incerto é o melhor para nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há as que rebentam as entranhas para nos deitar ao Mundo e as que sem sofrer uma dor nos amam mais do que aquelas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que dia é este?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será o dia de pensar naquela mulher que nos ama e que vimos maltratada, mas que nos culpamos de não ter protegido, porque o agressor foi um pai que nos ama também?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou antes o dia em que aquela mulher, que nos ama, empunhou a faca para retalhar esse homem, que não conseguimos odiar, pelo bem que nos quer, mas que a traiu vezes sem fim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou só daquelas que passaram fome para que tivéssemos uma sopa para comer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Das que nos pariram em consciência, ou das outras que aprenderam a aceitar que somos mais do que aquele acidente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou será apenas das que num acto natural nos deram a vida?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será o dia de lembrar a mulher que nos criou, mas que abandonámos à sua sorte quando a trocámos pela outra, mãe dos nossos filhos? A que chorou todas as lágrimas nesse dia sem saber se de felicidade ou tristeza?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou daquela outra que tudo ensinou à sua menina e a vê partir para todos os erros e injustiças para os quais ela própria, um dia, partiu também?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mãe...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem a tem saberá... Que há só uma!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para esses, este dia é tão igual ao de ontem como ao de amanhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É em todos os outros que penso. Que neste dia celebraram uma das maiores tristezas que alguém poderá sentir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-4139225263065851926?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/4139225263065851926/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=4139225263065851926&amp;isPopup=true' title='15 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/4139225263065851926'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/4139225263065851926'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/05/mae-quem-es-tu.html' title='Mãe... Quem és tu?...'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>15</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-6614102735032110300</id><published>2009-05-01T23:45:00.001+01:00</published><updated>2009-05-03T03:20:28.704+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>O 1º. de Maio</title><content type='html'>Entre algumas coisas que resolvi fazer hoje estava a ideia de ler alguma coisa alusiva ao 1º. de Maio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apetecia-me assim como que... Enfim, blogosfera...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fazer zapping na internet não é exactamente o mesmo que estar sentado no sofá com a botoneira na mão a passar imagens, claro que não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E fartei-me de ler coisas avulsas sobre o que bastantes escreveram acerca do 1º. de Maio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ninguém escreveu exactamente sobre o 1º. de Maio. E foi simplesmente por isso que resolvi escrever este pequeno texto. Com a certeza de que serei o único.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que o 1º. de Maio, embora não me tivesse apercebido disso no 1º. de Abril (aliás, não poderia ser a mesma coisa), o 1º. de Maio como dizia, é este!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois... Este que estou a escrever agora, aqui, e que já sei de antemão e felizmente que poucos se sacrificarão a ler. Este é efectivamente, e sem dúvida nenhuma, o 1º. de Maio. Poderia lançá-lo hoje, amanhã ou noutro dia qualquer, que isso não faria absolutamente diferença nenhuma, desde que atirado para o futuro. Logo que não escrevesse nada antes deste, ele seria sem dúvida alguma, e sempre, o 1º. de Maio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro que por esta altura já adivinho os bocejos, as reclamações, os impropérios que me estarão a lançar. Que não tenho mais nada que fazer, mas que perca de tempo, que raio de disparate, que pareço um puto a brincar com as bolinhas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que é certo é que este simples facto, de este ser o 1º. de Maio, me faz também recordar que este não só é o 1º. de Maio como é o meu primeiro 1º. de Maio. O que torna tudo ainda mais interessante, e se o tivesse escrito ontem ou noutro dia qualquer anterior, nunca teria sido o 1º. de Maio, condição que só se verifica a partir de hoje e também se nada surgir antes deste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como boa coisa, que é, traz consigo prazo de validade. Só conseguirei mantê-lo como o 1º. de Maio se o deitar ao Mundo até dia 31 deste mês às 23H59, depois disso tornar-se-ia o 1º. de Junho, não importa bem como. Não vou claramente deixar que isso aconteça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aliás se não cumprisse o prazo seria uma previsão sem sentido ou uma mentira descarada, consoante o tivesse elaborado antes de hoje ou depois do tal 31 aquelas horas. O que não seria de algum modo agradável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E antes que aconteça para aí alguma vou é livrar-me dele, antes que se perca em abono de alguma coisa mais premente, e para que possa passar rapidamente ao segundo de Maio que será com certeza de outro interesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nem sei bem porquê mas achei isto absolutamente fantástico. É que ainda por cima não como caracóis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-6614102735032110300?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/6614102735032110300/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=6614102735032110300&amp;isPopup=true' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/6614102735032110300'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/6614102735032110300'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/05/o-1-de-maio.html' title='O 1º. de Maio'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-8333884238409224787</id><published>2009-04-28T01:55:00.001+01:00</published><updated>2009-04-28T01:56:27.823+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poesia'/><title type='text'>Fútil</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;A HORA DO CHÁ&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;A senda do ser&lt;br /&gt;É um fio estreito da tua blusa.&lt;br /&gt;Duas pitadas&lt;br /&gt;Da areia mais pura do deserto&lt;br /&gt;Dissolvem-se no teu chá:&lt;br /&gt;Mar morto juncado de cadáveres&lt;br /&gt;Importados da Índia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma pele manchada de natureza&lt;br /&gt;Escorre-te pelos braços nus, agora quentes&lt;br /&gt;E um rafeiro de tédio&lt;br /&gt;É um nó bocejante a teus pés,&lt;br /&gt;Leitosos, tratados, de garras limadas&lt;br /&gt;A tinta escarlate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As cinco horas queimam-te os dedos&lt;br /&gt;Na porcelana de renda.&lt;br /&gt;O cheiro a nostalgia&lt;br /&gt;Enche-te o salão sonante&lt;br /&gt;De claves de piano;&lt;br /&gt;A sensualidade&lt;br /&gt;Brota-te dos poros, humedece-te&lt;br /&gt;Queima-te a pele nívea, agora rósea.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tu, flutuas nas florais borras&lt;br /&gt;Do teu chá&lt;br /&gt;Sem gosto,&lt;br /&gt;Adormecido.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-8333884238409224787?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/8333884238409224787/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=8333884238409224787&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/8333884238409224787'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/8333884238409224787'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/04/futil.html' title='Fútil'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-7432231549953659236</id><published>2009-04-25T02:15:00.001+01:00</published><updated>2009-04-25T02:40:25.851+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>O meu primeiro cravo vermelho</title><content type='html'>- Acorda pá! Anda ver a guerra!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não era. Era a satisfação e o nervosismo do meu pai, ainda sem perceber bem o que estava a acontecer, mas já na expectativa de que as coisas nunca mais seriam as mesmas. Nem a BBC de Londres que ouvia baixinho e com a recomendação do "nunca fales disto a ninguém..." o poderiam ter preparado para tudo o que iria mudar naquele dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito se escreveu, muito se fotografou, muito se falou. Mas esta perspectiva ninguém teve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque é a minha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recordo as imagens a preto e branco na Tv. E ficou-me para sempre a memória de um homem que vi pela primeira vez nesse dia, o capitão Salgueiro Maia. E para mim a revolução só aconteceu porque na Rua do Arsenal este homem, que era um revoltoso, teve o sangue frio de ficar frente à mira de um atirador que, à ordem de um oficial para que disparasse, não obedeceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vem-me no entanto à ideia que o nome desse atirador eu nunca o soube...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez esta tenha sido a primeira injustiça de Abril. E talvez seja por isso que a nossa democracia afinal seja como é, onde o protagonismo de alguns deixa no anonimato os verdadeiros autores dos feitos dignos de nota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O 25 de Abril de 1974, como factor que rapidamente se compreendeu ser de importância fulcral para o futuro do país, foi também o momento de mencionar demasiados nomes, desde os intervenientes heróicos, aos derrotados, aos que estiveram presos do antigo regime. Alguns desapontaram mais tarde, outros nem tanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não nos lembramos muitas vezes que aqueles soldados, ao contrário dos do meu tempo, estavam absolutamente preparados e treinados para matar, essa era a sua função. E se ainda pelos anos oitenta, já sem guerra,  o respeito por qualquer ordem de um oficial era inquestionável, como comprovei pessoalmente por obrigação que me foi infligida, penso que naquela altura o seria ainda mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quanto mais penso nisto, menos compreendo por que motivo ficou esse para a história como um fraco se foi afinal o que fez toda a diferença. Era apenas uma gatilhada legítima e não teríamos provavelmente tido a nossa festa. Os diários teriam parangonas menos vibrantes, um traidor teria sido abatido e a honra do convento teria sido reposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A esse atirador que por uma aparente falta de coragem em cumprir uma ordem de execução, transporta talvez ainda o peso da injustiça, a esse como digo, atiro o meu primeiro cravo vermelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao Salgueiro Maia, atiro o segundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos outros desse dia... Que agradeçam a boleia que estes dois lhes deram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu era um puto, que dali a poucos anos iria para África matar turras. Tinha a cabeça feita para isso, fazia parte de crescer homem. Abençoado atirador, que ou me salvou a mim ou aos que me estariam destinados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto aos cravos... Só nesse dia lhes conheci verdadeiramente o nome, e a cor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-7432231549953659236?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/7432231549953659236/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=7432231549953659236&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/7432231549953659236'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/7432231549953659236'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/04/o-meu-primeiro-cravo-vermelho.html' title='O meu primeiro cravo vermelho'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-3004287716854265294</id><published>2009-04-21T01:35:00.003+01:00</published><updated>2009-04-25T20:00:02.102+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Xadrez</title><content type='html'>Espanta-me o realismo do xadrez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os peões, os cavalos, os bispos, as torres, a rainha e o rei; numa aparentemente pequena variedade conseguem transpor para um pequeno tabuleiro muitas das situações com que nos deparamos a cada passo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se hoje sou o peão que se desloca vagarosamente pelas colunas, amanhã serei o cavalo veloz que salta obstáculos, ou uma das outras espécies que percorrem grandes distâncias de uma só vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A identidade com o rei é no entanto menos evidente, claro que há semelhanças, no refastelanço do sofá, na inércia que me atinge nas horas vagas, no pairar calmamente no sossego do meu reino. Só a assumo verdadeiramente, na maioria das vezes, para perder o jogo. Não fui decerto talhado para grandes protagonismos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As torres, surgem como metáforas à forma como nos deslocamos, galvanizados nas nossas armaduras, do ponto A ao ponto B.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os bispos, sugerem a forma idealista com que transpomos subjectivamente a relação entre o empírico e o desconhecido (a diagonal é uma via pouco clara num panorama marcado por eixos perpendiculares).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Noto que me esquivei a comparações com a rainha. A minha faceta de transvestimento é demasiado diminuta para que me identifique com ela, prefiro admirar-lhe os movimentos graciosos e as jogadas tácticas devastadoras com que dominam o panorama estratégico. O meu trajecto é principalmente mais linear e previsível, do que aquela capacidade omnipotente de devastar com um simples gesto tudo o que se encontre ao seu alcance.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto para alinhavar uma ideia que me ocorre sempre que no meu trajecto de torre, ansiando chegar rapidamente do tal ponto ao outro, me deparo com um peão que me salta à frente do percurso numa passadeira, em manobra repentina de um &lt;em&gt;en passant&lt;/em&gt; quando estou a chegar à beira da dita e me obriga a esforços obtusos para conseguir parar antes de o comer, trocando-me em seguida ares de reprovação em vez de um merecido agradecimento. É que eu paro de facto nas passadeiras, e paro sempre! Mas devia haver mais respeito pelas regras. Cada jogador devia jogar na sua vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se na condição de peão sou levado a pensar nessas circunstâncias, em que me esmero por cumprir as regras do jogo e dou espaço, quando estou investido de outros poderes sinto que também deveria merecer o respeito dos que se deslocam como peões no nosso tabuleiro. Sou no entanto levado a acreditar que há um sentimento de vingança, que não partilho, em certos jogadores que os faz correr riscos inúteis, só para atrasar o nosso jogo, derivando em seguida com altivez, pompa e ar sobranceiro, numa tentativa velada de nos fazer perder a paciência e consequentemente a partida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E depois há os outros, que ficam plantados junto à passadeira e que, depois de me verem parar, me acenam pendularmente com a cabeça e com um sorriso amarelo, que não partilho pela sensação de anedota já batida. Já pensei em sair e pegar-lhes num bracito e mostrar-lhes que somos todos cidadãos do Mundo e como tal as regras são para cumprir por todos sem excepção, e levá-los amigavelmente, ou não, para o outro lado da via. Mas não costumo andar com tempo para tais justezas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta falta de respeito, que a ninguém aproveita, leva-me a pensar que existe uma efectiva e generalizada falta de formação e compreensão pelas regras de jogo. Todos os automobilistas são peões e a maioria dos peões serão automobilistas também, tudo depende de que peça estamos a movimentar em cada fase do jogo, daí que não compreenda tais despropósitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E fico a pensar se o meu desporto não deveria ser antes o golfe ou o basebol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-3004287716854265294?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/3004287716854265294/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=3004287716854265294&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/3004287716854265294'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/3004287716854265294'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/04/xadrez.html' title='Xadrez'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-4331012819763283263</id><published>2009-04-18T23:45:00.001+01:00</published><updated>2009-07-06T03:05:58.904+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Diálogos</title><content type='html'>De que falam duas pessoas que se encontram?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que define afinal aquilo com que nos atrevemos a quebrar o silêncio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temos à partida uma tela imensa, para descrever todo o Bem e todo o Mal, toda a Alegria e toda a Tristeza, o Sol e a Chuva, os devaneios dos ventos, as estrelas na noite, o sangue da Guerra ou a tranquilidade da Paz, toda a Riqueza e toda a Pobreza, a Religião ou a Descrença, a grandeza do Mar e da Terra por contraposição ao Céu infinito, e simples banalidades de uns e de outros e nossas também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qual o motivo então de abrirmos a boca e começarmos a cercear essa imensidão, que só o silêncio consegue conter?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque não conseguimos simplesmente partilhar um silêncio? Abordando assim, em conjunto, todos os temas do Universo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque teimamos em afirmar as nossas diferenças na fraca expectativa de ouvirmos consensos ou discórdias? Sempre para constatar que não percorremos os mesmos caminhos, não tivemos as mesmas vivências, afirmando principalmente as nossas diferenças?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E fazemo-lo muitas vezes com a clara convicção de que o que quer que opinemos poderá alterar o rumo do Mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O prazer de partilhar ideias com que acabamos também por aprender, justificará todas as vezes em que reduzimos o diálogo a uma simples pretensão de deixar a marca da nossa individualidade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quantas vezes o silêncio não substituiria com vantagem aquelas ocasiões em que nos exprimimos por mero protocolo, simples cumprimento de formalismos com os quais nem concordamos, em que acabamos por deixar uma imagem errada da nossa verdadeira identidade, exactamente porque não permitimos que nos avaliem pela imensidão do silêncio virtuoso que poderíamos partilhar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tantas outras vezes em que dissemos afinal o que não queríamos... Ou partilhámos mentiras, pois que toda a verdade está afinal contida no Silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que teremos de tão importante para dizer, a alguém que encontramos no cenário de um pôr-do-sol resplendoroso, para interromper um pensamento?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que teremos de tão importante a partilhar, que não se saiba já contido no conhecimento que temos de quem nos está próximo, que permita interrompermos aos gritos o quebrar das ondas ao fundo da falésia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que nos faz erguer a voz contra o murmúrio do vento?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada do que dissermos poderá conter tudo o que o Silêncio transporta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que será mais importante que a partilha da imensidão dos nossos silêncios?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-4331012819763283263?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/4331012819763283263/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=4331012819763283263&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/4331012819763283263'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/4331012819763283263'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/04/dialogos.html' title='Diálogos'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-5426655303126905189</id><published>2009-04-15T02:34:00.002+01:00</published><updated>2009-09-12T03:13:49.547+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>O especialista</title><content type='html'>Desde que nascemos trazemos uma capacidade deveras invulgar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começamos imediatamente a fazer escolhas. Desde o sugar o mamilo preferido em detrimento do outro, até chuchar um dedo da mão ou um do pé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei até que ponto o bem e o mal serão escolhas ou formações congénitas que aplicamos num caso por conveniência, no outro por sujeição; mas sei que as decisões que temos de tomar ao longo da vida nos irão tornar em autênticos especialistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desta forma, custa-me aceitar que alguém afirme que tomou esta ou aquela decisão incorrecta. E isto só pode ser um defeito, que também os temos! Já me aconteceu, pensar que podia ter optado de outra forma, é nesses momentos que apelo à razão e me condeno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que torna as decisões acertadas, ou não, são fundamentalmente factores externos, a constatação do sucesso ou do fracasso, é apenas a verificação das consequências, que também não dependem de nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No que varia pelas nossas premissas tudo o que decidimos é de facto exemplarmente bem decidido. Sempre analisado pelo nosso sentido de integridade física ou moral, ou pelo nosso instinto de sobrevivência mais ou menos exacerbado, ou pela aprendizagem de regras e comportamentos que acabam por nos apurar os gostos e definir desejos e ambições, ou rejeições e repulsas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo o mais são factores que não temos capacidade para controlar, ou porque não lhes conhecemos as origens, ou porque não os estudámos o suficiente, ou porque alguém decide trocar-nos as voltas, ou porque a natureza decide que aquilo de facto não será assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como não podemos conhecer todos os factores, decidimos com base na especialização que fomos apurando ao longo do tempo, e consequentemente sempre da melhor forma que nos é possível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claramente, nem todos temos ao dispor os mesmos caminhos, opções, e consequentes decisões. As nossas vidas são, por isso, muito diferenciadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acredito que nada na nossa vida poderia ter sido diferente do que de facto é, no que deriva das nossas decisões; a menos que não fossemos humanos, exímios em escolhas, e tivéssemos optado algures no nosso percurso por algo que tivéssemos acreditado ser menos interessante ou conveniente, quer fosse em nosso próprio benefício, ou para beneficiar a outrem para o regozijo do nosso ego, ou por um grau de altruísmo superior ao nosso sentido da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estive indeciso em colocar aqui este texto. Agora sei que foi a escolha certa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois, se ele aqui está...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-5426655303126905189?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/5426655303126905189/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=5426655303126905189&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/5426655303126905189'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/5426655303126905189'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/04/o-especialista.html' title='O especialista'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-6144268982200410975</id><published>2009-04-12T00:39:00.000+01:00</published><updated>2009-04-12T00:55:59.748+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>O formulário</title><content type='html'>Sou do tempo em que não haviam estas máquinas preciosas para nos arrumar as ideias em formulários bonitos e nos darem os resultados estatísticos num carregar de botão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num &lt;em&gt;brainstorming&lt;/em&gt; numa empresa em que trabalhei incumbiram-nos de criar um formulário (mais um) para descrever uma multiplicidade de situações que poderiam acontecer face a determinado acontecimento, que não passo a descrever por ser de uma irrelevância absoluta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensámos.  Cada um a seu modo produziu o que achou ser mais adequado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Farto de tanto formulário e talvez por, no meu caso particular, já me encontrar sobrecarregado de papelada, resolvi apresentar o meu modelo inovador, que acabei por ver eleito no final da discussão. (Não, não tive aumento de ordenado, pelo menos por isso não.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tratava-se de um modelo que permitia de facto explanar minuciosamente todas as características derivadas das tais ocorrências, com precisão, objectividade e que permitia a sua própria evolução com o desenrolar das conclusões e o avanço do tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este rasgo de genialidade, existia já implementado não só na nossa empresa mas em muitas outras, e mesmo em casas particulares e locais públicos. É de facto uma ferramenta poderosa que está ao alcance de qualquer um e que poderia revolucionar todo o sistema burocrático nacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perto do meu formulário qualquer forma de &lt;em&gt;Simplex &lt;/em&gt;ou seja lá o que se queira simplificar, no que quer que seja, não passa de fugaz tentativa de aproximação à solução, logo predestinada ao fracasso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E como sou de facto um benemérito, passo a esclarecer em que consiste efectivamente o meu formulário:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O formulário que tanto enalteço e que me servirá sempre de referência para a organização das minhas descrições e das minhas ideias é de facto... Uma folha em branco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora que preenchi esta reconheço que ficou muito comprometida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-6144268982200410975?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/6144268982200410975/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=6144268982200410975&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/6144268982200410975'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/6144268982200410975'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/04/o-formulario.html' title='O formulário'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-6020103507779009523</id><published>2009-04-09T01:15:00.002+01:00</published><updated>2009-04-09T01:31:48.767+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Guerra Fria (2 de 2)</title><content type='html'>Olha-me o tipo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que estamos em crise, e baixa os preços... Até parece que não gosta de dinheiro! Depois que me venha cá com a música de que isto está mau, que é preciso fazer umas horas... Isto está bom é para ele! A porcaria que me paga... Nem sei porque é que continuo a aturar isto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas lá que anda com mau ar... E no outro dia? Acho que ficou cá toda a noite, agarrado aos papéis. Fachada! E no fim do mês que me pagou com um cheque pessoal?... É só teatro!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temos clientes. E o gajo ainda se queixa da crise. Não quer meter mais ninguém e eu que me lixe a dar ao cabedal! Se bem que este mês já chegou cá uma data de vezes antes de nós. É para vigiar... (Deixa-me abrir-lhe a porta!)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deve estar a arranjar desculpas para correr com a gente. Estes? Quem não os conheça que os compre! (Senhor A. vai um cafézinho?...) Aproveita a conversa da crise e ainda lixa a vida a algum. Últimamente é todos os dias de trombas. Para a malta pensar que lhe corre mal a vida. É controle para a gasolina, é controle para o papel, é controle para os telefones. Já não aturo muito mais esta paranóia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais dia menos dia, vai daqui vende as máquinas e deixa-nos com o menino nos braços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não! A mim não me engana! Só por cima do meu cadáver!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-6020103507779009523?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/6020103507779009523/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=6020103507779009523&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/6020103507779009523'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/6020103507779009523'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/04/guerra-fria-2-de-2.html' title='Guerra Fria (2 de 2)'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-8122085056526846744</id><published>2009-04-09T01:10:00.000+01:00</published><updated>2009-04-09T01:27:53.161+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Guerra Fria (1 de 2)</title><content type='html'>&lt;p&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Não vos cheira?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Este clima de paz podre?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Saio de casa e os vizinhos desfazem-se em amabilidades. As pessoas mais afáveis na rua. Menos buzinadelas nas avenidas. Os funcionários mais concentrados. São salamaleques, falsas simpatias... Até arrepia...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mas eu sei o que se passa. Sei, sei! Leio-o nos olhares e nos gestos. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Passo por eles... Só sorrisos, abrem-me as portas... Nunca lhes tinha visto os dentes, dantes... Agora, todos "bons dias"... "Boas tardes"... Os vizinhos?... Tratam-me bem para que, se isto der para o torto, tenha dó e não lhes vá bater à porta, têm esperança que me envergonhe. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;E no escritório?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sabem que me têm na mão. Leio-lhes o pensamento: "Esmiframos-te até ao último cêntimo!"&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Passo por eles... Olho-os de soslaio, e penso: "Hipócritas! Enquanto precisei de vocês, era faltar ao trabalho, chegar a qualquer hora, nem ai nem ui..." Agora... Mas nem vale a pena dizer nada.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Que isso de aparecer essa malta da comunicação social a dizer que as empresas isto e aquilo... E as indemnizações? Se fecho a porta fico sem trabalho, sem dinheiro, nem direito a fundo de desemprego... Comemos do quê?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E estes? Vão para o fundo de desemprego, já aqui não lhes podia pagar muito, ainda lhes faço companhia às esmolas...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Eles sabem disso, por isso agora é tudo certinho, tudo "Senhor A., assim..."; "Senhor A., assado...".&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Frito! É o que estou. Se ao menos um gritasse comigo! Um só! Mas não...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Hão-de ficar comigo até isto ir ao fundo, vão fazendo mais um buraco. E já sei que no fim, o último a largar o leme, sou eu...&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-8122085056526846744?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/8122085056526846744/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=8122085056526846744&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/8122085056526846744'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/8122085056526846744'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/04/guerra-fria-1-de-2.html' title='Guerra Fria (1 de 2)'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-7069298544840630351</id><published>2009-04-07T00:50:00.004+01:00</published><updated>2009-04-07T01:34:38.276+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Memória de elefante</title><content type='html'>E porque a memória tem destas coisas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vem-me à memória uma a que gostaria de prestar homenagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conhecemo-nos há muitos anos. Ele com cerca de quarenta eu com cinco ou seis. Pegou-me na pequena moeda de cinquenta centavos, daquelas brancas da República, que lhe estendi a custo, sustido pelos braços fortes do meu pai, e depositou-a numa caixinha, depois voltou-se e tocou o instrumento preso à parede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grande elefante indiano era uma das atracções do Jardim Zoológico de Lisboa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltei lá por várias vezes. Voltei a vê-lo. Dessas vezes diria que os pequenos olhos, proporcionalmente ao corpanzil descomunal, se não me reconheceram, pelo menos souberam destrinçar-me dos que, por estranha humanidade, lhe depositavam cigarros acesos na tromba hábil. À confiança lá nos apontava a pedir que o deixássemos ganhar outro amendoim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre nós um fosso intransponível, e um pequeno terreiro em que aquele imigrante à força se movia lentamente observando a multidão atónita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escapara da dura vida de empilhar troncos numa terra que o consideraria sagrado, para animar ali os visitantes para quem aquele era um ponto alto do dia, a troco de alguns amendoins que lhe compensavam o feito repetido diariamente, uma e outra vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Regressei lá com o meu filho, como o meu pai fizera comigo. O gigante tinha partido, a idade e talvez a monotonia do horizonte tinham-no levado. No seu lugar um jovem aprendiz, um elefante africano, tentava aproximar-se a custo da grandeza do antecessor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei triste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas fico também inquieto. É que apesar de ter visto tantas vezes o elefante tocar o sino, e depois de tantas pesquisas que fiz sobre o assunto afirmarem que de um sino se tratava, a minha memória teima em afirmar-me que este elefante indiano, que no seu auge só aceitava moedas brancas recusando as negras que atirava por cima do dorso, aos meus olhos de infância tocava um tubo fixo à parede que emanava o som de uma corneta, e que veio mais tarde a ser substituído por um sino. E nada me demove desta convicção profunda!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que este pequeno detalhe, com dezenas de anos, pode ser a simples prova de que a minha memória não é, de facto, de elefante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-7069298544840630351?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/7069298544840630351/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=7069298544840630351&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/7069298544840630351'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/7069298544840630351'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/04/memoria-de-elefante.html' title='Memória de elefante'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='25' src='http://3.bp.blogspot.com/_oMaMCLsT-Co/StEaVjkxrpI/AAAAAAAAAJo/uLus1CLwkvo/S220/TrrHmmBoneRir...jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9010161326834080565.post-5688837664122572795</id><published>2009-04-05T23:20:00.002+01:00</published><updated>2009-04-05T23:25:44.463+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prosa'/><title type='text'>Maria tinha um cordeirinho!</title><content type='html'>Não sei qual foi a primeira gravação a atingir o sucesso da platina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas lembro-me de ter aprendido, há muito tempo, algo sobre a primeira gravação. Foi feita num cilindro de estanho, e reproduzida num aparelho rudimentar, o fonógrafo, por um senhor que o inventou, chamado Thomas Alva Edison, e consistia numa frase: "Maria tinha um cordeirinho".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conheci a Maria, não garanto que fosse a mesma, até porque não me mostrou cordeiro nenhum. Talvez por ter sido imolado para alguma celebração pascal, ou talvez por se ter tresmalhado com medo de o vir a ser. Nunca falámos de facto sobre isso, e já passaram tantos anos que ela se calhar nem se lembra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas consigo imaginar com facilidade a surpresa que terá sido para o Mundo saber daquela notícia, dada por um senhor empreendedor que resolveu divulgar a todos aquele facto real.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com alguns anos de experiência na observação da forma como as notícias se propagam, não me é de todo difícil imaginar que aquela frase, dita de boca em boca, terá levado a nossa Maria a ser considerada titular da maior ovinicultura alguma vez existente, e as consequentes dificuldades que terá tido para escapar à renhida perseguição dos agiotas que terão visto nela uma verdadeira mina de ouro, apenas comparável às do inóspito Klondike de há mais de um século.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sabemos se o cordeirinho era bem tratado, se era apenas mais uma peça de um rebanho. Mas sabemos que houve um cordeirinho e que pertencia à Maria. E sabemos também que aquele cilindro gravado, do qual talvez não se tenham feito muitas cópias, com a voz de um inventor que teria os dons artísticos de um Zé Cabra, foi o precursor de todas as gravações que há no Mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso é, no mínimo, notável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo meu lado, tive alguns periquitos, dois cães, um ouriço, algumas rãs, um cágado, peixes dourados e tropicais, um papagaio cinzento, um canário amestrado, um casal de bicos de lacre, vários hamsters, um porco da índia, e outros que agora não me ocorrem. Gostei muito deles, e estou certo que se o Edison fosse vivo, teria gravado um cilindro, que teria que ser maior, para perpetuar a minha memória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© CybeRider - 2009&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9010161326834080565-5688837664122572795?l=outranaferradura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outranaferradura.blogspot.com/feeds/5688837664122572795/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9010161326834080565&amp;postID=5688837664122572795&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/5688837664122572795'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9010161326834080565/posts/default/5688837664122572795'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outranaferradura.blogspot.com/2009/04/maria-tinha-um-cordeirinho.html' title='Maria tinha um cordeirinho!'/><author><name>CybeRider</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14009236782482354594</u
